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Depressão não precisa ser escondida

Revelar o quadro depressivo pode ser o início do caminho à cura

Jornalista Marcelo Monteiro recebeu diversos elogios após publicar o próprio relato

Jornalista Marcelo Monteiro recebeu diversos elogios após publicar o próprio relato. Foto: Arquivo pessoal

 

Ela é silenciosa. É perigosa. É uma doença. Tem cura. A depressão atinge mais de 350 milhões de pessoas, cerca de 5% a 10% da população mundial, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Os sintomas causam sofrimento e são prejudiciais à vida social e profissional das vítimas.

Ainda conforme a OMS, o Brasil é o país com maior prevalência de depressão nos últimos anos, com cerca de 10% da população apresentando sinais da doença. Um levantamento feito pelo DATASUS mostra que mortes relacionadas à depressão cresceram 705% em 16 anos. Nas estatísticas, estão incluídas casos de suicídio e mortes motivadas por problemas de saúde decorrente da depressão. Em razão disso, como afirma a psicóloga Angélica Bernardy, é muito importante falar sobre o assunto. Dessa forma, muitas pessoas que têm depressão podem ser ajudadas.

Na sexta-feira, 19, o relato publicado em Zero Hora pelo jornalista Marcelo Monteiro mobilizou as redes sociais e gerou uma grande repercussão. O assunto era depressão, a doença que atingiu o próprio repórter. De acordo com o jornal, foram mais de 40 mil acessos ao texto online e, no Facebook, 8 mil curtidas e 1,6 mil compartilhamentos. E inúmeros comentários elogiando a coragem do jornalista, que abordou o tema a partir de seu drama pessoal.

Segundo Marcelo, o principal motivo de ter escrito a matéria foi para ajudar pessoas que sofrem do mesmo mal. “Como jornalista, tendo mergulhado tão profundamente em uma doença que até então eu desconhecia, me senti na obrigação de escrever uma matéria esclarecedora sobre ao assunto, que pudesse auxiliar tanto os pacientes com depressão como seus amigos e familiares”, ressalta.

 

A depressão pode atingir qualquer pessoa de qualquer idade

A depressão pode atingir qualquer pessoa de qualquer idade. Foto: Laís Albuquerque

 

A doença

Conforme a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID), o episódio depressivo é descrito como um quadro de rebaixamento de humor, redução da energia e diminuição da atividade, além de sono perturbado e menor apetite. Os sintomas devem estar presentes há mais de duas semanas, afetar a vida social, afetiva e laboral do indivíduo e não terem como causa um luto recente.

De acordo com a psicóloga Angélica, é preciso entender que a depressão é uma doença e deve ser tratada. Caso o paciente não receba o tratamento, a depressão pode se agravar. “O estado deprimido, apático e sem condições para realizar suas atividades rotineiras faz parte do sofrimento de pessoas em depressão. Para muitas pessoas não há mais a percepção de sentido em suas vidas. Essa condição limitadora e dolorosa, sem cuidados e tratamentos adequados, pode, em alguns casos, levar ao suicídio. Esse é um desfecho de fenômenos multifatoriais”, salienta a psicóloga.

Ainda segundo ela, por dia, cerca de 20 brasileiros morrem por causa da depressão. Assim, é preciso identificar fatores de risco e proteção das pessoas com a doença. Organizada junto ao Ministério da Saúde, a Estratégia Nacional de Prevenção do Suicídio afirma que o diagnóstico e o tratamento adequados são essenciais à prevenção ao suicídio.

 

Muitos não percebem que estão doentes

O jornalista Marcelo Monteiro conta que demorou para perceber que algo havia de errado. Começou com noites mal dormidas e desânimo extremo. Era mais do que uma simples tristeza. Veio o isolamento, um corte na vida social. “Coisas básicas como levantar da cama, tomar banho ou fazer uma compra no supermercado se tornaram tarefas difíceis e, muitas vezes, impraticáveis”, escreve Monteiro em sua reportagem.

Especializada em terapia de família, casais e individual, Angélica afirma que muita gente sofre de depressão sem saber. “As pessoas com a doença, geralmente, não reconhecem a necessidade de auxílio/tratamento quando estão nesse estado. Por isso a importância da atenção às mudanças comportamentais e emocionais dos pacientes, por parte de amigos, familiares ou de uma rede de apoio desses indivíduos”. Conforme a psicóloga, a convivência com familiares e amigos pode ajudar ou agravar o quadro do doente. O afeto e apoio são fundamentais para quem sofre de depressão, mas, como ainda existe o preconceito em relação à doença, a convivência sem compreensão das pessoas próximas pode piorar os sintomas.

 

É preciso falar de depressão

Monteiro percebeu que, como jornalista, poderia contar sua história e ajudar quem está passando pela mesma situação. “Muita gente sofre de depressão sem saber, e a ideia era de que o texto pudesse ajudar as pessoas a se identificar com a situação e, quando fosse o caso, buscar auxílio especializado o quanto antes.”

Angélica confirma que falar sobre a depressão é necessário e ajuda a quebrar o preconceito. “Depressão não é simplesmente um estado de tristeza. Existe o preconceito, ainda há relatos de pessoas que acham que a depressão é frescura, nada sério. É preciso entender que a depressão é uma doença e pode levar à morte, sim. Falar sobre isso é muito importante para quem está sofrendo disso, justamente por muitos não saberem que têm a doença.”

Os comentários na matéria publicada online e nas redes sociais elogiaram a coragem de Marcelo em descrever a depressão severa que enfrentou. O repórter ficou oito meses afastado do trabalho, passando por tratamentos e medicação. Diversas pessoas revelaram nos comentários que estão passando pela mesma situação de Marcelo e, a partir do texto, identificaram os sintomas da doença. “Com a reportagem que publiquei, muitas pessoas perceberam que precisam buscar ajuda, seja para si mesmas ou para parentes que estão com o problema. Por isso, acho que a meta de minha reportagem foi alcançada”, destaca o jornalista.

 

Não há motivos para ter vergonha

A jovem Luana P., de 28 anos, enfrenta a depressão há quase quatro anos. Após o término de um casamento em razão de uma traição, em 2012, Luana entrou em colapso: ficou deprimida, apática, com autoestima baixa, pessimismo, tristeza, insônia, sem apetite, crises de choro, ansiedade, insegurança e desespero. Mas foi só depois de dois meses, com o estado de saúde piorando, que ela conseguiu procurar ajuda. O diagnóstico: depressão profunda. O tratamento foi terapia e remédios antidepressivos ao longo de seis meses. “Foi difícil aceitar estar doente. Dá vergonha. Na verdade, logo no início, não percebia que estava doente. Pensava que era apenas tristeza, algo sem importância. Porém, a falta de interesse em tudo foi aumentando. Fui demitida do meu emprego por causa das crises de sono que eu tinha. Até que cheguei no limite e busquei ajuda.”

Para Marcelo, é preciso que o assunto seja divulgado: “É necessário que os órgãos de imprensa criem pautas e abordagens diferenciadas para trazer o assunto à tona vez ou outra. Nem sempre é preciso um gancho para se mencionar uma doença tão séria, silenciosa e perigosa”.

Angélica ressalta que há uma divulgação da depressão nos meios de comunicação e também pela saúde, mas ainda é preciso ser melhor difundida. “Percebo que há um movimento, principalmente pelos profissionais da área da saúde, em discutir e divulgar esse assunto. Um exemplo atual é dos atletas olímpicos Rafaela Silva, Diego Hypólito eMichael Phelps, entre outros, que expuseram seus períodos críticos da doença e que, através de seus tratamentos e apoio de suas redes, conseguiram retornar às suas atividades sociais e ocupacionais. A divulgação de casos de depressão ajuda, sim, outras pessoas que estão passando por isso”, destaca a psicóloga.

Esconder os sintomas da depressão agrava a doença. No caso de Luana, era doloroso ter que lidar com os comentários negativos das pessoas que não compreendiam o que ela estava passando. “Ouvia sempre os mesmos conselhos, que era besteira ficar assim, que iria passar, que eu precisava sair mais. Eu precisava de ajuda. Me envergonhava pelos outros acharem que o que eu sentia era bobagem. Eu demorei para buscar ajuda justamente por também achar que era besteira.”

 

Os sintomas podem voltar

Neste ano Luana voltou a sentir os mesmos sintomas da depressão. Atualmente, ela está em tratamento. Conforme a psicóloga Angélica, uma das características da doença é a possibilidade de ela retornar. “Ser curado não quer dizer que não vai voltar. O importante ressaltar é que, seja uma pessoa que já enfrentou a depressão ou que nunca tenha passado por isso, deve estar atenta aos sintomas. Parentes e amigos são essenciais para ajudar alguém que esteja passando por isso.”

Para Marcelo, esse apoio foi essencial para sua cura. “O apoio de amigos e familiares é fundamental para quem tem depressão. E é essencial que as pessoas próximas do paciente busquem informação para saber como lidar com um depressivo. Ficar dizendo que o paciente ‘não tem motivos para estar assim’ ou ‘que precisa reagir’ não adianta. O paciente sabe de tudo isso. Ele simplesmente não consegue reagir. Está tão no fundo do poço que mal consegue forças para manter-se respirando. Ou seja, sair do estado de apatia que se instala quando a crise depressiva é grave é algo praticamente impossível sem a compreensão (e o apoio incondicional) da família e dos amigos.”

 

“É muito difícil enfrentar uma depressão, especialmente no começo, quando se tem apenas os sintomas e não se sabe a razão de tanta aflição. Além disso, mesmo depois do diagnóstico, há que se aguardar ainda um tempo para que os remédios comecem a fazer efeito. Por isso, o começo é muito mais difícil e traumático. Depois que os remédios começam a agir as coisas vão se ajeitando, e a busca pelos medicamentos e pelas dosagens adequadas para cada caso torna-se mais uma questão de refinamento do tratamento – após o desaparecimento dos sintomas depressivos, podem restar efeitos colaterais dos medicamentos, e isso pode ser minimizado com a substituição dos remédios e com a busca de doses corretas”, finaliza Monteiro.

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