Economia

Madá: de sacoleira a afroempreendedora

Moda Afro carregada na sacola é a marca registrada da afroempresária que faz sua marca rodar o Brasil

Fonte: Arquivo Negrif Moda Afro ganha cada vez mais espaço no mercado

Fonte: Divulgação Negrif

Aliando moda, ancestralidade e beleza foi que assim surgiu a Negrif,  marca de roupas especializada em moda de origem africana que nasceu na Bahia e hoje se espalha por seis Estados brasileiros, incluindo o Rio Grande do Sul. A comercialização é personalizada e segmentada, mantendo uma cultura da venda direta para a rede que cresce em torno da cultura afro. As peças são exibidas nas casas da representantes, em visitas às clientes e em feiras do setor.

Madalena Bispo, ou Madá Negrif como ela se intitula, é designer de moda e a estilista que assina as peças da marca. Produzindo moda afro elaborada com base no conceito de afirmação da cultura afro-brasileira, ela utiliza referências africanas e para criar roupas femininas, masculinas e infantis. Peças amplas, com bolsos largos, tecidos coloridos e estampas autorais são as principais características do mix de tendências da grife.

O fascínio pela moda acompanha Madá desde a infância. Filha e neta de costureiras, ela cresceu em meio aos retalhos, agulhas e carretel de linhas. A menina franzina, filha do meio de Estelita, “costureira de mão cheia” de Salvador, desde cedo mostrava interesse pelo mundo da moda e pelas diferentes texturas dos tecidos. Aos dez anos desenhava e criava croquis, que posteriormente se transformariam em roupas para suas bonecas. “Lembro-me muito bem da Madalena em volta da máquina de costura mostrando desenhos e pedindo para que eu os costurasse, relembra saudosa dona Estelita. Com treze anos ela “pilotava” com precisão a máquina de costura que tinham em casa. No aniversário de 15 anos, herdou de presente da avó Maria Firmina uma máquina Singer, que já estava com a família há três gerações. “Eu ainda não consigo descrever a felicidade de receber das mãos da minha vó a máquina que ela havia herdado de sua mãe. Naquele momento eu tive certeza da minha vocação”, enfatiza ela.

Ainda no primeiro ano do curso de produção de moda do SENAC, ela decidiu que passaria a produzir roupas com essa identidade afro. “Minha trajetória começa querendo criar roupas diferentes e com identidade”. Claudia Renata Pereira de Campos, 35 anos, mestre em história social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), afirma que o crescimento do produto afro indumentário vem para contribuir com o posicionamento da identidade negra nos dias atuais. “A influência da cultura africana é estampada nas cores, formas e estilo da moda atual afro-brasileira. Isso pode ser observado na utilização de tecidos coloridos, ou mesmo agregando nessa moda, artefatos regionais, como a renda e o bordado. Falar de uma moda afro é tentar sintetizar parte de uma cultura muito rica e vasta”, explica Claudia.

De maneira amadora, como ela definiu aquele período, Madá iniciou a produção, com pouca qualificação, inexperiência em gestão e com investimento baixíssimo. “Os insumos eram comprados em pequenas quantidades e pagos à vista, pois eu não tinha cartão de crédito e nem aporte financeiro para investimentos maiores”, recorda Madá. Foi assim, de forma quase que artesanal, que os primeiros modelos foram ganhando contornos nas mãos das empreendedoras. A Negrif estava nascendo ali na casa pequena de quatro cômodos na periferia de Salvador.

Como em todo o início de negócio, Madalena precisou se desdobrar em varias funções. Cabia ela as atribuições administrativas do negócio. Desde a criação dos modelos, passando pela compra dos insumos e a venda das peças. Diariamente ela saia de casa com os modelos prontos em sacolas e os oferecia por onde andava. “Em todos os lugares que eu ia levava a sacola cheia de produtos para vender. Por muito tempo essa sacola foi minha grande companheira no transporte público de salvador.

mae e filha negrif

Fonte: Divulgação Negrif

Madalena percebia resultados, mas ainda protelava para alçar voos maiores. Ela preferia se manter na informalidade por medo de dar um “passo maior do que a perna”. Em 2011, depois de formada, qualificada e conhecendo o mercado do vestuário, Madá saiu da informalidade e abriu uma loja física para empreender com a Negrif. O espaço alugado tinha pouco mais de 15m²  e foi mobiliado com o que ela tinha em casa: uma arara e um puff. “Tive muito medo de sair da informalidade, pois acompanhei colegas e amigos que não conseguiram vencer os desafios de ter o seu próprio negócio”. Aos poucos Madá foi adquirindo confiança, conquistando clientes, ganhando espaço e consolidando a marca no mercado.

As redes sociais ajudaram a propagar o nome da grife, foi nessa época que ela começou a viajar o país apresentando seus produtos. A primeira viagem foi à cidade do Rio de Janeiro, “na página da loja anunciei que estaria na cidade, geralmente escolhia um ambiente de identificação étnica e esperava que os interessados em conhecer os produtos me procurassem”, conta Madá. De sacoleira que pegava cinco ônibus por dia, Madalena passou a andar de avião. O Rio de Janeiro foi um divisor de águas para a Negrif, que passou a ser convidada a participar de feiras por todo o Brasil, representando a cultura e a identidade afro.

A presidente da Rede Brasil Afroempreendedor (ReAfro) Ruth Pinheiro enaltece a importância dessa identificação cultural através da moda. “Um grupo é identificado pelas suas vestimentas, seus costumes, sua cultura. Criando assim um estilo próprio. A valorização desse estilo é resultado da nossa política de afirmação. Sim, moda também é uma ferramenta importante pra nossa identidade”, afirma Ruth.

Além da loja física, a Negrif conta com representação nos estados do De São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Rio Grande do Sul, Recife e Belo Horizonte. “Todos os dias recebo contato de pessoas interessadas em representar a Negrif,  por enquanto não queremos expandir. Os desafios de afroempreender são enormes e por respeito aos nossos clientes e a nossa marca temos outras prioridades que vão além da nossa expansão”, conclui a empreendedora.

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