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De ônibus, gaúchos rumam ao #OcupaBrasília

Sindicatos atendem chamado das centrais e tomam as ruas da Capital Federal

72 horas dentro de um ônibus. 5 dias de viagem. 4 noites dormindo em uma poltrona meramente reclinável. 6 estados mais o distrito federal. 1 ônibus, 2 andares. 49 passageiros. 2 motoristas. Duas principais motivações: eleições diretas e a saída do presidente Michel Temer.

Em números, esse pode ser um rápido resumo de como foi acompanhar uma fração do movimento sindical em viagem para a capital federal.
Adentrando o assunto, a história fica um pouco mais extensa.

Lotado com sindicalistas de diversas entidades, o ônibus com a palavra “Cidade” impressa em sua lateral partiu do Largo Zumbi dos Palmares, em Porto Alegre, cruzando o país para se juntar ao movimento intitulado #OcupaBrasília, organizado por um conjunto de centrais sindicais após uma avaliação positiva do que foi a greve no último dia 28 de abril. No ônibus, as entidades representadas eram, entre outras, o Ceprol (Sindicato dos Professores Municipais Leopoldenses), Simpa (Sindicato dos Municipários de Porto Alegre), Sindiserv (Sindicato dos Servidores Municipais de Caxias do Sul), Sindicato dos Aeroviários de Porto Alegre e Levante Popular da Juventude.

Unanimemente, os passageiros pediam a saída de Temer. A maioria, eleições diretas. Alguns, a volta de Dilma. Outros, a volta de Lula. As reformas como a da previdência e a trabalhista, outro ponto de convergência de opiniões: não podem passar.
Dentro do movimento sindical, pontos previstos pela reforma como o “acordado sobre o legislado”, onde patrões e empregados poderão assinar um contrato contendo as condições de trabalho, ganham contornos mais fortes. Com experiência em negociações coletivas, os sindicalistas afirmam que esse ponto é crítico, e pode vir a submeter trabalhadores a escalas picotadas e empregos “faz tudo”.

Andréia Nunes, presidente do Ceprol, foi quem organizou a maior parte dos assuntos da viagem, como as paradas e seus horários. Fez uma eleição para eleger uma vice coordenadoria, disputada inicialmente por Caio, do Levante, Rodolfo, dos Aeroviários, e Margarete, do Ceprol. Lá pelas tantas, entre falas de defesa e promessas eleitorais, Caio se uniu com Margarete, formando uma coalizão contra Rodolfo. Foram chamados de golpistas e ganharam a eleição.

Decepcionados pela derrota e traídos pelo Osvaldo, dos Aeroviários, que defendeu a eleição da chapa Margarete-Caio, o pessoal do fundo do ônibus passou a entoar “Osvaldo viado”. Aí, o choque. O Levante Popular da Juventude, lá do outro extremo do ônibus, respondeu com “homofobia não”. Jovens versus sindicalistas mais velhos ou de cidades menores. E o pedido para que se parasse com homofobia até surtiu efeito, diminuindo a quantidade desse tipo de coro.

No banco da minha frente, um senhor do Simpa, o qual não me recordo o nome, fazia companhia para outro homem que não foi chamado de outra coisa se não de gaúcho: adentrou o ônibus de bombacha e lenço, camisa e guaiaca. Pronto, virou “o Gaúcho”, ou “Gaudério”.

No banco de trás, dois homens de Ijuí, com o sotaque mais sulista mais forte que eu já escutei. Tímidos, não se manifestavam muito. Mas só até o Gaúcho começar a cantar músicas como “No mesmo bar”.

O ônibus de viagem era bastante confortável, boas poltronas, sistema de ar-condicionado decente, banheiro, telas retráteis nos corredores, geladeira, sistema de som. Mas nenhum ônibus é bom o suficiente a ponto de agradar um passageiro por 5 dias consecutivos. Na volta, houve quem já xingava as poltronas, a escada, o sistema de som e qualquer outro objeto inanimado. Mas vamos falar do começo da viagem.

Em todo paradouro, mais um pastel, um refrigerante de guaraná local. Vez em quando, um buffet fora de hora, já não tão atraente quanto recém servido. Normalmente fazíamos 4 paradas por dia: café da manhã, almoço, lanche e janta. Vai do cidadão pular uma refeição ou sentir que a parada vai se estender para dar tempo de tomar um banho.

Assim chegamos em Brasília, com as pernas duras de estarmos sentados. Ansiedade foi a tônica, pelo menos pra mim, estudante de jornalismo em sua primeira experiência fora da capital natal, acompanhando o Sindicato dos Aeroviários de Porto Alegre como estagiário de assessoria de imprensa e como repórter da Beta Redação.

200 mil? 150 mil? Aécio preso? Movimentos em direções opostas:
O poder da bomba de gás e do spray de pimenta

A concentração de quem quer que tenha tido vontade de aderir ao #OcupaBrasília foi no Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha, construído para a Copa de 2014. Desembarcamos lá próximo das 10h da manhã, e logo ouvimos que algumas organizações já estavam ali desde o começo da madrugada. Com seu estacionamento servindo de garagem de ônibus, o pátio do estádio recebeu tendas das mais diversas cores, abrigando centrais sindicais e sindicalistas de todo o Brasil, além de movimentos partidários e estudantis.

 

Johnny Oliveira/Beta Redação

Nova Central de Trabalhadores foi uma das entidades sindicais a organizar o protesto. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

 

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Diversas cores montaram o colorido da #OcupaBrasília. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

 

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Central dos Sindicatos Brasileiros foi o verde em Brasília. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

 

No acampamento improvisado, uma ampliação do interior do ônibus: Volta Lula, Volta Dilma, Fora Temer e Diretas Já. Manifestações que, devido a dissidências, pareciam ser muito mais de cunho individual do que uma definição de cada central. Por volta das 11h da manhã, os carros de som começaram a se deslocar pela Avenida Eixo Monumental em direção ao Congresso Nacional. Uma caminhada tranquila, passando pelo setor hoteleiro da cidade e por pontos turísticos como a Catedral de Brasília. Os brasilienses aproveitaram para vender comidas e bebidas durante toda a extensão da avenida. Durante o trajeto, nenhum carro de polícia.
Um caminhão ao estilo trio elétrico, todo vestido de vermelho CUT, contava com um homem e uma mulher que puxavam músicas como “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, acompanhada em coro pelos sindicalistas. Mesmo com a grande dimensão da multidão que marchava pela rua, as transversais que cruzam o Eixo Monumental por viadutos não tiveram seu trânsito parado, mas no máximo afetado pela quantidade de curiosos que se espremiam e por fotógrafos que procuravam fazer a tradicional foto que há de todo protesto, onde de um ponto alto pode se ver com maior clareza o tamanho da massa.

 

Johnny Oliveira/Beta Redação

Antena de Brasília pode ser vista ao fundo. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

 

Entramos na região onde começam a se enfileirar os prédios dos ministérios. Logo, a caminhada estanca, caminhões param, barulhos de bombas começam, cheiro de gás toma conta do ar, alguns passam correndo em direção contrária a que caminha a marcha.
A partir daí, a orientação da CUT (Central Única dos Trabalhadores)  passou a ser de não avançar, de concentrar no gramado central, entre as duas avenidas do Eixo Monumental (uma só vai e a outra só vem). A frente da CUT, apenas a Nova Central Sindical dos Trabalhadores (NCST). Dos carros de som, números desencontrados sobre a quantidade de manifestantes. Falou-se em 100 mil, 125, 150, 200. A impressão era de muita gente. Pra mim, no mínimo, os 100 mil.
Foi então que uma fumaça preta pode ser vista do lado contrário ao dos manifestantes, à direita do Palácio do Planalto. Corri, alcancei. Bicicletas do banco Itaú foram incendiadas em frente ao Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Ali, alguns alimentavam o fogo com placas de madeira, outras bicicletas e pedaços e paus de bandeiras. A repressão policial não alcançava o ponto, se mantinha na linha de frente, nos Ministérios mais próximos do Congresso. Já nessa altura da Avenida, muitas pessoas com o rosto branco pelo contato com leite de magnésia, usado para amenizar os efeitos das bombas de gás lacrimogênio. Rostos cobertos com máscaras improvisadas ou profissionais, óculos de proteção ou de Sol e também vinagre, outra substância que suaviza os efeitos do gás, faziam parte do cenário cada vez com mais frequência, a medida que a proximidade da polícia ia aumentando.

 

Johnny Oliveira/Beta Redação

Cobertos ou não, manifestantes incendeiam bicicletas na avenida paralela a da manifestação. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

 

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Leite de magnésia foi o método mais usado para amenizar os efeitos das bombas. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

Na linha de frente, na última rua que separa o gramado comum do gramado que teve a sorte de ser “o gramado em frente ao Congresso Nacional”, dois caminhões de som orientavam os manifestantes que jogavam objetos na Polícia Militar a não se esconderem atrás dos carros. “Assim fica muito difícil, pessoal. Não venham se esconder aqui atrás do caminhão, não”, disse o homem ao microfone. Nas duas ruas que dão acesso ao Congresso, carros, blindados, tropa de choque e cavalaria. Mas ao contrário do que pode imaginar o leitor, o cenário não era constantemente caótico. Algumas pessoas sentaram-se tranquilamente no gramado, de frente para as forças polícias, e ali ficaram. Com os rostos descobertos mesmo.

Voltando em direção a onde estava o carro de som da CUT, ouço o homem falar “PRENDERAM O AÉCIO”, mas eu entro no precário 4G e nada, nenhuma notícia sobre a prisão de Aécio, que tem poder para ser manchete de qualquer jornal brasileiro. “Brasília não tem capacidade pra receber um protesto desse porte”, penso eu quando não consigo mandar fotos e vídeos utilizando o celular.

A orientação da CUT é de dispersar a manifestação. São 16h da tarde. A primeira informação foi de que às 19h seriam feitas falas, em frente ao Congresso, e às 22h a manifestação seria dispersada. Segundo a organização, devido a resposta da polícia, com bombas e balas de borracha, não seria viável continuar ali.

Então rumamos, eu e alguns colegas de ônibus, numa busca por um almoço tardio. Paramos na rodoviária da cidade, que fica quase que exatamente no meio entre o Mané Garrincha e o ponto do protesto. Paramos em um restaurante bem popular e bastante lotado, mas a fome que sentíamos iria tratar de tornar qualquer refeição em um banquete.
No térreo da rodoviária ficam os ônibus, partidas e chegadas. No segundo andar, que tem vista para o primeiro, lojas e restaurantes. Já servido, almoçava tranquilo quando escutei alguns barulhos e olhei para os que estavam comigo. Peguei o celular, recém adquirido (nunca havia tido um smartphone) e me debrucei no balcão que dá vista para o primeiro andar. Ali, jovens corriam de policiais, que com cassetetes em mãos e bem equipados com proteções, corriam atrás dos jovens. Tentei filmar a ação, mas apertei o botão errado na tela. E enquanto eu tentava entender o que acontecia ali no meu aparelho, olhei pra baixo e vi um superior dando ordem para um policial, apontando pra mim com o dedo. Pronto. Tomei spray de pimenta na cara, não consegui comer os dois ovos de codorna que ainda estavam no meu prato.

Dali fomos pro ônibus, mas perdemos o Osvaldo no caminho, na correria de voltar e, principalmente, de sair da rodoviária. Apesar dos atrasos pra juntar todos os 49 passageiros, às 20h já estávamos na estrada em direção a Porto Alegre.

 

Johnny Oliveira/Beta Redação
Confrontos aconteceram desde o primeiro instante do protesto. Foto: Johnny Oliveira/Beta Redação

A volta de ônibus foi bem mais cansativa do que a ida, e também cheia de reflexões. Ficou bastante claro, pra mim e pra outras pessoas envolvidas na conversa dentro do ônibus, que houve falta de organização e desencontro entre atitudes das centrais sindicais. Segundo os sindicalistas, existe a necessidade de um ato ainda maior, seja nas cidades de cada um ou novamente na capital federal.
A repressão policial, que inclusive acertou um colega de ônibus, com uma bala de borracha na cabeça, também foi um dos pontos centrais das discussões pós-protesto. Os meus assessorados, por exemplo, sequer viram as forças policiais com seus próprios olhos no Congresso, mas tossiram, tossiram e tossiram sob efeito de bombas.
Há certeza de novas manifestações. Há também a necessidade de organização. Os sindicalistas saíram de Brasília com vontade de ficar e, antes mesmo de chegar em Goiás, já falavam em voltar. Segundo a presidente do Ceprol, Andréia Nunes, os milhares de Brasília representaram os milhões de brasileiros.
E o que aconteceria se os milhões fossem à Brasília?

 

 

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