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DCE promove debate sobre direitos humanos na Calourada

Jornalista, defensor público e advogado foram convidados para mesa de exposição

Foto: Cassiano Cardoso

Evento lotou o Auditório Pe. Bruno Hammes. Foto: Cassiano Cardoso/Beta Redação

 

Em tempos em que cada vez mais se vê os direitos humanos negados a uma parte da população, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unisinos trouxe o assunto para dentro da universidade. A atividade ocorreu no Auditório Pe. Bruno Hammes na noite desta terça-feira (21) e contou com a participação de três debatedores. A mesa, mediada pela estudante de Direito Clênia Gajardo, foi uma das diversas ações promovidas para a Calourada do período 2017/1.

Entre os convidados, o defensor público Mário Rheingantz questionou até onde o Estado promove a liberdade das pessoas. “Os direitos humanos foram conquistados com sangue. Há uma necessidade de que cada um tenha liberdade. O Estado deve investigar, processar e indiciar isso”, apontou. Ele conta que “ao invadir uma casa sem ordem judicial, o policial acaba por cometer o crime de invasão domiciliar, entretanto, se encontrarem drogas, estaria validada a ‘invasão’”, mostrando a liberdade que a polícia recebe.

 

Mário Rheingantz criticou ações da polícia com os detentos. Foto: Cassiano Cardoso

Mário Rheingantz criticou ações da polícia com os detentos. Foto: Cassiano Cardoso/Beta Redação

 

Segundo ele, o caos da segurança pública atinge especialmente o povo marginalizado, mas os policiais também acabam sendo vítimas dessa situação. “A invasão domiciliar e essa busca incessante ao tráfico não acontece no Cristo Rei, nem no Centro. Acontece na periferia. Lá, mais gente morta pela polícia, e os policiais acabam sendo vítimas pelo combate ao tráfico”, explicou.

Sobre o sistema carcerário, Rheingantz lembrou de situações em que os direitos humanos são violados. “Aqui em Porto Alegre, pessoas ficam presas dias num ônibus. Quinze presos e uma privada. Do lado de fora, outros presos estão algemados num corrimão de um galpão”, instigou para o auditório lotado.

De acordo com o defensor público, ao passar pelo centro de triagem, cada detento é repassado para a área do presídio que sua facção comanda. “E quem não tem facção? Vai ter que entrar para uma”, exclamou. E foi sutil ao propor uma reflexão para a plateia: “Traficante não é só o cara que vende balinha, é também quando tu passa teu baseado na roda”.

Outro convidado da noite foi o advogado da Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (Renap) Rodrigo de Medeiros. Um pouco diferente do defensor público, ele trouxe a conjuntura política ao debate. “Um Estado que defende o livre mercado e o conservadorismo só apoia um discurso que mata cada vez mais”, opinou.

Para o advogado, não é apenas no Brasil que o discurso intolerante está tomando conta. “O caminho já está sendo dado. Com Trump, com a situação da extrema-direita na França. Todos com políticas que retiram direitos dos cidadãos”, apontou Medeiros.

 

O advogado Renato de Medeiros trouxe a conjuntura política para a mesa. Foto: Cassiano Cardoso

O advogado Renato de Medeiros trouxe a conjuntura política para a mesa. Foto: Cassiano Cardoso/Beta Redação

 

Em sua fala, também lembrou do projeto de vereadores porto-alegrenses chamado “Armas pela Vida” e indicou o tratamento diferente entre as classes no tráfico de drogas. “Acham que estão promovendo segurança, quando na verdade estão apenas preparando o povo para mais mortes”, exclamou. Segundo ele, o Brasil é constituído desde sempre por desigualdade e violência.

Fala de repórter

A repórter do Diário Gaúcho Aline Custódio humanizou um pouco mais o debate e trouxe alguns dos cases pelos quais recebeu prêmios de direitos humanos. “No Rio de Janeiro, é comum matar pobre”, denunciou. Ela contou a história de Juan, o menino que sumiu após uma invasão da Polícia Militar na favela. De acordo com Aline, a perícia nunca aparecia nesses casos. “Não tinham nome e haviam sido mortos. Do lado deles, um revólver 38. Juan sumiu e não estava entre eles”, contou, lembrando que a polícia sempre alegava auto de resistência e, por isso, disparou.

No entanto, com a apuração da repórter, descobriu-se que o menino foi assassinado sem ao menos estar armado. “Todos os dias levantávamos algo novo. Depois, o corpo apareceu. Havia sido jogado no Rio Botas, e quatro PMs foram presos no caso”, lembrou Aline. Porém, a família de Juan ficou presa para sempre no programa de proteção à vítima, e está longe do RJ, em algum lugar do Brasil.

Mesmo trabalhando no Diário Gaúcho, jornal popular e com uma certa facilidade de acesso nas vilas de Porto Alegre, Aline Custódio contou que em algumas regiões ela não pode mais entrar. “Com a ausência do Estado, o tráfico tomou conta. Apenas consigo contato por telefone com os moradores. A gente tá aqui no ar-condicionado, mas tem gente presa lá dentro sofrendo muito”, contou.

 

A jornalista Aline Custódio falou sobre algumas de suas matérias onde os direitos humanos foram violados. Foto: Cassiano Cardoso

A jornalista Aline Custódio falou sobre algumas de suas matérias que retratam direitos humanos violados. Foto: Cassiano Cardoso/Beta Redação

 

Plateia e organização

De uma das cadeiras do auditório, o egresso do curso de Direito da Unisinos Alex Silveira, 23 anos, falou sobre o que achou da atividade. “É importante esse debate na universidade justamente para desconstruir a banalização do senso comum que se tem sobre os direitos humanos. É um assunto relevante, que deve ser respeitado”, opinou o advogado.

Membro da atual gestão do DCE, Daniel Schiites, 28 anos, contou como surgiu a ideia de trazer o debate da segurança pública à universidade. “É um assunto que vínhamos discutindo desde a campanha. Precisávamos trazer o assunto para a sala de aula”, contou o estudante.

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