Esporte

Da Liga da Canela Preta ao jogar das bananas

Mesmo após tantos anos, a sociedade ainda não evoluiu o suficiente para deixar de praticar racismo

Ao longo dos tempos, o futebol, inúmeras vezes, foi protagonista de situações emblemáticas da sociedade. Fim de guerras, integração entre povos, acolhimento daqueles que estão em situação vulnerável. Mas uma mazela, mais precisamente um crime previsto em lei, insiste em perpetuar-se neste que é o esporte mais praticado do mundo: o racismo.

Desde sua invenção, em meados do século XIX, a segregação racial é uma marca. Na época, muitos países mundo afora ainda viviam situação escravista, inclusive o Brasil. Mesmo após a abolição dos negros escravos, que no Brasil ocorreu no ano de 1888, os negros não tiveram oportunidades de praticar futebol juntamente com os homens brancos.

Com a popularização do esporte bretão em solo brasileiro, no início do século XX, os clubes tradicionais não aceitavam negros em suas equipes, por serem considerados inferiores, além de pertencer a uma classe econômica menos favorecida. Sendo assim, os negros organizaram entre eles uma liga, que veio a ser conhecida como “Liga da Canela Preta”. A Liga, que teve sua criação na cidade de Porto Alegre, também teve edições nas cidades de Rio Grande e Pelotas, respectivamente, as ligas Rio Branco e José do Patrocínio.

No inicio do século XX os atletas negros não podiam disputar os mesmos campeonatos dos jogadores brancos. Assim, criaram a Liga da Canela Preta.

Segundo levantamento do site “Observatório da Discriminação Racial no Futebol”, que realiza estudos sobre o assunto, o primeiro clube que oficialmente aceitou um atleta negro foi o Bangu, do Rio de Janeiro. Isso ocorreu no ano de 1905, quando o time carioca, formado por operários de uma indústria de tecelagem, inscreveu Francisco Carregal. Na época, a Liga Metropolitana de Futebol chegou a impedir a inscrição do rapaz, o que levou o Bangu a se afastar do campeonato.

 

 

AS PUNIÇÕES

Apesar de muitas evoluções terem ocorrido, não é raro deparar-se com atitudes discriminatórias, ainda nos dias de hoje. O primeiro clube a ser punido no Rio Grande do Sul foi o Esporte Clube Juventude. No ano de 2005, quando o time de Caxias do Sul jogava contra o Internacional, partida válida pelo campeonato brasileiro daquele ano. A torcida “Jaconeira”, como é conhecida, imitava um macaco todas as vezes que Tinga, volante do Inter, tocava na bola.

O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), em decisão unânime, aplicou multa de R$ 200 mil e tirou o mando de campo de duas partidas da equipe de Caxias do Sul. Na época, como conta Marcelo Carvalho, coordenador do site Observatório da Discriminação Racial no Futebol, não havia ainda um código na lei desportiva que tratasse sobre o assunto. A lei que trata da injúria racial no futebol veio somente em 2009, artigo 243, incluídos pela Resolução do CNE (Conselho Nacional do Esporte) nº 29, que faz a seguinte explanação:

“Praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”

Carvalho relata que um dos maiores problemas das leis propostas para este tipo de assunto é a possibilidade de interpretação. Ao mesmo tempo que um clube pode ser eliminado de uma competição por atos racistas que venham a ocorrer no campo de jogo, outro pode pagar o mesmo delito somente com multa financeira.

 

COMISSÕES DE ANÁLISE

A discriminação racial tem um forte monitoramento da UEFA. Imagem: Divulgação/UEFA

A discriminação racial tem um forte monitoramento da UEFA. Imagem: Divulgação/UEFA

 

A fim de evitar a discriminação racial e/ou sexual, a UEFA criou comissões de análises durante os jogos, para punir eventuais situações. Em todos os jogos válidos por competições europeias, como a Champions League, um agente da UEFA, a paisana, comparece ao estádio, fiscalizando cada ação suspeita.

A FIFA também tem recorrido ao mesmo procedimento. Em suas competições, como as eliminatórias para a Copa do Mundo. O procedimento adotado é o mesmo da instituição europeia. Decorrente desta vigilância, a CBF está sendo punida pela terceira vez. A mais recente incidência se deu na partida entre Brasil x Paraguai, ocorrida no último dia 28 de março, na Arena Corinthians. Durante a partida, a torcida brasileira utilizou o termo “bicha” para se referir ao goleiro paraguaio.

Marcelo Carvalho faz um alerta para que as ações anti-raciais não fiquem somente no âmbito publicitário, sem ações preventivas. Cita que devem ser realizados fóruns de debate e conscientização sobre as questões raciais.

 

ESPELHO SOCIAL

Com a flacidez das punições em âmbito desportivo, o campo de jogo se torna, em tese, uma “terra sem lei”. É esse o ponto que Márcio Chagas da Silva, ex-árbitro de futebol e comentarista levanta. Segundo ele,  “a discriminação racial dentro do futebol nada mais é a que acontece no dia-a-dia, na nossa sociedade. A única forma que diferencia um pouco mais é o fato de que no estádio tudo é permitido”, afirma.

Chagas relata que no âmbito do futebol o racismo ainda se faz muito presente, seja da arquibancada, seja de diretores dos clubes ou até mesmo dos jogadores. Ele afirma que no estádio as pessoas apenas manifestam seus pensamentos preconceituosos, já que fora dali seriam punidas.

 

CASO EMBLEMÁTICO

No ano de 2014, Márcio Chagas conta ter vivido o caso mais emblemático da sua carreira de árbitro de futebol. Em uma partida do campeonato Gaúcho daquele ano, Márcio foi a Bento Gonçalves apitar  Esportivo e Veranópolis.

Ele conta que, antes mesmo de iniciar a partida, já recebia xingamentos e ofensas por parte da torcida. Segundo Márcio, um grupo de aproximadamente 30 torcedores, localizados na área social do estádio, dirigiam-se a ele de maneira preconceituosa, o chamando de “negão”, “macaco”, “nego sujo”.

Ao término da partida, quando dirigiu-se ao carro, que estava em área restrita, onde somente dirigentes e funcionários podem ter acesso, Márcio Chagas se deparou com depredações em seu veículo. Além de amassados e arranhões na lataria, ele encontrou bananas em cima do carro. Na ocasião, o Esportivo negou que tivesse relação com o ocorrido, afirmando ainda que os danos foram causados pelo próprio árbitro, a fim de ganhar uma promoção midiática.

Veiculo foi atingido durante partida entre Esportivo x Veranópolis. Imagem: Márcio Chagas/Arquivo pessoal

Veiculo foi atingido durante partida entre Esportivo x Veranópolis. Imagem: Márcio Chagas/Arquivo pessoal

 

O clube da serra gaúcha foi punido com a perda de seis mando de campo, uma multa no valor de R$ 30 mil, além de perder nove pontos na competição, o que acabou culminando no rebaixamento da equipe para a divisão de acesso.

 

FALTA DE EMPATIA

Tanto no meio social quanto no futebol, a regra que vale em relação ao racismo é “se não é comigo, não tem problema”. O maior exemplo que pode ser citado neste sentido é o Pelé, considerado um dos maiores jogadores da história do futebol. Não há registros em que o “Rei do Futebol”, tenha levantado a bandeira de combate a discriminação racial.

Para Marcelo Carvalho, ao mesmo tempo em que se constata a falta de atuação de Pelé neste sentido, pode-se dizer que ajudou a promover a igualdade racial com o seu futebol. “A presença do Pelé como um grande atleta negro brasileiro possibilitou que a sociedade acreditasse que negros poderiam ser grandes atletas”, afirma.

Carvalho ainda cita que negros que não assumem compromisso com a causa, geram um problema ainda maior. Um dos motivos citados por ele é o descrédito dado àqueles que denunciam. Segundo ele, a partir do momento em que um negro começa de maneira repetida a reivindicar tratamento igualitário, se passa a taxá-lo como chato, o que pode desencadear problemas na sua carreira.

Márcio Chagas enxerga a conscientização somente entre os negros, afirmando que os negros conseguem ser mais conscientes e demonstrar sua insatisfação quando são ofendidos.

 

RELATÓRIOS DE DISCRIMINAÇÃO

Anualmente, o Observatório lança um relatório que aponta todos os casos de discriminação que ocorreram no futebol mundial. O último relatório lançado é referente ao ano de 2015. O levantamento traz dados não somente sobre racismo, mas também xenofobia e homofobia, além de outros esportes.

Pelo segundo ano consecutivo, o Estado do Rio Grande do Sul (RS) foi o que apresentou o maior número de incidentes, com nove casos, aumentando 80% em relação  a  2014.  Ao todo,  nove  estados tiveram  registros  de  algum incidente racial,  dois estados a menos em relação ao ano anterior.

 

Grafico racismo por estado

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