Economia

Cultura, artesanato e empreendedorismo negro na Unisinos

Feira Afro é realizada uma vez por mês em frente ao IHU

Abayomi significa “encontro precioso”, em Iorubá. Símbolo de resistência, a boneca negra de tranças ou nós, feita por mães africanas para seus filhos, serviam de amuleto de proteção durante as hediondas viagens a bordo dos tumbeiros, porões que transportavam escravos da África para o Brasil. Hoje, as bonecas ajudam a contar um pouquinho da história, religião, costumes e origens dos afrodescendentes. Agora, toda primeira semana do mês, quem transita pelo corredor central da Universidade, na frente do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, pode conhecer um pouquinho mais dessa cultura, na feirinha afro.

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Os artefatos contam a história da cultura afrodescendente. FOTO: Carolina Schaefer/ Beta Redação

A ação é do Núcleo de estudos afrobrasileiros e indígenas (Neabi) e da Unisinos, que juntos realizam atividades para marcar a Década Internacional de Afrodescendentes da ONU, que tem como tema reconhecimento, justiça e desenvolvimento, e estende-se até 2024.  Na feira, além da abayomis, é possível encontrar estatuetas feitas de gesso, brincos, bonecas, orixás, guirlandas, quadros africanos, vestimentas, colares e brincos e outros produtos de decoração.

Segundo Renata Mathias de Moura, auxiliar administrativa do Neabi, a feira foi pensada pela necessidade de mostrar a arte negra. Os empreendedores surgem mostrando a essência do negro dentro do artesanato. “A gente precisa desconstruir esse padrão de comércio eurocêntrico, sempre com os mesmos produtos. Os puxa-sacos, as bonecas brancas. Então com esse tipo de exposição afro, de feira, a gente pode mostrar um pouco a presença dos orixás, as vestimentas. Sentimos a necessidade de mostrar nossa cultura, nossa essência, nossa história”, ressalta.

Ela explica que a parceria com os artesãos surgiu durante a consciência negra, em novembro do ano passado. Na ocasião, o Núcleo realizou apresentações artísticas, danças típicas, comidas e oficinas sobre o cabelo negro, que aumentavam a autoestima das participantes. “Durante a programação achamos interessante mostrar um pouco do artesanato negro. Convidamos nossos parceiros para compor essas feirinhas que celebram a cultura afro e isso se estendeu para agora”, explica.

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Boneca aromatizada é exemplo de artefato disponível na feira. FOTO: Carolina Schaefer/Beta Redação

 

Reescrevendo espaços dentro da Universidade

O gesso apareceu como terapia para Isis Moreira Alves, 36 anos. Sempre focada na questão afro, ela começou a pesquisar na internet como poderia confeccionar e pintar bonecas de gesso. Por curiosidade, há oito anos, produzia e dava de presente suas esculturas. Hoje, em função da crise e de não estar trabalhando, Isis virou uma microempreendedora individual, que precisou se profissionalizar para aprimorar suas obras e conseguir gerar renda a partir delas.

A questão afro sempre esteve presente em sua vida. “Eu sou negra, afrodescendente. Por estar vivenciando, sobrevivendo num país racista, isso surgiu como ponto principal quando eu tinha oito anos, na segunda série, lá em 1988”, relembra. A mãe, mescla das etnias caucasiana e indígena, sempre procurou fortalecer a família, já que sofreu preconceito por casar com um homem negro. Isis comenta que crescer nesse mundo significa que sempre é preciso provar algo para alguém, para a sociedade. “É necessário estudar, tem que ir bem também, pode não ser o melhor, mas tem que estar entre os melhores. Estar bem arrumado, sempre que possível. Ver com quem tu vai andar. Então já é algo introjetado desde cedo, uma luta de muito tempo”, pontua.

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Isis Moreira Alves criou uma MEI para se profissionalizar e vender as bonecas feitas de gesso. FOTO: Carolina Schaefer/ Beta Redação

O contato com o núcleo de estudos surgiu ainda fora da Universidade, enquanto pesquisava sobre a verdadeira história do negro e sua contribuição para o crescimento do país e do Rio Grande do Sul. Quando foi cursar Serviço Social, ela pediu transferência para a Unisinos, pois existia o Neabi aqui. “Diretamente me matriculei na disciplina de Afrodescendentes na América Latina, com o professor Jorge Texeira. Uma disciplina maravilhosa com um professor maravilhoso. Eu, ali. Corpo presente, prestando atenção o máximo possível, tentando sugar o máximo da universidade numa disciplina falando sobre negros, com um professor negro”, enfatiza.

Para Isis, a oportunidade de estar na Unisinos, junto do Neabi, significa um momento muito marcante para a Universidade, pois eles estão conseguindo reescrever espaços e isso está sendo muito positivo. Ela pensa que é necessário a realização da feirinha afro na Unisinos, para que os estudantes aprendam mais sobre, entendendo a cultura do próximo e não se assustando com o desconhecido.

“Para alguns, tu vê que é uma maravilha estar aqui e eles estarem próximos do nosso trabalho. E de outros tu percebe um olhar passando pelas mesas, para uma boneca de orixá. Aquele olhar meio que se assusta, que acha estranho. Ao invés de achar que isso não é do meu mundo, é preciso pensar do porque não posso conhecer um pouco mais sobre o que significa a cultura afrodescendente”, finaliza.

 

Empreendedorismo negro, sim!

Vinicius Maciel Rodrigues, 30 anos, é outro artesão que expõe na feira afro da Unisinos. Ele trabalha com artesanato há cerca de seis anos e hoje está completamente feliz. Antes, Rodrigues trabalhava numa indústria de peça de motores. O diferencial para escolher esse caminho é fazer o material e depois ver a alegria da pessoa que compra o artefato.

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Vinicius é responsável pela confecção de uma parte dos orixás, além de bonecas negras que estão disponíveis na exposição. FOTO: Carolina Schaefer/ Beta Redação

O empreendedor faz bonecos de orixás em conjunto com um colega. Cada um tem um processo diferente para cuidar. “Ele tem mais o conhecimento sobre os orixás, ferramentas, vestimentas, toda questão da origem. Eu faço a parte da montagem da roupa”, explica. Além disso, Rodrigues também faz vovozinhas negras com cheirinhos.

A paixão pelo artesanato vem de sangue. A avó, tia e mãe fazem crochê, o que também é um passatempo do empreendedor. Foi assim que ele foi aprendendo um pouco sobre o assunto e gostando, escolhendo seus materiais preferidos depois. Para Rodrigues, a feira na Unisinos é extremamente importante pelo contato com a cultura negra. “Eu sou afrodescendente. Então eu posso trazer um pouco mais da minha origem, trazer mais sobre a história do afro”, finaliza.

 

Feira Afro Unisinos

Quando? 1ª semana de cada mês (Segunda à Sexta-feira).
Onde? Na frente do IHU – prédio B.
Valores? Miudezas a partir de cinco reais.
Facilidades: Alguns vendedores têm máquinas para cartões de crédito e débito.
Realização: Neabi Unisinos

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