Economia

Crowdfunding: a vaquinha para financiar o jornalismo

“O crowdfunding ainda é um nó para todos” Marina Dias

Vaquinha: alternativa de financiamento para o jornalismo / Foto: Divulgação

Vaquinha: alternativa de financiamento para o jornalismo / Foto: Divulgação/freepik

A internet chegou e bagunçou tudo. Ela intensificou os processos de comunicação,  avançou reestruturando diversas áreas e criou uma grande rede mundial. Fez a festa nas estruturas econômicas, sociais, políticas e culturais. O jornalismo, claro, não ficaria de fora desse auê. Ele passou (e passa) por mudanças estruturais e abraçou um mundo de pautas. Novas práticas surgiram. A produção mudou e sua forma de $u$tento também.

A busca por financiamento virou pauta para o jornalista. Junto com as novas formas de produção do jornalismo, a tradicional publicidade também migrou para o meio digital, alterando o mercado e suas estruturas. O intenso avanço da internet e das tecnologias da informação transformou o jornalismo nos últimos anos.

Grandes empresas praticaram o “passaralho” nos últimos anos, termo utilizado em referência às demissões em massas de veículos de comunicação.  Só em 2013, a editora Abril encerrou os trabalhos de quatro de suas revistas: Lola, Alpha, Bravo! e Gloss. Foram 150 funcionários demitidos. Em 2014, os cortes continuaram. A principal empresa de comunicação do sul do país, o Grupo RBS, demitiu 130 colaboradores, entre eles 40 jornalistas.

A crise chegou? Unam-se!

Historicamente, momentos de crises são combatidos por ideias que surgem da necessidade, foi assim com o picolé e também com a batata frita. Eis que o crowdfunding, forma de viabilizar economicamente uma ideia, pode ser considerado uma saída para a crise enfrentada pelos modelos de financiamento (também) do jornalismo. Esse modelo de “vaquinha” tem o objetivo de arrecadar dinheiro para viabilizar projetos de forma colaborativa.

Fonte do gráfico: Crowdfunding no Brasil: uma análise sobre as motivações de quem participa. Dissertação de mestrado de Mônica de Carvalho Penido Monteiro. FGV, Rio de Janeiro, 2014. 

Já que…

“As pessoas não estão acostumadas a financiar jornalismo no Brasil, nem as fundações estão.” A fala é de Marina Dias, coordenadora de comunicação da Agência Pública. Desde 2013, a agência organiza o programa Reportagem Pública, que dá a jornalistas a possibilidade de tirar as pautas do papel e produzir material de cunho investigativo. A iniciativa depende diretamente da participação do público, uma vez que o valor doado aos vencedores do concurso vem das plataformas de crowdfunding. Na primeira edição, inicialmente seriam 10 bolsas de R$ 6.000 para cada inscrito. Como a campanha arrecadou sua meta em menos tempo do que o previsto e também recebeu o apoio da fundação Omidyar Network (EUA), que dobrou o valor,  foram ofertadas 12 bolsas. Naquele ano, das mais de 100 pautas recebidas, cerca de 60 foram à votação. Os próprios doadores escolhiam as pautas que gostariam de tornar realidade.

Em 2015, a segunda edição do programa funcionou de forma diferente: a redação da Pública propôs três assuntos e depois abriu para votação. A meta da vaquinha era de  R$ 50.000, e, de janeiro a março, foram arrecadados R$ 70.000. Até agora, cinco reportagens foram publicadas. “Não é só dar a grana, mas mostrar os métodos, ensinar e aprender com os ganhadores das microbolsas”, explica Marina. No total, foram 14 contemplados neste ano. A Reportagem Pública funciona como um processo de mentoria, em que editores acompanham o avanço dos projetos por meio de reuniões quinzenais.

Segundo Marina, as diretrizes que norteiam a escolha das pautas vencedoras são as mesmas que caracterizam a agência: “A gente se baseia num jornalismo com os três Is: investigativo, independente e inovador”. Essa, para ela, é a fórmula para quem busca alternativas ao modelo atual de jornalismo. O fato de a agência ter nascido com o propósito de falar sobre direitos humanos e de abordar temas que maioria dos veículos não abordava também seria um dos motivos da consolidação da Pública ao longo de seus quase cinco anos de existência.

“O que seu projeto tem de novo? Invista nisso”, completa a jornalista.

Sem fronteiras

Para o fundador da agência de conteúdo Fronteira, Alexandre de Santi, ainda não há certeza quanto ao valor que os leitores querem desembolsar por jornalismo hoje em dia. “A gente não sabe muito qual o valor que as pessoas estão dispostas a pagar por esse negócio”, comenta. Fundada há quatro anos, a Fronteira é, na verdade, a segunda iniciativa de Alexandre. Depois de cerca de três anos trabalhando no jornal Zero Hora, ele decidiu largar o emprego em 2008 para abrir a agência de conteúdo Cartola. No período, começou a se interessar por novos modelos de jornalismo, na busca por entender o que viria depois do jornal impresso. “Eram os primórdios do Twitter. Comecei a seguir um monte de caras que nunca tinha ouvido falar na vida”, brinca.

A Cartola começou em tom experimental, mas, aos poucos, foi ganhando mercado. Aos 31 anos, no entanto, Alexandre se via mais como sócio do que jornalista. “Na Cartola, do jeito que estava sendo construída, eu tinha que ser muito mais gestor e pouco jornalista”, conta. Esse foi o motivo pelo qual ele e a esposa, Silvia Lisboa, fundaram a Fronteira. A principal diferença é o tipo de conteúdo oferecido agora – mais aprofundado, artesanal. “Se a gente pode criar uma marca, a gente pode criar duas”, afirma. Quase quatro anos depois, eles produzem o que Alexandre chama de “conteúdo premium”, apesar de também produzir outros tipos de conteúdo.

“Tu tens que estar disposto a testar um jeito diferente, fazer de outra forma o que tu estás pretendendo entregar. Buscar dinheiro dinheiro das pessoas exige outros raciocínios”, Alexandre de Santi

Para ele, o equilíbrio está em intercalar produtos que dão prestígio, mas não dão dinheiro e produtos que dão dinheiro, mas não dão prestígio. “Tu ganhas dinheiro na tua empresa com determinado tipo de serviço, só que esse serviço não te dá prestígio, visibilidade. Então tu incorporas alguma coisa que, de fato, vai atrair as pessoas”, complementa. Para conseguirem produzir esse tipo de conteúdo que dá prestígio, eles também recorreram ao crowdfunding. A plataforma utilizada foi a Contributoria, que já não existe. O dinheiro arrecadado foi investido na produção de reportagens de profundidade. “A gente cuidou pra não pedir demais. A gente não podia fazer crowdfunding todo mês, toda hora”, explica Alexandre.

Exemplos mostram que é possível encontrar novos modelos de negócio na profissão / Foto: Divulgação

Exemplos mostram que é possível encontrar novos modelos de negócio na profissão / Foto: Divulgação/freepik

O lado B

Alexandre Haubrich, 28 anos, é jornalista, graduado em Ciências Sociais pela UFRGS, atua em um sindicato e também já adotou a vaquinha como forma de viabilizar o Jornalismo B, jornal independente que ganhou a forma de papel em  2010.  Alexandre utilizou duas vezes plataformas de crowdfunding: uma foi o site Catarse, e outra o Vakinha. A proposta para as pessoas contribuírem era simples: impressão do jornal.

Na primeira vez, em 2012, por meio do Catarse, o Jornalismo B garantiu suas páginas impressas em campanha de 61 dias que arrecadou R$ 13.570.  Na segunda vez, em 2013,  foi a campanha no Vakinha que contribuiu para o jornal continuar, apoiado também pelos velhos anúncios (de sindicatos e organizações que compartilham da visão do jornal) e por assinaturas.

“A Vakinha foi aberta como mais uma opção para contribuírem com o projeto”, explica o jornalista, já salientando que “não é fácil, mas necessário” insistir em outras formas de fazer jornalismo . Para Alexandre não há um “caminho certo’, uma receita de bolo, mas o que importa é “criar novos caminhos”. “São sempre as mesmas vozes falando, isso é prejudicial para a sociedade”, desabafa sobre os veículos tradicionais. Sobre o Jornalismo B, que é quinzenal, Alexandre é realista “Deveria, mas não é a fonte de renda principal.”
Outras forma$

A jornalista Carla Ruas também trabalha para a Agência Fronteira. Formada na PUCRS em 2007, Carla já trabalhou em vários veículos, inclusive no exterior. Ficou fora do Brasil quatro anos, e quando voltou não sabia o que esperar do mercado.  Hoje ela é “frila” (freelancer, termo que designa que trabalha por encomenda) e descobriu as agências de conteúdo, que crescem cada vez mais. “Essas outras maneiras de encarar o jornalismo propicia uma experiência muito vasta, já que não precisa ficar ligada a um único veículo”, opina. Ela participou da experiência do jornal britânico The Guardian, que criou o site Consultoria. “Essa plataforma recebia pautas de jornalistas independentes do mundo inteiro. Eles postavam no site e o público votava nas que receberiam o financiamento pelo Guardian”, explica.

Mas, afinal, o que é crowdfunding?

Antes de surgir o termo crowdfunding, os editores da revista Wired, Jeff Howe e Mark Robison, utilizaram  o termo “crowdsourcing” (crowd: multidão; outsourcing: terceirização) em um artigo para explicar o comportamento das empresas que estavam utilizando a internet para terceirizar trabalhos. O crowdsourcing pode ser identificado como uma forma de trabalho em colaboração.

E aí, com essa ideia de colaboração, nasce o crowdfunding, com a  finalidade de  financiamento, de arrecadação de capital, de juntar dindin, de fazer a vaquinha!

A Agência Pública divulgou os dez mandamentos para um crowdfunding de sucesso. Segundo eles, é importante:

1) Que o projeto exista: seja honesto com você mesmo e acredite;

2) Convidar as pessoas a participar;

3) Ouvir o que os mais experientes e mais velhos têm a dizer;

4) Ser organizado, desenvolver uma boa estratégia e a levar a sério;

5) Ser transparente em relação a metas, intenções e uso do dinheiro;

6) Encontrar bons parceiros de caminhada, que sejam comprometidos com a causa;

7) Falar, falar, falar muito sobre o seu projeto, falar o tempo todo;

8) Manter sua palavra. Cumpra tudo o que prometer;

9) Comemorar cada apoio que você receber e manter-se animado;

10) Estar cercado por um grupo ou equipe que vai abraçar o projeto, questionar cada detalhe, trabalhar horas extras, sofrer e rir com você.

 

Conheça as principais plataformas de financiamento coletivo no Brasil:

Startando

Kickante

Ideame

Juntos!

Sibite

Catarse

Vakinha

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