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CRÔNICA: O jornalismo, entre a banca e a vida

Sobre o frio na barriga de enfrentar um dos últimos dias na universidade: a avaliação no trabalho de conclusão de curso

A minha primeira infância foi vivida na cidade de Barra do Ribeiro. Foi feliz porque convivia com meus avós e primos maternos. Lá também tive contato com os meus primeiros amigos cães, uma máquina de escrever e um rádio gravador de fita cassete, com o qual eu produzia meus programas de rádio e entrevistava, dentre outros, o Silvio Santos. Minha mãe costuma contar que um certo dia, quando eu tinha uns dois anos de idade, se distraiu em nossa residência e eu fugi. Corri com minhas perninhas curtas (anos depois elas seguem curtas, mas enfim…) e cabelos esvoaçantes por uma rua de chão batido que chegava à avenida bastante movimentada. Lá ficava o ponto de ônibus que levava meu pai para a Capital diariamente. Ele saía de casa,  fazia aquele caminho e dizia que estava indo a Porto Alegre trabalhar. Naquela ocasião, uma vizinha me viu passando e perguntou para a minha mãe: “Aquela guriazinha que vai lá longe não é a tua filha?”. Perplexa, minha mãe saiu correndo em minha direção. Esbaforida e muito assustada, quando ela finalmente me alcançou, perguntou onde eu estava indo. Bastante decidida eu avisei que estava indo para “Potoiégue”.

É justamente na Capital, essa a que eu tanto queria ir na infância, que hoje vivi um momento sublime. Após um ano e meio de pesquisa e escrita, somando a disciplina de projeto de pesquisa, enfim apresentei meu trabalho de conclusão de curso para a banca avaliadora. Esses três últimos semestres foram exaustivos. Cheguei a pensar que não seria capaz de concluir o minha monografia em vários momentos. Afinal, assumi, junto dela, cinco noites intensas de Beta Redação. Além disso, havia minha vida pessoal e profissional para dar conta. Acho que as palavras pânico e caos são capazes de traduzir os meus sentimentos nesse ínterim.

Quando iniciei meu projeto de pesquisa, no segundo semestre de 2014, no Campus da Unisinos de Porto Alegre, a professora falava sobre os conceitos de aprovação da banca: aprovado, plenamente aprovado e aprovado com distinção. Naquela época eu decidi que queria ser aprovada com distinção, que é a avaliação máxima. No decorrer do processo, surgiram as periclitantes dificuldades e eu mudei de ideia. Comecei a rezar para o Ser Superior do Universo para que Ele me desse serenidade e força, para que eu, pelo menos, conseguisse concluir o trabalho dentro do prazo. Ser aprovada já seria um luxo.

Hoje, às 4 horas da manhã eu ainda estava acordada. Ensaiava a minha apresentação para a banca. Estava pensando em todos os questionamentos possíveis que pudessem surgir e as respostas plausíveis que eu poderia dar. Fiz um roteiro com tudo devidamente anotado. Às 8 horas levantei. O corpo dolorido, as amígdalas inchadas e um desconforto abdominal grande. Era o meu sistema dizendo “eu sou e estou muito nervoso”. Lembrei das palavras da minha orientadora, durante nosso último encontro antes da banca, no qual eu chorei e disse “estou com muito medo”. Ela me olhou com carinho e respondeu: “Linda, te empodera. Tu fez o teu trabalho! Ele está bacana! Vai lá, te maquia, respira fundo e apresenta ele. Tu tens que confiar mais em ti!”, me aconselhou.

Nesta manhã, quando me olhei no espelho e vi minhas olheiras profundas pelas tantas noites mal dormidas, não pensei em disfarçá-las. Elas foram comigo para a apresentação. Elas e o meu batom bordô – que está muito na moda, diga-se de passagem. Além disso, usei o meu sapato da sorte. Junto comigo também estava o conselho da minha orientadora: “empodera-te”. E, nesse cenário, estava a minha cabeça fervilhando com os conteúdos do meu trabalho, com as minhas fortes emoções e com o significado importantíssimo que esse dia representa na vida de qualquer universitário: a realização de um sonho.

Eu estava ofegante. Na minha banca avaliadora estavam presentes duas professoras que fizeram parte da minha caminhada na Unisinos de Porto Alegre – e duas pessoas que eu admiro muito. Quando começaram a avaliar a minha construção, fiquei emocionada, pois foram muitos elogios e críticas construtivas. Uma parte de mim estava ali e outra parte havia fugido, lembrando da infância solitária, na qual aos três anos de idade eu já dizia que queria ser jornalista; da adolescência difícil em que precisei cursar três anos de magistério contra a minha vontade porque meus pais achavam que isso seria bom para mim;  da vida adulta atribulada e exaustiva que assumi por ser muito ambiciosa; da minha mania de encarar desafios e me transformar em mil para superá-los, só para sentir o prazer de dizer internamente: eu posso. E nisso veio o conceito da minha avaliação: aprovada com distinção. Distinção, aquela que eu havia desejado lá no início, mas que havia desistido, pelo menos conscientemente.

Assim, com esse episódio marcante, a capital dos gaúchos se coloca novamente nas minhas histórias de vida. Vale lembrar, que, com muita honra e gratidão, serei uma das primeiras jornalistas formada pelo curso da Unisinos de Porto Alegre. Obrigada!

Sabrina Franzoni, Marlise Brenol, Graziela Busatta e Thaís Furtado.

Eu, de rosa, ao lado de minha orientadora, Marlise Brenol (esq.), e com as avaliadoras Sabrina Franzoni e Thaís Furtado (de preto) no Campus da Unisinos em Porto Alegre. Nesta sexta-feira, 12 de dezembro, encerram-se as bancas de avaliação do semestre de 2015/2 na Unisinos. / Foto: Arquivo pessoal.

 

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