Política

Crônica de um protesto ritmado

Ainda havia sol quando as pessoas começaram a se movimentar na esquina das ruas Mostardeiro e Goethe, na quinta-feira (17). O motivo: manifestar-se contra a corrupção, pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a prisão de Lula, entre outras reivindicações menos citadas.

No ar tremulavam bandeiras nacionais dos mais variados tamanhos. Algumas destoavam, como a bandeira do Brasil Monárquico, e não faltou a do Rio Grande do Sul. Reunidos em torno da La Banda Loka Liberal, os manifestantes protestavam, tiravam selfies, dançavam.

 

 

Diferentemente do último domingo (13), a banda estava no meio da multidão, e não em cima do caminhão de som, que também estava presente. Desta vez, os sucessos populares e músicas infantis não foram ouvidos. Apenas paródias e canções adaptadas à la torcida de futebol, como “Cadeia, cadeia / Lula na cadeia”, ao invés do “Poeira, poeira / Levantou poeira”, de Ivete Sangalo.

Cartazes e frases dos manifestantes escancaravam que o movimento era contra um partido específico, embora se ouvissem críticas a Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos do PMDB, em uma das marchinhas da banda. O nome favorito da multidão era o de Sérgio Moro, juiz da Lava Jato tido como “salvador da pátria” para muitos dos que ali estavam. Mais selfies, mais música, mais dança.

 

 

Eduardo Costa Machado, 33 anos, moreno de olhos negros e firmes, barba bem aparada e camisa amarela, chamava o trânsito da Mostardeiro, que ainda não havia sido interrompido, para a manifestação. Ele afirma ser contra o PT e a corrupção, e a favor do impeachment, mesmo que não seja a solução imediata. Reivindica também a prisão de Lula e a “liberdade da nação”.

Percival Puggina estava lá, bem como Hércules Aléssio, que falava com muitos manifestantes, agradecendo-os e estimulando-os a continuar. Em toda a manifestação, quase não ocorreram incidentes ou tumultos. Um fato rápido aconteceu por volta das 18h, quando um homem gritou, do outro lado da rua, “Vão trabalhar!”, e a multidão ao redor dos tambores da Banda Loka Liberal respondeu com vaias e gritos de “ladrão”. Outras pessoas passaram de cara fechada, mas sem sofrer hostilidades.

Mais selfies, mais música, mais dança.

 

 

Os manifestantes eram informados das regras para o uso do microfone com um dos integrantes da banda. Às 19h ele anunciou que a EPTC liberaria toda a rua somente às 20h, pedindo paciência. Eram 19h20min quando o trânsito se tornou inviável de seguir por ali. No ritmo da percussão, o povo avançou a sinaleira aos gritos de “vem pra rua” e “o Brasil é nosso”.

José Aluízio de Castro, 53 anos, bandeira nacional nas costas e olhos atentos à multidão, diz que foi à rua em defesa da pátria, não de um partido. É a favor de que todos os envolvidos em esquemas de corrupção sejam investigados. Sobre o impeachment, justifica sua posição favorável afirmando que seria como trocar de síndico. Se a administração não for boa, deve ser trocada. O Hino Nacional foi cantado à capela, logo depois de se exaltar o trabalho da Polícia Federal.

GALERIA (clique sobre a foto para alternar a imagem):

 

O liberalismo foi constantemente defendido. Menções a Cuba e Venezuela eram sempre depreciativas, porém as falas se diziam a favor dos movimentos sociais. Nas bancas, a água mineral custava R$ 5. Um senhor reclamou do preço, mas levou duas.

Os alto-falantes anunciaram que barracas foram trazidas para os integrantes da banda e organizadores do protesto acamparem no parque. “Ficar, resistir, até Dilma cair.” Todos aplaudiram, junto com o barulho incessante de panelas, apitos e vuvuzelas.

Leonildo Moura, 54 anos, senhor alheio aos sorrisos e à cantoria ao seu redor, discutia a possibilidade de renúncia e até de golpe militar com um amigo. Ao ser entrevistado, disse que deveria acontecer uma mudança profunda nas leis do país, no Congresso Nacional e nas instituições brasileiras. Comparou o Brasil a um transatlântico à deriva no oceano por causa da corrupção instaurada pelos políticos de Brasília.

Rosa Maria, 63 anos, e o marido, Lauro Ramos, 68, já indo embora do protesto com um sorriso no rosto, afirmaram que é a única maneira de se mudar o país. Pedem política com seriedade e dizem que, mesmo já não tendo idade o suficiente para ver um futuro melhor, acreditam que é importante lutar pelo futuro dos jovens.

De saída, Rosa e Lauro eram exceção. Grande parte do público ficou, com selfies, música e dança. O protesto avançou noite adentro, com a promessa de continuar nesta sexta-feira (18).

 

 

Fotos: Laís Albuquerque e Rebecca Rosa.

Vídeo e captação de áudio: Rodrigo Ávalos.

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