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CRÔNICA: Uma cidade diferente da nossa

Seu nome era João. João vivia em uma cidade muito diferente da nossa (minha e sua). Sabe por quê? Onde ele morava, o lixo tomava conta das ruas e sempre que chovia, todas as casas ficavam alagadas. Viu? Eu não falei que era diferente? É que as pessoas que moravam próximo ao João consideravam um hábito descartar todo lixo pelas ruas, no chão mesmo, sem a menor cerimônia (ainda bem que isso não ocorre na nossa cidade!). E esse ato tão corriqueiro acabou deixando nosso amigo com problemas.

Foi em uma manhã ensolarada, que João saiu para fazer a sua “fezinha” e tentar melhorar de vida. O barraco, como chamava sua casa, já estava por um fio. Na próxima chuva que viesse, as paredes de madeira se entregariam de vez, e ele não teria mais onde se abrigar. Colocou o comprovante de jogo no bolso traseiro, com mais alguns panfletos que recebeu pela rua, mas quando estava voltando, o incômodo daqueles papéis foi ocupando sua mente mais do que seus planos para almoço. Em um momento de total desagrado, juntou todos os papéis na mão e atirou-os na calçada. Seguiu assim seu rumo, sentindo-se mais leve.

Mas não só os panfletos tinham voado com o vento, e João só percebeu seu infortúnio quando se deu conta de que os números sorteados ao final do dia eram exatamente aqueles em que ele havia apostado. Mas cadê o comprovante?

 

João saiu correndo pela rua, aproveitando o restinho de sol que ainda havia no horizonte, para desesperadamente achar aquilo que ele tinha posto fora. Porém, por todos os lados, a sujeira tomava conta. Como seria possível encontrar algo, se a cidade toda era coberta por um tapete de papéis, plásticos e embalagens?

“Como conseguimos caminhar e conviver com toda essa bagunça? Quanta coisa de valor será que está jogada por aqui, assim como meu bilhete? Será que se não houvesse tanto lixo a chuva escoaria e não teria mais enchente?” A mente dele virou um turbilhão de questionamentos. Deu-se conta de que mesmo que fosse rico não poderia viver adequadamente naquele local tão imundo. E mesmo percebendo a impossibilidade de recuperar a sua fortuna, ganhada e perdida no mesmo segundo, começou a juntar todos os papéis do chão e colocá-los em uma sacola que passou voando perto de seu rosto. Uma vez que não teria como melhorar sua casa, ao menos poderia evitar que mais coisas ruins acontecessem a ela.

Ao verem sua movimentação, alguns moradores começaram a cochichar, fazer cara de dúvida. Alguns, como que percebendo o que ocorreria ali, correram para dentro e voltaram munidos de vassouras e sacos. Quando João se deu conta, um mutirão já o cercava. Todos engajados na limpeza das ruas. E foram noite adentro. Ao amanhecer do dia seguinte, toda a cidade estava limpa. Não havia mais nenhuma semelhança com a cidade anterior (agora sim, parece com as nossas!).

João nunca encontrou seu comprovante. Uns dizem que o bilhete nunca existiu, que não passou de uma alucinação. Outros acham que alguém encontrou e está escondendo a fortuna. O fato é que não fez falta. Por sua atitude transformadora, João foi condecorado como cidadão modelo e ganhou até uma casa nova, onde hoje vive com toda a família e trabalha como fiscalizador das ruas, para que nenhuma pessoa mais jogue lixo no chão. Ah, para constar: não ocorreram mais casas inundadas.

Isso aí, João! Ensinou seus vizinhos a serem iguais a nós, cidadãos-modelo! Imagina que terrível seria se jogássemos lixo no chão, pela janela do carro, móveis em terrenos vazios e rios…

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