Cultura

CRÍTICA: o importante discurso de “Mulheres, Raça e Classe “

A obra norte-americana de mais de 30 anos que implica diretamente nos dias de hoje

É triste pensar que uma das principais obras da filósofa, professora, ativista e ícone na luta pelos direitos civis Angela Davis tenha demorado tanto tempo para ser traduzida ao nosso idioma. Produzido no início da década de 80, o livro Mulheres, Raça e Classe virou referência quando tratamos desses três conceitos à margem da sociedade, mas foi apenas em 2016, 35 anos depois da publicação original, que, por meio da Editora Boitempo, pudemos ter acesso à obra em português.

Mesmo com tanto tempo de atraso, o livro veio em um momento importante para o nosso país. O ano de 2016 ficou marcado no cenário político pela derrubada da presidenta eleita Dilma Rousseff (PT) em um conturbado processo de cassação. Após a vergonhosa votação da Câmara no dia 17 de abril (que deveria discutir se houve ou não crime de responsabilidade nas ações da presidenta, mas que nos “presenteou” com saudações a familiares e deboches), no dia 12 de maio Dilma foi afastada do cargo. A votação do Senado concretizou o já esperado impeachment no dia 31 de agosto.

A partir de então, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) assumiu o cargo e logo foi possível notar diferenças também no que se refere a grupos minoritários: todos os seus ministros apresentados eram homens, brancos, e com alto poder aquisitivo. Coincidentemente, podemos dizer que seus ministros eram o antônimo da obra de Angela Davis, a começar pela titulação. E, infelizmente, isso é apenas um pontapé inicial para notarmos semelhanças entre uma obra dos anos 80 sobre a história norte-americana e a brasileira dos dias atuais.

Com prefácio da pesquisadora Djamila Ribeiro, Mulheres, Raça e Classe nos mostra, com a totalidade de 13 capítulos, parte importante da história norte-americana desde os tempos da escravidão. Cada parte gira em torno de um assunto principal que não está, necessariamente, em ordem cronológica. Isso se torna mais evidente com o decorrer da obra, já que inicialmente é feita uma espécie de linha histórica da escravidão, Guerra Civil e pós-guerra, sempre analisando a conjuntura e os três elementos (gênero, raça e classe).

Davis usa muitas referências em seu livro. O tempo todo, para ser mais precisa. É habitual ver notas de rodapé e citações diretas. Com vasto material e citando os principais autores e pessoas que foram importantes e influentes para as épocas mencionadas, tanto positiva quanto negativamente, o livro nos permite viajar no tempo e querer pesquisar mais sobre o assunto, mesmo que a obra seja muito completa. Para exemplificar isso, é bom admitir que o que sabemos sobre escravidão costuma ser muito raso. Quando falamos de raça, os estudos a respeito no período escolar são superficiais, as telenovelas e programas televisivos mais ainda. A mídia nem se fala. Só é sabido mais sobre o assunto quando, de fato, um conteúdo rico e responsável, como é o caso dessa obra, chega até nós. E quando se é uma pessoa branca e se lê Mulheres, Raça e Classe, como é o meu caso, ficar desconfortável com a leitura é o mínimo a se fazer.

Com relato de ex-escravos, podemos compreender, teoricamente, como a escravidão norte-americana foi cruel mesmo com sua abolição devido à Guerra de Secessão (1861-1865). Sempre expondo os conceitos que dão nome ao livro, Angela mostra como era a vida de mulheres escravas, que possuíam como única diferença em relação aos homens escravos o fato de poderem gerar vidas – aos olhos dos senhores não eram vidas, já que escravos eram tratados como anomalias, e sim mais mão de obra para servi-los. A autora evidencia diversas vezes durante o exemplar que mulheres trabalhavam da mesma maneira que os homens, sem distinção de gênero, e só se diferenciavam por poderem reproduzir e serem estupradas.

É preciso relatar que não é à toa que o livro de Davis ficou conhecido como um marco sobre interseccionalidade. Esse conceito, na obra, “mistura” as opressões, mostrando como gênero, raça e classe se cruzam o tempo todo e nenhum deveria estar acima do outro. Isso aparece no livro em diversos momentos, como, por exemplo, quando pessoas brancas abolicionistas – com grande número de mulheres – unem-se em campanhas contra a escravidão. Era travada uma luta de mulheres brancas e negras contra o sistema vigente, coisa que era positivo para ambos os lados. Com essa aproximação, mulheres brancas, principalmente de classe média, passaram a ter contato com formas políticas tentando assegurar os direitos de pessoas negras.

Foto: Fernanda Salla

Foto: Fernanda Salla

O que poderia ser muito bom, se não fossem as divergências. Lutar ao lado das “irmãs negras”, como Angela coloca, acarretou na melhora dessas mulheres brancas com discursos e escritas. Porém, por outro lado, ao se sentirem ameaçadas já no período sufragista a não conseguirem direito ao voto enquanto homens negros sim, a supremacia branca dessas feministas foi vista e, com ela, o escancarado racismo, se opondo ao sufrágio negro. Davis detém bastante tempo da obra falando sobre o sufrágio das feministas nos Estados Unidos. Majoritariamente composto por feministas brancas de classe média, as pautas de mulheres negras e de mulheres brancas trabalhadoras (proletárias), eram silenciadas.

Esse feminismo branco de classe média usava o termo “escravidão” para falar sobre o casamento e toda a questão relacionada à feminilidade que ascendeu com o sistema capitalista. Mesmo discurso visto hoje, dois séculos depois, na presidência da república, com diversos exemplos, como quando Temer afirma que mulheres sabem o preço dos produtos do mercado, além de possuir uma mulher “bela, recatada e do lar”.

Contudo, aquele feminismo fechava os olhos para suas “irmãs” que estavam em situações muito piores, seja pela exploração das trabalhadoras em indústrias, seja pelas mulheres negras, que majoritariamente estavam ainda pior do que no período da escravidão, já que a única coisa que podiam fazer era ser empregadas domésticas. Inclusive, a autora cita na obra um diálogo absurdo de cegueira dessas feministas, na qual uma mulher branca lutava pelo direito das balconistas poderem sentar em seus trabalhos, e, ao ser questionada sobre sua empregada doméstica trabalhar em pé por aproximadamente 14 horas diárias, pouco caso fez.

De maneira geral, as mulheres negras eram mais próximas das mulheres brancas trabalhadoras pelas experiências vividas. O que foi feito por mulheres brancas de classe média de positivo às mulheres negras está na educação. Há um capítulo do livro só para isso, além de algumas menções em outros. Os negros queriam muito aprender a ler, escrever, e ter acesso à educação e mulheres brancas, como a professora Prudence Crandall e as irmãs Grimké, foram importantes para isso, trazendo iniciativas que os auxiliavam sem visar apenas o gênero.

O livro traz uma série de reflexões sobre gênero, raça, classe ou a eles interligados. Aliás, é justamente a interseccionalidade da obra que chama tanto a atenção. É ver como as três categorias são diferentes, com suas particularidades, mas ao mesmo tempo interligam-se – seja pela luta do povo negro, das mulheres ou do proletariado. O que infelizmente aconteceu muito, e continua acontecendo, é fragmentar os oprimidos e tentar colocar uma opressão acima da outra, ao invés de todos poderem contribuir com diferentes lutas.

A história é norte-americana, mas não devemos ver como um universo distante, já que se assemelha muito com o Brasil. A escravidão é vista como algo que aconteceu na Era Medieval, e não há pouco tempo, como foi de fato – a Abolição da escravatura só ocorreu em 1888. Para muitos, brancos e negros estão em pé de igualdade. Cotas raciais são vistas por muita gente como algo que gera mais preconceito. Essas ignorâncias acontecem, muitas vezes, pois as pessoas não sabem a real história, o que a escravidão acarretou e os resquícios que reverberam até hoje na vida dos negros. As lutas das mulheres ainda são vistas como “mimimi”. Reivindicar direitos é, muitas vezes, motivo de deboche. Portais de notícias têm como comentários mais curtidos palavras que ferem os Direitos Humanos e os direitos dessas minorias. A luta de classes também não é levada a sério e muitos defendem o discurso da “meritocracia” (não dar o peixe e sim ensinar a pescar) para deslegitimar uma luta real e necessária. O conteúdo desse livro, escrito há 36 anos, é atual. É agora. É aquele livro que todos deveriam ler. Angela Davis reúne prática, pelas suas vivências, e teoria, pela estudiosa que é, de maneira exemplar.

*Foto de capa: Fernanda Salla

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