Cultura

CRÍTICA: Estreia de “Narcos” traz os olhos do mundo para a América Latina

Série do Netflix que estreou sexta-feira (28) aborda chegada da cocaína aos EUA

“Realismo mágico é definido como o que acontece quando uma situação realista altamente detalhada é invadida por algo que é estranho demais para acreditar.”

betaredacao-cultura-estreianarcos4É com a frase acima que Narcos introduz ao público o seu mundo de drogas e violência. Com a história centrada na Colômbia, país berço do gênero que marca a obra do escritor Gabriel García Márquez, a série produzida pelo brasileiro José Padilha para o Netflix parece querer seguir o mesmo caminho. Enquanto flui alternando entre o drama e o documental – com direito a muitas imagens de arquivo que remetem à década de 1980 – Narcos resgata a história da chegada da cocaína aos EUA, lançando mão de citações de personagens históricos como os presidentes Nixon e Reagan e até mesmo Pinochet para ilustrar o período.

Utilizando o recurso de narração para situar o público junto às imagens, a história é contada a partir do ponto de vista do policial Steve Murphy, interpretado pelo ator Boyd Holbrook, no mesmo estilo utilizado por Padilha em Tropa de Elite (2007). A abordagem um tanto irônica da polícia americana é mais branda do que a versão do diretor para RoboCop (2014). A câmera nervosa e a rapidez com que informações aparecem por vezes passam a sensação de tontura. Ainda assim, o ritmo intenso prende o telespectador ao longo dos pouco mais de 50 minutos como uma droga.

betaredacao-cultura-estreianarcosAliás, o ponto de início da série é a chegada da cocaína aos EUA, traficada por Pablo Escobar. A droga se tornou popular rapidamente no país, gerando um problema de saúde pública e ondas de violência. Ao longo do episódio piloto, intitulado “A Chegada” (referência ao desembarque da droga no país), Escobar e seus “sócios” dão um verdadeiro workshop de produção de cocaína. Com o roteiro montado em torno da droga, o público passeia por todo o processo de fabricação, tráfico e consumo do pó.

O brasileiro Wagner Moura, que não falava espanhol antes do papel e engordou 20 quilos para viver o traficante, encabeça a longa lista de atores latinos, que conta com alguns conhecidos do público, como Pedro Pascal, da série Game of Thrones, e Luis Guzmán, de filmes como Boogie Nights e Tratamento de Choque. Fora a narração do protagonista e as conversas entre os policiais gringos, a língua espanhola impera. Grande ponto a favor de Narcos, já que aproxima a produção do público latino. Os americanos que quiserem acompanhar a história explorada pela série terão de se acostumar com as legendas. Até o tema de abertura é cantado em espanhol, interpretado pelo brasileiro Rodrigo Amarante, da banda Los Hermanos.

betaredacao-cultura-estreianarcos2Apesar de remeter às antigas séries policiais em alguns momentos, o que predomina são as cores quentes e as paisagens da América do Sul, das ruas de Medellín às florestas tropicais do Chile e Peru. Quase que inteiramente filmada na Colômbia, Narcos aproxima o público de locais que são, muitas vezes, desconhecidos para muita gente – inclusive dentro da própria América Latina. Além disso, a produção aborda os dois lados da moeda: os polícias da DEA (Drug Enforcement Administration, ou Órgão de Controle de Drogas) e os traficantes. Não existe a velha abordagem envolvendo vilões e mocinhos, mas sim personagens com interesses próprios. O próprio personagem de Wagner Moura é mais carismático do que o protagonista, e já no primeiro episódio deixa claro o seu gênio ambicioso.

betaredacao-cultura-estreianarcos3Narcos parece seguir a fórmula que tem funcionado em outras séries, unindo as drogas de um Breaking Bad e o jogo de interesses de um House Of Cards com a violência e ação policial característica de José Padilha. Aliado com a forte influência latina que garante sua singularidade, a série promete render frutos e atrair olhares que não estavam tão acostumados com as bandas de cá. Tudo isso, como diria o personagem Cucaracho, que apresentou a droga à Escobar, “muito natural, orgânico e saudável” para um público que gosta de boas produções. Muito bom.

 

 

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