Cultura

CRÍTICA: Enfiar a mão no ânus do outro é arte?

Este ano, no mês de novembro, um vídeo em que “atores” corriam em círculo enfiando literalmente a mão no ânus do ator que estivesse á sua frente circulou pelas redes sociais. A primeira sensação que tive foi nojo, repulsa, estranhamento, indignação. Ao tentar praticar a empatia me colocando na pele daqueles que lá estavam se expondo em nome da arte, de um novo conceito de arte, senti vergonha. Vergonha por eles exibirem sem constrangimento aparente o próprio corpo desnudo sendo violado. E incômodo ao pensar em quem presenciou aquela manifestação.

Num segundo momento, refleti sobre os conceitos de arte. No início da faculdade de Jornalismo, um professor me apresentou autores que discorriam sobre o assunto. Dentre eles, acho que o mais marcante para mim foi Pierre Bourdieu, pois tratava do poder simbólico, aquele que exige o reconhecimento. Lembro que discutíamos em todos os encontros, porque eu acreditava que aquele que fazia artesanato era artista, e o professor dizia que “não, quem faz artesanato, por mais bonito que seja, é artesão”. Após, ainda tentando entender o meu incômodo diante daquela “manifestação artística” testemunhada no vídeo, busquei apoio em anotações feitas por outro mestre, baseadas em grandes autores do gênero em questão, o professor Dr. Cláudio Schubert, num material divulgado em aula, em 2010:

“A arte é a Obra de arte, a expressão artística, o objeto artístico: a poesia, a escultura, a dança, a música, o teatro, o quadro, o romance, a novela, o conto, o texto, o mito. A Obra de arte é o objeto raro, o não comum, o não vulgar. É onde o sentimento é admirativo e contemplativo. Obra de arte é aquela manifestação que recebe o reconhecimento da crítica e a justificação da população. A arte não é um elemento vital para a vida, mas é uma expressão inevitável da vida. Como expressão de arte se pode entender determinadas manifestações da atividade humana diante das quais nosso sentimento é admirativo e contemplativo. Apreciamos e avaliamos uma obra de arte com base em experiências e valores do nosso passado cultural: fazendo comparações. Na criação de uma expressão artística, o artista precisa de conteúdo, inspiração e conhecimento técnico. A compreensão do que pode ser caracterizado como Obra de arte não é única em todas as culturas. Cada civilização, cada povo, tem suas sub-culturas e seus paradigmas às vezes bem específicos para compreender e definir o que é arte“.

A partir das leituras citadas e recordações dos apontamentos feitos pelos meus professores, ponderei a respeito do que vi e senti. Se considerarmos que arte é algo que serve para a apreciação do belo, não, a encenação “Macaquinhos”, que ocorreu na 22ª edição do Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, não é arte. No entanto, se julgarmos que arte é o que pode nos fazer refletir, então, talvez sim, nove pessoas enfiando a mão no ânus um do outro em público seja arte. Pois a manifestação repercutiu, gerou discussões e atingiu seu objetivo, visto que, conforme exposto pela organização do evento de estreia, a ideia era pensar em novos conceitos de arte. Eu ainda estou com nojo, mas e se esse nojo for a manifestação de um preconceito em mim? Irei refletir. Enquanto isso, para quem ainda não teve o prazer (ou desprazer) de assistir à encenação, segue o teaser divulgado pelo grupo teatral.

 

 

 

 

 

 

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