Cultura

CRÍTICA: A força da voz das mulheres do fim do mundo

Em seu último CD, Elza Soares canta sobre violência, negritude e sofrimento

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Rainha do “tapa na cara da sociedade”, Elza Soares lançou novo CD. (Foto: Reprodução Twitter / Elza Soares)

“Cadê meu celular, eu vou ligar pro um, oito, zero [180 – número do disque denúncia para violência contra mulheres]”. De Elza Soares a MC Carol, passando por Karol Conka e Ludmilla, a música, mais do que nunca, tem sido auxílio ao empoderamento feminino. É também símbolo de força, resistência e intolerância às violências de todos os tipos. Um grito de liberdade, autonomia, e um tapa na cara daqueles que dizem que não é possível as mulheres do fim do mundo fazerem música de qualidade, com crítica, verdade, representatividade e, claro, sonoridade.

“Aqui você não entra mais”. O fim do mundo é o lugar onde o racismo, o machismo e a violência se perpetuam, criando e multiplicando soldados da dor. Qualquer lugar pode ser o fim do mundo. Qualquer um pode ser soldado da dor. Estas cantoras negras, brasileiras e que são discriminadas pela cor, pela aparência, pela excentricidade, ou pela classe social, já estiveram no fim do mundo.

“Eu digo que não te conheço”. Quem nunca esteve lá talvez não seja a melhor pessoa para falar. Esta que vos escreve talvez não seja a melhor pessoa para falar. Não sinto na pele o sofrimento causado pelo preconceito contra a minha cor. A única apropriação que me é permitida fazer, neste momento, é da empatia. Também, do orgulho de ouvir música brasileira verdadeira, que retrata o real meio em que sobrevive a maioria das nossas mulheres. Música essa que sacode a família tradicional, sempre torcendo o nariz para os problemas que ajudam a perpetuar, tira da cadeira os que preferem sentar-se ouvindo as batidas clássicas de um rei fajuto sem comprometimento algum com o social.

“Mão cheia de dedo, dedo cheio de unha suja, e pra cima de mim?”. O que estas mulheres têm em comum, além de serem brasileiras, negras e cantoras é a luta dupla: diária e constante contra o racismo e pelo reconhecimento de seu talento. Elas cantam desde as violências sofridas até a força e o poder que adquiriram após tantas quedas, e são referência para milhares de outras mulheres nas mesmas situações, que sentem-se representadas por cada uma delas. A força da voz destas mulheres deveria ecoar ainda mais, mas estas nem sempre ganham espaço e, por vezes, tornam-se “moda” em um contexto totalmente desvinculado ao que deveria ser.

 

“A carne mais barata do mercado é a carne negra”

Elza Soares, de 79 anos incertos, é veterana do soco no estômago da sociedade hipócrita. Com uma longa carreira musical, marcada pelo preconceito e violência que sofreu após o relacionamento com o jogador de futebol já falecido Manuel Francisco dos Santos, o Mané Garrincha, é a verdadeira rainha da música brasileira. Mesmo após a dificuldade para conquistar respeito e crédito pelo grande público, não desistiu.

Exemplo de força de vontade, à lá Frida Khalo, ainda hoje, mesmo com a coluna comprometida e precisando ficar sentada a maior parte do tempo, não deixa de fazer shows. A voz rouca dá o tom perfeito para as músicas de letras fortes, que deixam desconfortáveis àqueles que preferem não ouvir o óbvio e triste que é cantado.

“A Mulher do Fim do Mundo”, álbum lançado em outubro de 2015, é o primeiro de músicas inéditas dentre os 34 que a carioca coleciona. Nasceu em favela, casou aos 12 anos, perdeu vários filhos, sempre sonhou em cantar: sua jornada, de mais de 60 anos de carreira, é de luta, coragem e ousadia.

Depois do lançamento de “Vivo Feliz”, em 2004, Elza ressurgiu, após 11 anos de jejum, com este novo trabalho muito aclamado pela crítica. Com melodias expressivas e letras comoventes, “A Mulher do Fim do Mundo” traz frases tão marcantes quanto a emblemática “a carne mais barata do mercado é a carne negra” [A Carne], do CD “Do Cóccix até o Pescoço”, de 2002.

Mistura de samba com modernas distorções eletrônicas e até uma pitada de rap e rock, as 11 canções foram produzidas por Guilherme Kastrup, que reuniu um grupo de artistas paulistanos para transformar as músicas em um álbum dedicado à cantora. O CD foi eleito o melhor de 2016 pelo Prêmio da Música Brasileira, além de receber as indicações de melhor cantora para Elza Soares e melhor música para a canção de nome homônimo ao do álbum.

Elza faz do fim do mundo um lugar temido para os soldados da dor. “Você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”. As mulheres estão unidas. O desrespeito, o preconceito, o racismo, a discriminação não serão mais tolerados. Elzas, Carois e Ludmillas estão aí para mostrar que isso não mais passará. Não sejamos surdos para as violências que não vemos na televisão. Não importa a sua idade ou gosto musical, é tema de casa ouvir “A Mulher do Fim do Mundo.” Dá o play aí:

 

“Eu acho que a mulher do fim do mundo é aquela que busca, é aquela que grita, que reivindica, que sempre fica de pé. […] Tem que gritar, tem que falar, tem que botar pra foder mesmo”, Elza Soares em durante entrevista ao HuffPost Brasil, em novembro de 2015.

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