Cultura

CRÍTICA: Dominados e dominadores

Quando eu soube que uma nova exposição fotográfica entraria em cartaz no Santander Cultural – importante espaço de cultura e arte contemporânea em Porto Alegre – fiquei animado. É sempre empolgante saber que a fotografia tem sido cada vez mais utilizada como suporte de expressão artística e as galerias estão entendendo isso. Revela que certas barreiras da velha discussão sobre o que é arte estão sendo quebradas. Contudo, ao mesmo tempo, fiquei um pouco apreensivo. Quem me conhece sabe que sou bastante crítico na análise dos colegas fotógrafos.

Essa característica intrínseca da minha personalidade se manifestou imediatamente quando soube do lançamento de O Olhar Vertical, de Tuca Reinés. “Fotografia e helicópteros outra vez? Vik Muniz já faz isso há tanto tempo! ”, disparei mentalmente. A possibilidade de ter que lidar com mais do mesmo roubou um pouco daquele entusiasmo. Contudo, eu precisava conferir a exposição de perto para ter certeza se essa frustração permaneceria. Felizmente, ela não durou muito tempo. Tuca me surpreendeu. Nenhum problema em admitir aqui: eu estava errado!

No momento em que entrei no prédio e comecei a observar as fotos, fiquei aliviado. Pude perceber que o artista, que se dedicou ao projeto durante um ano, fez belas imagens. Num mesmo salão, é possível contemplar Fortaleza, Rio de Janeiro, Brasília, Manaus, Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre – parecida com Manhattan, segundo Reinés -, por exemplo, lado a lado. A mera avaliação técnica e estética, entretanto, não dura muito tempo. Quando parei e, de fato, observei o conteúdo das imagens, fiquei intrigado.

O próximo passo é acordar para a realidade. O que está acontecendo em nossas cidades? Por que estamos agindo como invasores, ainda que sem perceber? De que forma conseguimos viver nesse caos? Qual será nosso destino? Vamos viver empilhados um em cima do outro, como caixas? Um turbilhão de questionamentos me surgiu. Acredito que esse é o propósito maior da exposição, nos fazer olhar, de outro ângulo, aquilo que não estamos acostumados a ver. Justamente por isso O Olhar Vertical se torna tão interessante.

Destaco uma das imagens que me atraiu no início. Foi uma vista aérea do Rio de Janeiro, belíssima composição apresentando um mar azul que avança da esquerda para a direita, chegando a um filete branco, que é a praia, e uma cidade visivelmente organizada ao lado. Lembra a arquitetura francesa, especialmente se compararmos com uma imagem, também feita nas alturas, do Arco do Triunfo, por exemplo.

“O Rio de Janeiro continua lindo”, diz a música. É verdade. Entretanto, percebam como frequentemente associamos a natureza à vilã da história. “O mar azul avança da esquerda para direita”, escrevi acima. “Tsunami deixa mortos, destrói casas e invade aeroporto no Pacífico Sul”, afirma o G1 em notícia de 2013. “Vídeo mostra momento em que tsunami invade cidade”, destaca o portal Terra. A questão é quem, de fato, está no papel de invasor. Levar esse tipo de reflexão a uma galeria de arte torna o trabalho de Tuca ainda mais interessante.

 

3

Números que impressionam

Total de cidades fotografadas: 49
Duração do trabalho: 1 ano e 10 meses
Horas nos voos domésticos: 105,5
Horas de voos de helicóptero: 101
Horas nas estradas: 49,5
Horas nas ruas das cidades: 294
Km percorridos em voos domésticos: 68.575
Km percorridos nas estradas: 3.960
Km percorridos de helicóptero: 13.130
Km nas ruas das cidades: 5.580
Total de cliques: 37.653

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