Cultura

CRÍTICA: “Black-ish” e o cotidiano afro-americano

O seriado inova em deixar de lado o estereótipo caricato que as produções americanas estão acostumadas a fazer

A sitcom norte-americana produzida pela ABC podia passar batido se fosse só mais um seriado retratando o dia a dia de uma família classe média branca padrão americana, de quatro a três filhos, mãe dona de casa e pai executivo, mas Black-ish se sobressai por tratar justamente da quebra de todos esses padrões. A diferença principal, e bem abordada, está por serem a única família afro-americana em uma vizinhança predominantemente branca e “bem de vida”.

Através de piadas, e muitas vezes com tons sarcásticos, demonstram os estereótipos racistas que foram criados por culpa da escravidão e segregação racial, mas também a dificuldade de viverem em um país que sempre irá cobrar em dobro pelo simples fato da cor da sua pele não ser branca. Inclusive, isso é retratado em diversos episódios, já que a própria mãe, Rainbow “Bow” Johnson (Tracee Elliss Ross), é médica cirurgiã formada pela Brown University, e Dre Johnson (Anthony Anderson) é um renomado publicitário formado pela Howard University.

 

Dre, Bow e seus quatro filhos. (créditos: divulgação)

Fugir dos padrões de produção americana é uma das características do seriado. Foto: Divulgação, ABC

 

Esse é um ponto genial do seriado, de justamente trazer afro-americanos de classe média alta, indo contra a metade das produções já criadas e que ainda mantêm a visão do negro sendo subalterno e pobre. Os pais são graduados em universidades conhecidas, possuem empregos fixos, ganham bem, moram em um bairro residencial e possuem uma ótima casa. Os quatros filhos estudam em colégios particulares e são inteligentes, digamos que é uma mistura das séries Um maluco no pedaço e Eu, a patroa e as crianças. Mas é uma ideia em que os produtores do seriado, que também são negros, acertaram em cheio na forma de abordagem.

Mostra um outro lado dos negros americanos que são ricos e fazem questão que a sociedade saiba. Isso, inclusive, é trazido por Dre em um dos episódios, onde explica a fixação que homens negros têm por tênis caros de marcas, e o quão forte é a ligação disso com a escravidão, ou como ele mesmo diz, “dos 300 anos de estágio não remunerado”. Não só essa situação, mas também como a do Colorismo, a miscigenação americana, a saída de Obama da Casa Branca, o motivo de negros e latinos não votarem em Hillary Clinton, até o movimento Black Lives Matter, são retomados e discutidos por toda família Johnson de uma forma simples e que todos possam entender.

Porém, mostram que apesar de serem ricos não são isentos de sofrer a segregação no cotidiano, o estereótipo que a sociedade racista cria em cima dos negros, da preocupação do pai em relação à forma como a polícia irá tratar seus filhos. Dre e Bow estão sempre se confrontando com essas questões, o que acho extremamente inteligente por parte dos produtores, já que torna o debate ainda mais acalorado, pois muitas questões, na visão de Bow, são tratadas como exageradas, desnecessárias, para as quais basta seus filhos, e eles, seguirem a vida, mas Dre sempre relembra que eles são uma família de negros, que seus filhos irão sofrer quer queira, quer não.

 

Apesar das críticas sociais, a série também retrata o dia a dia como qualquer outra família. (crédito: divulgação)

Apesar das críticas sociais, a série também retrata o dia a dia como qualquer outra família americana de classe média alta. Foto: Divulgação, ABC

 

Claro que eles não focam apenas nessas questões, pois não deixam de passar por diversos momentos comuns que acontecem com qualquer outra família. Digamos que aí entra uma pitada da série Todo mundo odeia o Chris, mas nos anos 2000 e com uma qualidade de vida melhor. A série, apesar de estar recém na terceira temporada, já tem uma estante repleta de prêmios pela NAACP Image Awards desde 2015, uma premiação feita para os afro-americanos mais influentes do cinema, música e televisão.

Além disso, em 2017, arrebataram o Globo de Ouro de melhor atriz de comédia ou musical para Tracee , filha de Diana Ross, que só confirmou o que todos que assistem, assim como eu, já sabiam: Black-ish é umas melhores séries atuais de comédia. Até a própria Netflix já sabe, pois comprou os direitos de retransmissão, tornando ela ainda mais acessível e sem desculpas para não assistir.

Black-ish vai além de um seriado comum de comédia. Entra de forma leve e divertida, sem ofensas, em uma crítica social, dialogando diretamente com seus telespectadores negros, que são carentes por representatividade forte na televisão.

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