Cultura

Corpo, uma tela em branco

A afirmação da exposição corporal como elemento de linguagem na arte

A exposição corporal é um recurso utilizado por diversas artes visuais. Ao longo da História, podemos perceber manifestações do nu artístico na pintura, na escultura, no teatro, no cinema e na fotografia. Algumas civilizações, como a Grécia, têm em seu passado grandes representações marcadas pela aproximação da arte e do corpo em sua forma pura.

Durante toda a história da arte, desde o Classicismo, passando pela fase medieval, moderna e contemporânea, o nu artístico sempre provocou intensos debates. No passado, esteve associado à representação da beleza e à busca pela perfeição estética. O tempo agregou novos valores e significados, atribuindo-lhe aspectos mais críticos e questionadores, direcionados, principalmente, a convencionalismos culturais e sociais impostos pela sociedade. Em termos gerais,  o nu artístico, por vezes, acaba condenado como erotismo, pornografia e conteúdo apelativo.

 

Davi, de Michelangelo, em Florença, na Itália. Foto: Francisco Antunes (Flickr)

Davi, de Michelangelo, em Florença, na Itália.  Foto: Francisco Antunes (Flickr)

Para Newton Silva, mestre em Artes Cênicas pela UFRGS e apresentador do programa Estação Cultura, da TVE/RS, quando falamos em nudez  é preciso pensar no corpo como com um espaço de manifestação. “O corpo em arte, neste caso, é o espaço no qual a nudez é utilizada como um instrumento político de libertação, questionando moralidade e pudor”, salienta.

Jornalista e setorista na editoria de Cultura durante as últimas duas décadas, Newton acompanha de perto a programação artística da capital gaúcha. Apesar de não se considerar um crítico ou especialista em arte, sua trajetória profissional lhe permite tensionar um ponto de vista pessoal a respeito do nu.

Na sua opinião, a beleza do nu se encontra na diversidade que ela proporciona. “A beleza está na diversidade dos corpos: jovem ou velho, magro ou gordo, alto ou baixo, independentemente de cor ou de qualquer outro atributo estético, todo o corpo é potência, é espaço de linguagem”, diz Newton.

Estamos em um momento de busca por liberdades individuais, o que impacta na utilização da nudez artística. Apesar disso, Newton conta que muitas produções acabam reforçando teses que julgam o corpo despido apenas como sinônimo de sensualidade e pornografia, utilizando a exposição corporal com finalidade apenas de provocar desejo e vender uma imagem idealizada do corpo.

Não é o caso de Do Cru ao Personagem, resultado de um projeto em conjunto do grupo de teatro Galpão das Artes – de Osório (RS) – e do fotógrafo Jonathan Santhus que utiliza o corpo como expressão de ideias e espaço de diálogo. O projeto que colocou os atores da companhia de teatro osoriense em frente às lentes de Santhus buscava mostrar o processo de transformação e incorporação de um personagem pelo ator.

 

Do cru ao personagem - João Felipe Tondo interpretando o personagem Dom Casmurro. Foto: Jonathan Santhus

João Felipe Tondo interpretando o personagem Dom Casmurro. Foto: Jonathan Santhus

Em Do Cru ao Personagem, cada participante escolheu um papel em que já atuou e demonstrou o processo de transposição do ator até a personificação desse personagem.

Jeferson Hertzog, que representou a Dama da Noite da peça Histórias Perversas do Coração Humano, explica que a utilização do nu como artifício para transmitir essa visão encontra fundamentos na hipótese de apresentar o homem a partir de sua forma mais vulnerável.

 

Jeferson Hertzog incorporando a Dama da Noite Foto: Jonathan Santhus

Jeferson Hertzog e a Dama da Noite em processo de unificação.  Foto: Jonathan Santhus

Na sua opinião, a escolha possibilitou transmitir traços de cada personagem de uma forma mais clara. “Você fica despido de todo o seu eu. E isso te fragiliza, em um bom sentido, deixando o personagem mais visível, mais sensível e mais perceptível às câmeras”, comentou Jeferson.

A escolha por personificar a Dama da Noite teve relação direta de sua vivência como ator e artista, desde a expectativa do contato com o nu artístico e os temores que isso provocava até a essência representada pelo personagem.

“É um espetáculo em que eu faço um travesti e que fala exatamente sobre isso, sobre gênero, aceitação e transposição do teu corpo. Então eu entendi que seria a oportunidade perfeita para que eu, enquanto artista, pudesse me despir e me fragilizar, para fazer com que a arte pudesse transparecer através do corpo”, completou.

Rodrigo Azevedo, que teve experiências anteriores de exposição corporal em teatro, diz que a forma como o público recepciona a nudez está condicionada à sua relação com a cultura. Ele acredita que a leitura do espectador se trata de algo muito particular, e as produções atuais têm muito mais uma visão contemporânea, pós-dramática e mais fragmentada do que é a arte, oferecendo ao público mais liberdade para realizar suas próprias interpretações. Rodrigo salienta que, dessa forma, o público mais leigo acaba lançando um olhar mais voltado para o sentido erótico do que pessoas que possuem relação com arte e consomem mais cultura.

 

Foto: Jonathan Santhus

Rodrigo demonstra sua conexão com a personagem Megera Domada.  Foto: Jonathan Santhus

 

Foto: Jonathan Santhus

O ator busca confrontar as figuras de gênero estereotipadas. Foto: Jonathan Santhus

No projeto, Rodrigo escolheu representar a Megera Domada, personagem de William Shakespeare, que, segundo ele, faz alusão a questões de gênero, provocando as sentenças estereotipadas do que é ser homem e o que é ser mulher. Frutos da cultura em que estamos inseridos.

A diretora do grupo, Viviane Dutra, diz que ver o resultado do projeto Do Cru ao Personagem foi gratificante, pois ele simboliza a incessante busca do ator pela transformação corporal.

“Para um ator é maravilhoso quando você está em cena e as pessoas não te reconhecem. Significa que o trabalho do ator está cumprido. E nosso objetivo foi buscar, através da fotografia, que é uma arte que eterniza momentos, esse processo de transformação e personificação do ator”, disse Viviane, expressando orgulho pelo trabalho realizado.

Veja na galeria de imagens abaixo mais fotos da exposição Do cru ao personagem, de Jonathan Santhus:

Do cru ao personagem

Jonathan Santhus, fotógrafo responsável por dar vida ao projeto, assim como a maior parte dos atores, também teve sua primeira experiência fotografando modelos nus. O profissional confessou que existia temor de sua parte de que as fotos se tornassem um objeto de erotismo. Para que isso não ocorresse, usou composições de luz e angulações para valorizar o corpo como matéria-prima do ator.

“Eu tive essa preocupação. Não queria que as pessoas olhassem para as fotografias como objetos de sedução. O objetivo era fazer o personagem aparecer e afastar o desenvolvimento de críticas e juízos que estivessem relacionados somente ao corpo dos artistas”,  esclareceu o fotógrafo.

Conheça mais sobre o grupo Galpão das Artes:

Vídeo: Buenas Comunicações

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