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Corações vazios, cemitérios lotados

Na data dedicada a visitar entes queridos que já partiram, cemitérios têm programação especial

Um dia para dedicar um tempo aos entes queridos que já partiram. O feriado de Finados, celebrado no dia 2 de novembro, é uma data que costuma lotar os cemitérios da cidade. Os locais se preparam com antecedência para receber os parentes que irão prestar uma homenagem aos que já faleceram. Em Porto Alegre, os cemitérios também terão atendimento e ações especiais em alusão à data.

O gestor do Cemitério Parque Martim Lutero, Roberto da Silveira Júnior, destaca que a preparação começa três meses antes, em agosto, quando o Sindicato Nacional dos Cemitérios lança uma campanha para que todos os estabelecimentos cumpram o que for determinado. Cerca de 45 dias antes do feriado, é feita uma reunião com a Associação Sul Brasileira de Cemitérios e Crematórios (Asbrace) para acordar os detalhes do evento de forma coletiva. Participam das reuniões o presidente da Associação, diretores dos cemitérios, a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), a Brigada Militar e a Secretaria Municipal de Produção, Indústria e Comércio (Smic), para que sejam tratados os mais diversos tópicos, desde trânsito até comércio e segurança.

Roberto explica que cada cemitério tem sua programação particular. “Como aqui somos um cemitério evangélico, realizamos dois cultos no feriado de Finados. Os cemitérios católicos oferecem missas. Este ano teremos uma equipe de enfermagem medindo a pressão dos visitantes que, por ventura, tenham alguma indisposição”, exemplifica o gestor, destacando que, além dessas medidas, o cemitério Martim Lutero distribuirá copos de água e mil mudas de flores.

 

Cemitério Parque Martim Lutero (Foto: Rebecca Rosa)

Expectativa é de que o movimento no Cemitério Parque Martim Lutero, no feriado, aumente em, no mínimo, 50% .(Foto: Rebecca Rosa)

 

Expectativa e reparos para a data

De acordo com Roberto, a expectativa é de que o movimento aumente, no mínimo, 50% em relação a movimentação normal. Além de atender a estimativa, o Cemitério Martim Lutero está focado nos reparos para a data. O local sofreu muitos danos com os temporais que atingiram Porto Alegre em outubro de 2015 e janeiro de 2016. A área contava com mais de 3 mil árvores, no entanto, muitas delas caíram e acabaram atingindo sepulturas e causando danos na estrutura. A administração do cemitério conversou com as famílias e arcou com todos os custos de reparo. Infelizmente, algumas esculturas e mausoléus não puderam ser reparados, já que são peças únicas, algumas datadas de 1852, ano de inauguração do cemitério.

“Estamos conseguindo terminar os reparos agora, já que, quando estávamos nos recuperando do primeiro, fomos atingidos pelo segundo ciclone”, enfatiza o gestor. Segundo Roberto, além da administração, o estabelecimento colocará pontos ao longo do cemitério para que as pessoas possam tirar dúvidas ou fazer alguma solicitação referente às sepulturas.

 

Cemitério Parque Martim Lutero (Foto: Rebecca Rosa)

Cemitério Parque Martim Lutero. (Foto: Rebecca Rosa)

 

Noeli trabalha há 50 anos no mesmo local

A flor é um símbolo de delicadeza que pode ter muitos significados, mas, neste dia, ela representa saudade. Quem vai visitar a sepultura de familiares queridos acaba sempre levando flores para homenageá-los. Normalmente, elas são adquiridas nas minifloriculturas que ficam em frente aos cemitérios.

 

Floricultura em frente ao Cemitério da Santa Casa de Misericórdia (Foto: Rebecca Rosa)

Floricultura em frente ao Cemitério da Santa Casa de Misericórdia recebe as flores para os Finados. (Foto: Rebecca Rosa)

 

Noeli Miller, de 62 anos, é dona de uma dessas floriculturas localizada em frente ao Cemitério da Santa Casa de Misericórdia. Há 50 anos trabalhando no mesmo lugar, a vendedora conta que o feriado de Finados é sempre uma boa data para vendas. “Mesmo quem não tem condições sempre leva uma coisinha”, comenta a florista. Segundo Noeli, de uns anos para cá, a situação tem piorado. “O público tem caído bastante. Esse ano acho que vai ser bom, porque cai em dia de semana”, planeja.

Ganhar o sustento com a dor e o pesar dos outros não é tarefa fácil, mas Noeli acredita que, de alguma forma, ajuda as pessoas que passam pela sua floricultura. “Às vezes aparece alguém chorando para comprar flores. Eu não falo nada pra não interferir na vida da pessoa, mas transmito pensamentos positivos. Pelo menos eu sei que estou fazendo algo por ela”, conclui.

 

Noeli entrega o troco para um de seus clientes (Foto: Rebecca Rosa)

Há 50 anos no mesmo ponto, Noeli planeja um bom rendimento no feriado deste ano. (Foto: Rebecca Rosa)

 

Há quem evite o movimento

Nem todos deixam para visitar os parentes falecidos no feriado de Finados. Fernanda Vieira, de 34 anos, realizou sua visita uma semana antes da data marcada no calendário. Para ela, o dia de Finados é marcado por superlotação dos cemitérios. “Venho antes para ter mais privacidade. Me sinto mais confortável e à vontade para conversar com o meu avô”, diz apontando para a sepultura com uma foto amarelada na lápide. “Além de ter sempre muita gente, às vezes é barulhento e algumas pessoas acabam sujando o local. Sendo assim, venho sempre antes para garantir a minha tranquilidade”, explica Fernanda.

 

Mulher em visita a sepultura (Foto: Rebecca Rosa)

Parte do público visita as sepulturas na semana que antecede o feriado para escapar do movimento.  (Foto: Rebecca Rosa)

 

Outra pessoa que não deixa de visitar o cemitério nesta data é Olga Benetti, de 64 anos. Viúva há 10 anos, ela conta que não deixa passar nem um ano em branco. “Venho de dois em dois meses ver se está tudo certo com a sepultura, mas no feriado de Finados não deixo de vir. Parece que ele está esperando a minha visita, sinto como se esse dia fosse uma visita especial”, revela.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Comentários

Um comentário sobre “Corações vazios, cemitérios lotados”

  1. Rose disse:

    Gostei da reportagem.
    Mostra muito bem o foco que no dia a dia nos foge, a saudade de cada um, expressada de maneiras diferentes.

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