Economia

Óleo transformado em sabão: mulheres empreendem em busca de renda

Cooperativa afirma que a cada seis litros de óleo reciclado é possível fabricar até 34 sabões

Cooperadas da Mundo Mais Limpo separando o óleo que será reaproveitado. Foto: Lucas Schardong

Cooperadas da Mundo Mais Limpo separando o óleo que será reaproveitado. Foto: Lucas Schardong/Beta Redação

 

Em 2007, um projeto social voluntário foi formado pelas Irmãs Missionárias do Cristo Ressuscitado, em conjunto com as mães moradoras do Bairro Santa Tereza, em São Leopoldo, para servir almoço comunitário na Escola Estadual de Ensino Médio Amadeo Rossi. A partir desse encontro, as mulheres envolvidas no trabalho começaram a criar laços e a expor, entre si, suas dificuldades para conseguir uma fonte de renda. De origem pobre e com baixo nível de escolaridade, elas não encontravam um emprego no qual fosse possível conciliar os cuidados com suas famílias e a rotina de trabalho.

Foi a partir desse problema que elas resolveram se unir na busca por uma fonte de renda. “Nós percebemos a necessidade de buscar uma fonte de trabalho, mas fazendo isso sozinhas estava muito difícil. Então pensamos: por que não unir forças? A união faz a força, não? Depois disso começamos a procurar por algo de forma conjunta”, explica Cristina Giani, uma das integrantes e responsáveis pela criação da Cooperativa de Trabalho Mundo Mais Limpo.

Quando iniciaram a busca, variadas alternativas foram encontradas, como o artesanato ou montar um negócio no ramo da alimentação. Nessa época, Cristina foi convidada a participar de um evento chamado Encontro de Trabalho, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU). A atividade reunia pessoas para debater sobre universo trabalhista, a vida dos trabalhadores e também sobre a situação das políticas de trabalho, emprego e renda na região do Vale do Rio dos Sinos. Dentre os grupos de convidados, estavam pessoas que trabalhavam com diferentes formas de reciclagem e que, a partir dos problemas expostos por Cristina, sugeriram a ideia de elas trabalharem com o reaproveitamento do óleo.

Durante quase um mês foram debatidas as possibilidades de trabalho do grupo. Depois de decidirem pelo reaproveitamento do óleo, elas buscaram uma forma saber como poderiam retirar benefícios disso. Com um curso da Cáritas Brasileira, que pertence à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), elas aprenderam a confeccionar sabonetes, sabões e produtos de limpeza a partir de óleo de cozinha inutilizado. Assim surgia o Grupo Mundo Mais Limpo, que no ano de seu nascimento (2007) ainda não era uma cooperativa.

Poucos meses antes, ainda em 2006, e também no ano de 2007, ocorreram desastres ambientais que impactaram o Rio dos Sinos e mataram mais de 100 toneladas de peixes. Ao ver isso acontecer e com um aprendizado maior sobre a importância do próprio trabalho para o meio ambiente, a Mundo Mais Limpo iniciou um esforço de conscientização nos bairros de São Leopoldo. Nos três primeiros anos, o grupo, que era formado por nove mulheres, fazia um trabalho de recolhimento do óleo, indo de porta em porta nos bairros. “No começo nós não tínhamos muita noção da reciclagem do óleo, de fazer sabão e também de como isso iria afetar o meio ambiente. Depois que obtivemos conhecimento, também passamos isso às pessoas. Nós trocávamos o óleo de cozinha dos moradores por uma amostra do sabão produzido por nós”, relata Patrícia Mendes, uma das fundadoras e atual presidente da Mundo Mais Limpo.

Mesmo com a criação do grupo, as dificuldades ainda perduravam, já que a estrutura não beneficiava a produção e com isso elas não conseguiam renda suficiente. “No início, nós chegamos a arrecadar cinco ou sete reais apenas. Nunca imaginamos chegar aonde estamos agora, como estamos neste momento. Claro que pensávamos em conseguir renda, mas não achávamos que seríamos uma cooperativa”, revela Cristina.

A partir de 2010 elas já vinham sentindo constantemente a necessidade de melhorar o local de trabalho, seus meios de produção e também de recolhimento do óleo. “A partir dessas necessidades, o grupo procurou o programa Tecnologias Sociais para Empreendimentos Solidários e foi incubado pelo projeto. Com isso, conseguiram uma sede para fazer o trabalho através de uma parceria com a prefeitura, que cedeu o novo espaço”, revela Renata Hahn, analista de Ação Social do Programa Tecnosociais/ CCIAS.

Com a nova casa em funcionamento e diversos projetos que colaboraram com a evolução do trabalho, elas qualificaram o material e conseguiram, depois de muita luta, se tornar uma cooperativa. Hoje, as cooperadas da Mundo Mais Limpo não saem para bater de porta em porta. Elas recebem óleo direto da Coleta Seletiva Compartilhada de São Leopoldo, o que facilita o trabalho e acaba ampliando a produção.

O óleo na luta contra a poluição

Até a metade de março de 2017, cerca de 1.000 litros de óleo já foram recebidos e reutilizados para a produção de sabões, sabonetes e produtos de limpeza. A estimativa da Mundo Mais Limpo é de que seis litros de óleo podem render de 29 a 34 sabões de 50 gramas ou 16 sabões de 500 gramas, dependendo da densidade e qualidade do óleo. E toda matéria-prima que não vem com qualidade o suficiente para ser reciclada é vendida para produtores de óleo diesel ou ração, dependendo do material. Se não fosse reaproveitado, o óleo geraria prejuízo para a prefeitura, que teria que levar o produto para tratamento em Minas do Leão ou, pior, iria acabar no Rio dos Sinos, poluindo a água.

E os números são realmente alarmantes. Conforme pesquisa levantada pela cooperativa, um litro de óleo de soja despejado no esgoto contamina o equivalente a 1 milhão de litros de água, matando milhares de peixes e plantas, além de contaminar seres humanos.

Além da preocupação com o meio ambiente, outro grande diferencial do grupo feminino é a aplicação dos conceitos de economia solidária. Ela funciona pelos princípios de cooperação, autogestão, solidariedade e democracia. Na definição de autogestão, não existem chefes e empregadas. Mesmo que algumas tenham um poder de liderança maior, a decisão da maioria é sempre acatada, pois isso se refletirá no benefício da cooperativa como um todo. É possível perceber isso na voz das cooperadas. “Uma procura entender a outra. Estamos sempre nos ajudando e colaborando uma com a outra. É muito bom trabalhar assim”, conclui Leonora da Silva.

Renata enfatiza o entrosamento das mulheres na autogestão, já que elas demonstram uma união muito forte e sempre tomam as decisões de forma conjunta, respeitando as limitações e diferenças de cada uma. “Elas, enquanto um grupo de economia solidária, têm uma história muito bonita. Além da preocupação, tanto de renda quanto ambiental, elas têm um histórico de ser um grupo de mulheres. É um dos grupos mais autogestionários que eu conheço e que têm uma propriedade muito grande desse conhecimento”, afirma a analista social.

Com grandes dificuldades superadas, as expectativas para o futuro são de continuidade do trabalho e crescimento da cooperativa. A Mundo Mais Limpo possui licença ambiental, mas luta para se regularizar com o padrão estabelecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Com esse novo conceito de qualidade, elas poderiam vender para as indústrias, que têm interesse no material, mas não compram pela falta do padrão.

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