Cultura

Conheça a banda de Heavy Metal Arandu Arakuaa

Com músicas em Tupi, Xerente e Xavante, a banda contribui para a divulgação e valorização das culturas indígenas

Integrantes da banda. Foto: Caio Cortonesi

Integrantes da banda. Foto: Divulgação banda/

 

E se te contassem que existe uma banda heavy metal com letras em Tupi, você acreditaria? Agora você pode ter certeza de que é verdade. Essa é uma das peculiaridades da banda Arandu Arakuaa, que desde 2008 busca contribuir para a divulgação e valorização das manifestações culturais indígenas.

A ideia veio do criador da banda Zândhio Aquino, que desde pequeno teve contato com tribos e aldeias no Tocantins. “Nasci e morei até os 24 anos de idade, nas proximidades da Terra Indígena Xerente no Estado. Chegou um momento em que precisaria honrar meus ancestrais pelo dom que me foi confiado”, conta Zândhio. Para dar vida a banda, ele se mudou para o Distrito Federal.

 

Em seu primeiro disco, todas as músicas são em tupi antigo. Zândhio explica que achavam “interessante começar por aí devido a relação desse idioma com a formação do que hoje chamamos de nação brasileira”. No segundo disco, incluíram músicas nos idiomas Xerente e Xavante para divulgar e mostrar, ao menos um pouco, da diversidade dos idiomas indígenas, tentando quebrar com a ideia de que todo índio fala em tupi.

“Nossa ideia é justamente chamar atenção para as culturas indígenas em todos os seus aspectos e fazer com que as pessoas ao menos tenham curiosidade para buscarem conhecer mais sobre.” Zândhio Aquino

Capa do último cd "Wdê Nnãkrda".

Capa do último CD “Wdê Nnãkrda”.

 

O nome escolhido Arandu Arakuaa significa em tupi-guarani “saber dos ciclos dos céus” ou “sabedoria do cosmos”. Essa expressão foi encontrada no livro de Kaká Werá Jecupé, “A terra dos mil povos: história indígena brasileira”.

Para compor as músicas em Xavante e Xerente, eles contam com a revisão de amigos nativos dessas línguas. Já para o Tupi antigo é mais fácil, pois este tem uma gramática amplamente divulgada.

Disponibilizando as músicas com as letras e a tradução para o português, a banda acredita que auxilia para a divulgação dos idiomas indígenas, pois nas próprias palavras de Zândhio “a música é o tipo de arte mais acessível e aproxima as pessoas”.

 

Desde 2012, a banda é formada por Nájila Cristina (Vocais/Maracá), Zândhio Aquino (Guitarra/Viola Caipira/Vocais/Teclado/Instrumentos Indígenas), Saulo Lucena (Contrabaixo/Vocais de Apoio/Maracá) e Adriano Ferreira (Bateria/Percussão).

Público

Em abril de 2015, a banca tocou no festival Thorhammerfest em São Paulo e lembram com felicidade do momento. O motivo: durante o show toda a plateia cantava junto com a banda. “O show não foi nosso e sim do público que lá estava”, lembra Zândhio.

Thorhammerfest em 2015. Foto: Divulgação

Thorhammerfest em 2015. Foto: Divulgação banda.

 

O público é bem variado, abrangendo apreciadores de diversos tipo de música, mas a banda afirma que o maior é do Metal. Porém, a principal motivação para gostarem do grupo é, justamente, pela identificação com os temas abordados e pela proposta artística.

Na página do Facebook, há vários comentários de fãs agradecendo pelo trabalho da banda. Em um deles, ‎Rodrigo Novelo Primolan‎, que “como brasileiro, descendente direto de índios, músico, metaleiro só tenho a agradecer o trabalho de vcs! Sem palavras… Parabéns trocentas mil vezes!”.

Visibilidade das línguas indígenas

Para o sociólogo e professor da Unisinos, Walmir Pereira, esse tipo de iniciativa acaba por amplificar a visibilidade da cultura indígena. “Penso que esses processos amplificam, mesmo que limitado há certo estilo musical, o conhecimento dos idiomas indígenas”, comenta Pereira.

O professor ainda explica que, devido ao etnocídio dos povos indígenas brasileiros, muito da cultura e língua desse povo desapareceu. “Dos 6 milhões de índios que existiam no Brasil, 5 milhões foram mortos. Eram mais de 10 mil povos, e hoje apenas 305 ainda resistem”, ressalta.

“O Brasil é o segundo maior país com diversidade cultural, perdemos apenas para a Índia”, afirma Walmir.

Para mudar a falta de visibilidade e reconhecimento dos idiomas indígenas, Pereira acredita que dois movimentos deveriam acontecer: haver mais programas de valorização da cultura indígena por parte do poder público, sendo ensinado desde o Ensino Fundamental; e ser criado programas de internacionalização da cultura indígena para que seja considerada patrimônio mundial. Ele cita que para isso acontecer precisaríamos também do apoio de universidades e da Unesco.

Dentre várias iniciativas que buscam dar visibilidade aos idiomas indígenas, o professor destaca o grupo de rap “Bro Mc’s” formada por índios da etnia Guarani Kaiowá. “Essas bandas geralmente atraem mais o público jovem, ampliando o olhar deles sobre nossa cultura e gerando, até mesmo, propagação internacional”, saliente Walmir.

Para conferir todas as músicas da Arandu Arakuaa, acesse o canal do Youtube  ou o Soundcloud da banda.

 

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