Economia

Condição econômica do Brasil limita vagas no mercado da aviação

Pilotos sofrem com a instabilidade econômica no país

Você pode imaginar um jovem de 25 anos,  com a sua formação na universidade concluída aos 23, mas que em dois anos ainda não conseguiu emprego? Esse é o caso de Felipe Veit Bohn. Graduado em Ciências Aeronáuticas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), o piloto não vem conseguindo o que mais deseja: trabalhar.

Morador de Porto Alegre, Bohn sofre com a atual situação econômica do Brasil, que limita – ou até elimina – as vagas para piloto nas poucas companhias aéreas existentes no país.  O jovem conta que só teve a oportunidade de fazer uma seleção até agora. “Fiz todas as etapas do processo de seleção da Azul e fiquei no aguardo para me chamarem. Porém, com a economia em baixa, a companhia não chamou os aprovados na seleção e cancelou o processo seletivo”, disse Bohn.

Com o mercado aquecido, Bohn ingressou em 2011 em uma escola de aviação. No entanto, a fim de ter uma formação mais completa, o estudante iniciou o curso de Ciências Aeronáuticas na PUC-RS. “Quis fazer faculdade para obter mais conhecimento e ter um melhor posicionamento no mercado, visto que  a faculdade dá uma base muito forte teórica e prática através dos simuladores. Não foca apenas nas matérias base que se tem nos cursos fora da faculdade”, comentou o jovem. Porém, ele esperava que o mercado da aviação no Brasil estivesse como quando ingressou na aviação. “Na época que ingressei, a situação era muito boa no mercado, sendo assim mais um incentivo para eu escolher essa área”, concluiu Bohn.

Da turma de Bohn, formada em 2014, menos da metade está empregada atualmente. Foto: Arquivo Pessoal

Da turma de Bohn, formada em 2014, menos da metade está empregada atualmente. Foto: Arquivo Pessoal

O Coordenador do Departamento de Treinamento de Voo da PUC-RS e mestre em Administração de Empresas, Lucas Fogaça, 33 anos, acredita que essa “crise” da aviação no Brasil vem ocorrendo pois esse é um dos primeiros setores a sentir a variação do dólar e do combustível. Tais fatores são responsáveis por metade dos custos de uma empresa aérea.  Além disso, o piloto comercial – com mais de três mil horas de voo – crê que a alta necessidade de componentes importados, a vulnerabilidade do cliente que modifica a forma de transporte de seus produtos e o adiamento de compromissos não tão importantes, por exemplo, prejudicam o mercado. “Algumas empresas aéreas brasileiras estão passando por um processo de reestruturação. Muitas têm devolvido aeronaves e eliminado rotas menos lucrativas. Isso é importante em termos de mercado para manter a “saúde” financeira das empresas frente à crise ou mesmo diminuir seus efeitos”, disse Fogaça.

 

 

Entretanto, dados da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) de 2014-2015 mostram que houve uma diminuição de 849 funcionários entre pilotos, copilotos, comissários, entre outros setores. Para Fogaça, essa situação acompanha a atual condição financeira do Brasil. “A quantidade de empregos no Brasil tem sido difícil nos últimos anos, não é uma exclusividade da aviação. Muitos profissionais recém-formados estão encontrando certa resistência no mercado de trabalho para sua colocação imediata após a colação de grau”. Todavia, o mestre em Administração apontou outro caminho para os jovens recém-saídos da faculdade. “Com uma formação mais completa, permite-se que os bacharéis trabalhem, além da cabine de comando, em áreas estratégicas como Safety, Operações e outras funções administrativas. Assim, concorrendo em muitos casos para funções com salários até maiores do que os de comandante, contribuindo também na gestão de grandes companhias”, completou Fogaça.

 

 

A solução apontada por Fogaça é aderida, em partes, por Felipe Muller e Felipe Guder. Os jovens, de 23 e 25 anos, estudaram em escolas de aviação. Estas escolas têm como característica uma formação mais baseada na “prática”, apesar de também abordarem fundamentos teóricos. Os dois pilotos, apesar de terem as licenças para voo comercial, também não veem perspectiva de ingressar em grandes companhias aéreas.  Muller atualmente  ministra aulas teóricas de meteorologia e práticas de voo no aeroclube de Montenegro. O piloto enxerga outras possibilidades além de se tornar comandante em uma grande companhia aérea. “Meu objetivo é me tornar piloto de companhia aérea, mas também não descarto a possibilidade de me projetar para a aviação agrícola, uma vez que é relativamente mais rápida de alcançar – e o retorno financeiro também”, comentou Muller.

Guder também é instrutor de voo, mas dá aulas no aeroclube de Caxias do Sul. O jovem se diz apaixonado por aviões e decidiu seguir essa carreira devido ao fato de sua irmã ser comissária de bordo. “Ouvindo e vendo minha irmã nesse meio, minha vontade de ser piloto só foi aumentando no decorrer dos anos. Meu objetivo é ser piloto de alguma grande empresa aérea, mas não descarto a opção de ser piloto particular”, exclamou o jovem.

Moura (esquerda) encontro o mercado exterior como solução a crise que viria a se instalar no Brasil. Foto: Arquivo Pessoal

Moura (esquerda) encontrou o mercado exterior como solução a crise que viria a se instalar no Brasil. Foto: Arquivo Pessoal

Alexandre Moura, 50 anos, é formado desde 1999 em Ciências Aeronáuticas, pela PUC-RS. O piloto trabalhou até 2006 na VARIG, no ano de seu fechamento. Depois, ficou até 2008 na BRA, que também foi fechada devido a problemas financeiros. Logo em seguida, Moura empregou-se na WEBJET até a sua extinção, em 2012. O atual Comandante na Turkish Airlines, em Istambul, sofreu diretamente com a instalação da crise no Brasil. A solução encontrada por ele foi trabalhar no exterior. “Não é fácil voar fora, temos muitas cobranças,  muitas leis – e a língua é muito diferente, o que gera certa dificuldade”, comentou Moura. Segundo ele, o Mercado no Brasil está “acabado” por ações imprudentes da política brasileira. “No Brasil, as empresas pagam pouco e os funcionários são protegidos  por leis trabalhistas que só existem no papel”, finalizou o comandante.

O piloto Lucas Fogaça entende que a instabilidade econômica se encerrará e que o mercado tornará a crescer. “A tendência econômica é a estabilização agora que os rumos políticos do Brasil estão se definindo. Temos informações extraoficiais de que as empresas aéreas devem voltar a fazer seleção de pilotos já no começo de 2017”, completou Fogaça.

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