Esporte

A comunidade LGBTQI e a relutância ao esporte

Muitos LGBTQIs não se sentem confortáveis para a prática de esportes e a Beta Redação foi analisar os motivos

A prática de exercícios nas escolas é obrigatória, sendo regulamentada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9.394/1996 e 10.793/2003), fazendo com que o ensino da Educação Física faça parte da rotina de centenas de milhares de alunos Brasil afora.

Além dos diversos benefícios que a prática de algum exercício ou esporte traz às pessoas, é sabido que essa também pode ser uma forma de manter a saúde em dia, desenvolver resistência, modificar o corpo de maneira que ele fique mais do agrado do praticante e mesmo proporcionar momentos de bem estar.

Para algumas pessoas, no entanto, o simples pensamento de se exercitar e/ou praticar algum esporte pode ser um terrível pesadelo. Integrantes da comunidade LGBTQI sofrem preconceitos nos mais diversos ambientes, inclusive neste meio.  Por vezes, este é um dos primeiros lugares onde eles encaram a discriminação. A sigla faz referências a pessoas que se identificam como Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais/Transgêneros, Queers/Questionadores e/ou Intersexuais.

Guilherme da Rosa conta que “O que acontecia [comigo] era um preconceito indireto, ninguém falava nada, mas os meninos não me escolhiam para o time quando eu jogava futebol com eles, ou não passavam a bola, por exemplo, e eu acabava não jogando”, conforme relembra os tempos de escola.

Por vezes, isso fazia com que ele buscasse fazer algo juntamente às meninas de sua classe, que ocasionalmente também rejeitavam sua presença porque, sendo menino, ele seria “mais forte”, segundo alegavam. Em um determinado momento, ele chegou a ser chamado de “viado” por um de seus colegas. Ao levar a queixa a uma professora, ele conta que a mesma apenas voltou o questionamento a ele mais uma vez, em um sonoro “E você é [viado]?”

Termos como este não são necessariamente entendidos pelos gays como insulto. Entre eles, tudo é levado “numa boa” e de maneira descontraída, na grande maioria das vezes. O problema surge no momento em que as palavras são usadas de maneira pejorativa, com o intuito de ofender e desmoralizar alguém simplesmente em razão de sua orientação sexual.

Sheila Lauffer Glaser é psicóloga e analisa que para muitos da comunidade LGBTQI uma espécie de “sentimento de não pertencimento” pode fazer com que as pessoas não consigam se inserir em determinados grupos. Aliado a isso, sentimentos como baixa autoestima, vergonha, timidez e reclusão social podem surgir também.

O preconceito está entranhado nas pessoas e na sociedade de forma tão massiva e profunda que muitas vezes nem mesmo o uso descontraído e bem-humorado a palavra faz-se aceitável: Christian Gonzatti iniciou uma página no Facebook cujo nome era “Viado Nerd”, um espaço direcionado ao público LGBTQI de modo geral que também tivesse paixão pelo universo geek e tudo mais que o cerca.

Através de denúncias feitas como forma de perseguição à página e seus conteúdos, a “Viado Nerd” foi retirada do ar. Foi então em janeiro de 2016 que o projeto retornou, com o nome de “Diversidade Nerd”, perdurando até hoje, trazendo inúmeras críticas sociais, debates, resenhas sobre livros, filmes e afins, sempre com material relacionado à cultura pop.

Em uma de suas reflexões postadas na página, Christian relembra com tristeza alguns momentos da infância: “As minhas experiências com o esporte foram: meus colegas meninos criando um sistema de exclusão nas aulas de Educação Física, sustentado pela Pedagogia. Explico. Nas séries primárias você era meio que forçado a ficar no grupo dos meninos – e o futebol era guardado pra eles na maioria das vezes, meninas ficavam com o vôlei, a dança, o pular corda. E aí, os times eram divididos assim: dois colegas eram os líderes e eles iam montando os grupos. Eu sempre era o último e era sempre uma tristeza ficar comigo no time.”

Ele ainda conta que houve até mesmo uma espécie de afastamento social em razão de quem ele era e do que gostava de fazer. A medida que todos os meninos iam crescendo e aprimorando seus conhecimentos sobre o futebol, ele só se afastava cada vez mais deles, por não ter assunto para conversar, já que esse esporte não era do seu interesse.

A psicóloga Fernanda Hampe explica que “Os jogos e a prática de esporte trazem como questão toda uma expectativa que se tem de desempenho dos corpos. O que, de alguma forma, se entende como aquilo que um corpo de mulher pode fazer e aquilo que o corpo de um homem pode fazer.” Ela ainda acrescenta que essas expectativas com base nos estereótipos de gênero já são suficientes para criar situações de preconceito.

Isso é um problema porque impede que as pessoas da comunidade LGBTQI se sintam a vontade para fazer as coisas, incluindo a prática de esportes. É como se elas não se sentissem autorizadas a estarem em determinados locais, como se as mesmas não fossem legítimas em razão disso.

Ela finaliza dizendo que o padrão heteronarmativo no qual nossa sociedade se encaixa, e que pré-define os papéis de “homem” e “mulher” não alinha apenas os projetos sexuais e amorosos das pessoas, mas também o que elas podem ou não fazer com seus próprios corpos.

O questionamento que fica, aqui, é a respeito do papel desempenhado por inúmeros profissionais da Educação Física, que diariamente moldam crianças e jovens adolescentes por todo o país: estariam os educadores dando abertura para reforçar os padrões de gênero que já existem na sociedade?

Confira um infográfico com alguns informações sobre a realidade LGBTQI no país:

Mapa LGBTQI_(1)

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