Cultura

Como os celulares estão acabando com as rodas de bar

Rotina de redes sociais está alterando a forma que as pessoas interagem pessoalmente

Mudanças tecnológicas e advento das redes sociais mudam totalmente a cena de um grupo de amigos “interagindo”. Créditos: How I Meet Your Mother CBS©2005-2014

 

A semana foi estressante. Seu chefe pegou o tempo todo no seu pé, as aulas na faculdade foram complicadas e você mal pode esperar para fazer aquele happy hour com os amigos para botar o papo em dia. Afinal, durante vários dias o único meio de comunicação entre vocês era aquele grupo do WhatsApp ou os comentários de uma postagem do Facebook. Você marca de encontrá-los no bar que o grupo sempre frequenta e pede empolgado as primeiras cervejas.

Porém, um silêncio estranho reina durante o encontro. Os assuntos não se desenvolvem e alguns membros do grupo parece que vieram realmente ao encontro: a todo momento estão digitando em seus smartphones, curtindo fotos cheias de filtros no Instagram ou paquerando aquele crush do Tinder, hábitos que não existiam há menos de 10 anos. A rotina digital se tornou tão intensa que algumas pessoas não conseguem mais interagir de outra forma que não seja pelo celular.

Isso faz com que Allan Klaus, 28 anos, evite sair com amigos em locais que tem Wi-Fi, justamente para evitar que alguns fiquem grudados no celular à noite toda. “Além de não prestarem atenção no assunto, acaba perdendo o objetivo do encontro”, reclama.

A situação às vezes se complica quando quem reclama dos amigos acaba se perdendo no WhatsApp no meio da conversa. “Sempre tem alguém que não larga o celular, inclusive esta pessoa às vezes sou eu”, conta o boêmio Gabriel Auler, 23 anos. Frequentador assíduo de bares, o estudante de Economia afirma que acha chato quando isso acontece, mas afirma que é impossível ficar sem dar aquela olhada no celular hoje em dia. “Apesar de estar com vários amigos naquele momento, a gente está sempre conectado com muita gente devido às redes sociais. Às vezes a pessoa está com a cabeça em outro lugar”, pondera.

 

O silêncio é o gatilho

Alexandre Inagaki, jornalista e especialista em comportamento digital, acredita que esse tipo de comportamento em momentos de interação social surge quando o assunto acaba. “Cada vez mais estamos desabituados ao silêncio, à quietude. Basta surgir algum momento de ócio para que surja a compulsão de puxar o celular do bolso para consultar o Facebook, o WhatsApp, ver se há algum Pokémon na área, preencher cada lacuna de tempo com a carga infinita de entretenimento que a internet nos proporciona”, avalia.

Apesar de observar esse comportamento em vários momentos e pessoas ao seu redor, Alexandre não culpa as redes sociais. “Para mim redes sociais são meio, não o fim. Alguns dos meus melhores amigos pessoais eu conheci graças às redes sociais, e nem por isso deixamos de preferir um bate-papo tradicional olho no olho quando o tempo permite. Me soa a uma certa fobia de pessoas essa história de ter quem prefira apenas as interações online”, afirma.

E Alexandre não está errado. A  nomofobia pode ser uma das causas que levam as pessoas a não largar o celular na mesa do bar. A fobia surge quando alguém se sente angustiado pela impossibilidade de se comunicar por estar sem seu aparelho celular ou desconectado na internet. O termo nomofobia vem do inglês (no-mobile, sem celular) e se comprova indiretamente pelo tempo que as pessoas gastam interagindo nas redes sociais. Segundo uma pesquisa do KantarIbopeMedia, o consumo de internet cresceu entre a população brasileira que passa mais de 3 horas navegando na rede. Dentre essas pessoas, 64% delas estão fazendo isso por um smartphone, e oito em cada dez delas utilizam a rede para acessar as redes sociais ou trocar mensagens espontâneas.

 

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