Política

OPINIÃO: Sobre sororidade, decote e decoro

Vivemos em um mundo que segue o lema “dividir para conquistar”: é mais fácil inibir a união poderosa e transformadora das mulheres quando elas estão se odiando, separadas por picuinhas imaginárias desde muito cedo. Quem não se lembra de inventar um apelido maldoso para a amiga só porque ela tinha uma característica física diferente? E quem nunca recebeu de volta um apelido igualmente maldoso ou recebeu olhares de desaprovação por algum “look do dia”?

Confesse: se você é mulher, isso já aconteceu pelo menos uma vez na sua vida. E, ao que parece, no cenário político isso não é diferente. Afinal, na quarta-feira, 9 de setembro, servidoras da Câmara Federal cobriram a cabeça e o rosto com lenços para simbolizar burcas em um protesto contra uma medida em discussão na Casa que proíbe que mulheres transitem pelo local vestindo minissaias, transparências, blusas decotadas e até sandálias.

Uma das incomodadas com o estilo das mulheres que transitam pela Casa é a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), que propôs à Mesa Diretora a exigência de roupas sociais e a proibição do uso de decotes ou saias mais “ousadas”. O primeiro-secretário da Mesa Diretora, Beto Mansur (PRB-SP), vai apresentar uma proposta para restringir o vestuário feminino. Segundo ele, o objetivo é combater os “excessos”, e ele defende que se crie uma regra mínima.

Parece brincadeira que, com o cenário atual, ainda tenha gente que se preocupe mais com o dress code do que com pautas realmente importantes. Além de ser um absurdo, a ideia da restrição é puro conservadorismo; atraso social, cultural e uma cortina de fumaça para assuntos mais sérios relacionados diretamente à autonomia das mulheres.

Seguindo esse raciocínio, nos últimos tempos uma nova palavra entrou no meu vocabulário e no de várias mulheres: sororidade. Ela me pegou de vez e já tem lugar garantido ao lado de expressões como desconstrução, coletividade e empoderamento. Mas, afinal, qual sua real definição? Sororidade vem do latim – sororis significa irmã e idad, qualidade. Se o pacto entre os homens é conhecido como fraternidade e reconhece parceiros e sujeitos políticos excluindo as mulheres, a sororidade é o pacto entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma dimensão ética, política e prática na luta pela equidade no contexto contemporâneo.

Não é novidade nenhuma que existe uma desigualdade sociocultural histórica, que acabou por desenvolver um controle sobre o feminino através de seu corpo, sexualidade e reprodução. A sociedade é patriarcal e se manifesta em todos os lugares, instituições, pessoas, hábitos, culturas, religiões, ideologias, e mesmo entre mulheres. Isso porque o patriarcado socializa com os papéis e as hierarquias de gênero que existem entre homens e mulheres.

A proposta de restrição só deixa claro o machismo enraizado na sociedade e, obviamente, na política mais uma vez. O patriarcado existe há muito tempo, pois promove a sociabilidade entre homens, que se tratam como irmãos, atribuindo-lhes poder. Enquanto isso, obriga as mulheres a socializarem entre si como inimigas, servindo aos interesses do desejo masculino.

Mulheres são julgadas pela vestimenta, pela estética. Não são poucas as notícias que falam do “visual” da presidenta em vez de atentar para as palavras que ela proferiu em determinado discurso. Desmerecer e desacreditar mulheres pelo que elas vestem é um dos recursos usados há tempos para limitar seu poder de decisão sobre o próprio corpo. Qualquer tentativa de uniformizar, determinar o que a diversidade de corpos estéticos e identitários das mulheres brasileiras pode trajar é dizer que se pode medir a competência pelo tamanho ou tipo de vestimenta; é atribuir valor à estética.

Para as servidoras que apoiam a restrição, vale pensar em sororidade e em não se tornar massa de manobra do sexismo na Casa, que opera de maneira silenciosa.E, quem sabe, convidar os servidores a debater a legalização do aborto, o combate à mortalidade materna de mulheres negras, os altos índices de estupro e outros tipos de violência contra a mulher, entre tantos temas que precisam ser discutidos. Isso combateria os “excessos” de absurdos e deixaria claro que cada um deve cuidar do seu decoro, que cada mulher cuida do seu decote.

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