Economia

Coletivo Florescer oferece ensaios fotográficos fora do comum

Localizado em São Leopoldo, estúdio faz fotos inspiradas na identidade dos clientes e aposta em uma produção estética baseada na personalidade de cada um

Kellem e Karen

Karen e Kellem (Foto:  Coletivo Florescer)

Apaixonadas por fotografia, as irmãs Kellem Santos, 27, e Karen Juliana, 20, decidiram se unir para montar o próprio negócio. Com um conceito diferenciado, as duas optaram por uma proposta que vai além do mercado usual de estúdios fotográficos. O Coletivo Florescer, como foi batizado, tem o objetivo de contar histórias através de imagens. Fundada em março deste ano, a iniciativa das jovens empreendedoras conta com portfólio em crescimento e está conquistando, cada vez mais, novos clientes.

Apesar de estar em atividade há apenas dois meses, a história por trás do Florescer começou há mais tempo. Estudante de Artes Visuais, Kellem sempre foi apaixonada por fotografar – tanto que, quando teve oportunidade, decidiu sair do estágio em que trabalhava para se arriscar, sozinha, na carreira de fotógrafa. Na época, ela realizava ensaios um pouco mais costumeiros, como os de grávidas ou recém-casados, por exemplo. Foi então que, quando foi contratada para um grande evento, resolveu convidar sua irmã para ajudá-la, já que não tinha verba para contratar um funcionário freelancer. E esta foi a primeira vez que elas trabalharam juntas.

Um pouco receosa, Karen aceitou, mas afirmou que só conseguiria ajudar segurando os equipamentos de iluminação, sem clicar nenhuma foto naquela noite. Mas foi depois deste momento que o interesse pela fotografia despertou em Karen, que, em seguida, pediu para que a irmã a ensinasse como utilizar a máquina fotográfica.

“A mágica do trabalho é isso. Quando a Karen foi trabalhar comigo, algo aconteceu com ela. Depois do evento, ela veio conversar comigo e disse que queria aprender a fotografar. Foi um momento marcante quando eu botei todo o equipamento em cima de uma mesa e expliquei a ela como funcionava. Depois, a gente foi treinar e ela fez uma foto incrível. Daí, eu senti que tinha alguma coisa de especial ali. Na outra semana, a gente chamou uma amiga para fazer um ensaio para treinar também e a Karen ficou encantada com tudo e, desde lá, não parou mais”

A partir disso, as duas começaram a trabalhar juntas com a fotografia, mas em projetos separados. As irmãs produziam fotos para ensaios, porém, o trabalho de divulgação e os clientes eram divididos. A maior parte do valor recebido pelo ensaio acabava indo para aquela que tivesse fechado o contrato – algo que, segundo elas, era desigual, especialmente pelo fato de que a carga de trabalho era praticamente a mesma para as duas. Desta forma, com a decisão de que unir o trabalho seria o melhor, e que elas queriam focar apenas na fotografia, Karen saiu da loja em que trabalhava e, assim, nasceu o Coletivo Florescer.

Ensaio fotográfico com Aléxia Fabíola (Foto: Florescer)

Ensaio fotográfico com Aléxia Fabíola (Foto: Florescer)

“A ideia do Coletivo foi pensado justamente porque nós trabalhamos com identidade. Não é como num estúdio, por exemplo, onde qualquer um chega a hora que quer e faz uma foto. Nós trabalhamos com algo mais ideológico, buscando entender aquela pessoa e estamos aqui tentando pegar todos os tipos de gente”, explica Karen, ressaltando que o resultado do trabalho do Coletivo é, de fato, diferenciado.

Kellem também ressalta que a concepção do Coletivo foi a forma que elas encontraram de abrir espaço para que o cliente possa se expressar e se posicionar no mundo. A estudante de Moda também afirma que o conceito do Florescer está baseado em como elas realizam o trabalho, construindo o ensaio em conjunto com o fotografado – e não como algo determinado apenas pelas duas fotógrafas.

Quando o cliente busca o trabalho de Karen e Kellen, elas começam a explorar os conteúdos que irão permear o ensaio. Por exemplo: se tem alguma poética, se ela quer trabalho voltado para um segmento específico, o que ela quer com a foto, quais os medos delas com relação à imagem. “A fotografia não é apenas o registro da coisa, mas a expressão da pessoa e do seu momento”, explica Kellem. Ela também fala sobre o papel social que o trabalho delas se compromete a fazer:

“Quando a gente diz que quer fotografar e dar ênfase às questões de identidade, não é a essência, é a identidade mesmo. A identidade social, a diferença. Fazemos isso nos baseando em autores e artigos que falam sobre o tema, sobre aceitação. Nós temos as nossas diferenças, elas são culturais e isso precisa ser mostrado, porque quando tu mostra isso, tu fala da questão do gênero, do machismo, do feminismo. Essa é a intenção, no sentido de ter um papel social ativo”

Toda essa proposta também conversa com a vivência e experiência das duas em seus cursos de graduação. Elas usam – e muito – os conceitos e conhecimentos adquiridos nas áreas de estudo e atuação para produzir os ensaios. Como estudante de Moda, Karen é responsável por dar consultoria às pessoas que querem escolher suas roupas ou o corte de cabelo, por exemplo. Isso é organizado e decidido com o cliente, que busca a opinião dela para estes assuntos. Já enquanto estudante de Artes Visuais, Kellem se preocupa com uma parte estética mais focada no ensaio como um todo – como na utilização de luzes ou cores. De acordo com as irmãs, cada ensaio tem uma preocupação estética muito forte e a relação da Moda e das Artes Visuais se encontra com a personalidade de cada cliente.

Ensaio fotográfico com Andressa Lima (Foto: Florescer)

Ensaio fotográfico com Andressa Lima (Foto: Florescer)

O processo de produção do ensaio é feito a partir do contato com a pessoa que quer ser fotografada. Elas buscam entender a personalidade do cliente e o que ele quer com o ensaio; quais as ideias que ele já tem; qual será o tipo de ensaio (urban, sexy, caseiro); e, neste momento, também decidem a localidade do shooting (ensaio). Conforme a conversa vai avançando entre o cliente e as fotógrafas, elas montam tudo e contribuem com ideias, que sempre buscam atender ao desejo do fotografado.

“Nós queremos que cada ensaio desperte interesse visual. Que as pessoas queiram ver o ensaio até o fim e que queiram acompanhar os outros trabalhos. Pensar tudo isso – cores, roupas e acessórios – é trabalhar como esses elementos, que foram escolhidos pela pessoa, fala sobre a identidade dela. Quando tu faz uma foto, tu espera que, daqui a 20 anos, tu veja ela e te enxergue como tu era. Queremos que a pessoa olhe e se veja naquele fragmento de momento”

Elas também revelam que, com toda essa busca por conhecimento e compreensão dos outros, um movimento e uma ligação emocional muito forte acaba surgindo. Foi o que aconteceu com Matheus Quadros. O ensaio dele foi voltado para a liberdade do corpo e, também, uma forma de sair do rótulo e do gênero. Para elas, a escolha das roupas, do cabelo, da maquiagem, vai dizer muito sobre essa pessoa.

O fotografado conta que o foco do seu ensaio foi na singularidade do corpo e seus movimentos, misturados com a moda e a expressão comportamental. Quadros afirma que sempre buscou posar para as lentes como algo além da ferramenta de registro, pois quer passar, com isso, um sentimento e uma inquietação. Perguntado sobre a diferença do Florescer em relação à outros estúdios, ele revela:

“O grande diferencial do Florescer começa na estrutura do estúdio, que é tão acolhedor quanto a minha casa. O carinho e o sorriso delas é constante e contagiante . Tenho fresca em minha memória a imagem das duas emocionadas com o resultado visto no visor da câmera. Com certeza eu indico e faria mais trabalhos com elas. O Florescer me encanta, canta e dança. Falar, fotografar, escrever e expor o corpo ainda é uma certa vanguarda, mas em tempos obscuros e difíceis é mais do que necessário visibilizar nossos traços singulares”

Para Matheus, participar do ensaio foi uma grande reflexão. Todo o processo o fez pensar sobre o seu passado de lutas e sofrimento, que deixou marcas. Ele considera o trabalho como um meio de incentivo para que outras pessoas também se sintam acolhidas e não tenham medo de viver como gostariam.

“Eu me peguei diversas vezes me recordando do vasto período em que este mesmo corpo retratado na fotografia foi dado como tabu, sendo desdenhado. O ensaio é pelo direito de viver como eu bem quiser, é pela minha essência, pela diversidade, pela visibilidade e pelo amor. É por tudo isso e muito mais que eu exponho com muito orgulho as cicatrizes do meu corpo”

Ensaio fotográfico com Matheus Quadros (Foto: Florescer)

Ensaio fotográfico com Matheus Quadros (Foto: Florescer)

Empreender é negócio sério

O Coletivo Florescer é gerenciado pelas duas irmãs, mas, desde o início de sua criação, elas concordaram em não manter essa relação parental durante o período de trabalho. Com isso, elas acreditam que a forma de negócio do estúdio se torna muito mais organizado e produtivo – tanto para a realização dos ensaios, quanto para a divulgação do trabalho. “O Florescer não é um hobby nosso, ele é um negócio. Ele é um trabalho muito sério, pois envolve a vida e as coisas das pessoas. Tem muita responsabilidade nisso”, afirma Kellem.

Essa construção foi pensada em todos as instâncias, e, de acordo com Kellem, foi um desafio, pois elas montaram a estrutura a partir do que acreditavam estar correto, sem ter um estudo aprofundado em gestão ou administração. A escolha do local do estúdio, que fica em um ponto comercial, próximo à estação de trem, por exemplo, tem como objetivo facilitar o transporte delas para outros lugares ou a chegada dos clientes. Além disso, elas definiram o horário em que funcionaria o Coletivo Florescer, preocupando-se em cumprir rigorosamente, pois, para elas, isso é fundamental para o bom andamento do trabalho.

A divulgação dos ensaios ocorre via internet e redes sociais. Kellem e Karen realizam publicações diariamente, tanto na página do Facebook, quanto no perfil do Instagram. Outro fator importante para as jovens empreendedoras é a questão financeira. O material fotográfico, por exemplo, é caro e precisa se atualizar constantemente. Por isso, elas revelam que mantém o controle sobre isso e, conforme o retorno financeiro dos ensaios, vão investindo em equipamentos melhores.

Sobre a experiência de ser a própria chefe, Karen conta:

É um desafio. Muitas vezes, nós temos que parar, repensar e ver para onde estamos indo e como queremos fazer o nosso trabalho. Temos que pensar em tudo, pois fazemos o trabalho para nós. Então, nos dividimos em fazer a divulgação, publicar nas redes sociais, montar o cenário e buscar o cliente, por exemplo. Aqui dentro, nós não somos irmãs, somos colegas de trabalho. Nós nos cobramos igualmente e mantemos isso de forma regular e sem conflitos, sempre com muita conversa

Preocupadas em cativar o seu público-alvo e estender o trabalho para outras pessoas, elas acompanham o que outros fotógrafos estão fazendo, para entender como o mercado está se movimentando e para onde ele pode ir no futuro. Elas pretendem, também, montar um portfólio para expor em feiras alternativas, como, por exemplo, a Feira de Rua Me Gusta que ocorre em Porto Alegre e apresenta diversos atrativos alternativos para a população.

Ensaio fotográfico com Patrick Hartwig (Foto: Florescer)

Ensaio fotográfico com Patrick Hartwig (Foto: Florescer)

Mesmo que considerem o seu público fora dos padrões comuns, elas têm a visão de que podem atingir outras pessoas com o seu tipo de trabalho. “Eu acredito que a gente não perdeu público, nós apenas tivemos uma mudança de foco. Fazer o nosso trabalho como a gente faz, não quer dizer que não vamos fotografar um casamento, por exemplo. Mas agora nós vamos nos preocupar em dar o nosso olhar sobre o trabalho, ao invés de seguir o protocolo tradicional”, destaca Kellem.

Os ensaios do Coletivo Florescer são todos firmados em contrato, que deixa explícito que as fotógrafas não utilizam qualquer tipo de correção estética em suas fotos, apenas possíveis tratamento de imagens. Os orçamentos são fechados previamente em seus valores conforme a necessidade dos clientes e as fotos podem ser repassadas através de pendrive ou na “área do cliente”, localizada no site do Florescer. Assim, a pessoa pode escolher quais fotos quer que sejam tratadas e entregues, considerando a quantidade combinadas no orçamento.

Para elas, essa maneira de contratar o serviço dá mais liberdade para pensar o ensaio como um todo. Além disso, elas têm a preocupação em fazer preços sejam razoáveis, para que as pessoas se sintam à vontade para contratar o Florescer. “Nós queremos manter um preço acessível para as pessoas, pois a intenção é que todos aqueles que tenham o desejo fazer ensaios, tenham condições de fazer, seja a pessoa com mais dinheiro ou aquela que recebe menos”, revela Karen.

Sobre o futuro do Coletivo Florescer, a ideia das duas fotógrafas é de que ele possa crescer ao seu tempo. Elas entendem que a crise financeira, muitas vezes, tem atrapalhado o número de ensaios que elas gostariam de fazer, mas que isso não é um impeditivo para que elas parem de fazer com que o Florescer continue funcionando. Além disso, existe o “Plano B”, que, caso a produção não se torne mais rentável, elas arranjariam outros empregos para poder manter o Florescer Ativo.

O Coletivo é a nossa prioridade, sempre. Se precisar vamos à procura de estágio para contribuir com ele. Além disso, nós vamos nos construir e desconstruir sempre. Não necessariamente vamos ser o mesmo Florescer que somos agora em um futuro distante”, pondera Karen.

Elas também têm a intenção de, futuramente, trabalhar com a produção de vídeos. Para isso, fariam uma especialização em videomaker ou contratariam outra pessoa para realizar essa produção. “Nós pensamos e trabalhamos o presente e o futuro do Florescer para que ele possa gerar renda e ser mercadológico. Para mostrar às pessoas que a arte não é subjetiva em todos os seus aspectos. O artista é um empreendedor, ele contribui econômica e culturalmente e é possível viver da arte”, finaliza Kellem.

Para entrar em contato acesse o site do Coletivo Florescer.

Lida 842 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.