Esporte

Ciclismo de rua: do ócio aos mil quilômetros

Uma história de amor e dedicação à pedalada

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José Luís Longhi Netto com sua companheira de muitas aventuras (Foto: Arquivo pessoal)

 

Cem quilômetros pode parecer pouco, 200 é apenas o dobro. Mas e 300 mil metros debaixo de chuva? Confesso que já fiz esse percurso de carro, e não foi muito desgastante. Mas não vim escrever sobre automóveis: o papo aqui é pedal, ciclismo. E você, o que acha de pegar aquela bicicleta atirada no canto de casa, sair por aí e, depois de um tempo, conseguir percorrer até 400 quilômetros em 24 horas ininterruptas? Foi mais ou menos assim que começou a paixão de José Luís Longhi Netto pelo ciclismo de estrada.

Tudo começou há cerca de quatro anos, em um domingo quente de fevereiro em Esteio. Zé, como é chamado por amigos e familiares, estava em casa, parado, na ociosidade, e avistou a bicicleta, uma Caloi 10 antiga, atirada em um cômodo da residência. O corpo, castigado por duas hérnias de disco, oriundas dos anos de corrida e caminhada, talvez clamasse por atividade. Zé atendeu, montou na bike e saiu. Rodou 5 km. Foi o bastante para instigá-lo a querer mais.

No domingo seguinte, Zé repetiu a dose. E a atividade física foi tomando forma até virar um hobby esportivo e, inclusive, atrair outros interessados, como relata o ciclista. “Fui pegando a prática. No outro domingo, dei mais uma volta até o quartel (16º Batalhão de Infantaria Motorizado, em São Leopoldo). Comecei a me influenciar. Andava em uma bicicleta Caloi 10, antiga, que ficava atirada aqui em casa. Depois, um colega meu, do trabalho, ficou interessado e se influenciou, comprou uma bicicleta e começou a andar comigo. A partir daí o grupo foi se formando.”

 

A paixão pelo ciclismo de rua

Talvez Zé nunca tenha pensando que, de uma vontade de pedalar, pudesse surgir uma história de amor pelo esporte, que só em eventos já acumula quase 1 mil quilômetros de história e companheirismo. É a formação do grupo Pedaleiros, que iniciou a partir da disposição de sair do ócio num domingo e hoje conta com aproximadamente 14 integrantes,  participando cada vez mais dos eventos de longa distância, os chamados Audax.

 

Integrantes do grupo pedalam juntos por centenas de quilômetros

Integrantes do grupo pedalam juntos por centenas de quilômetros. Foto: Arquivo pessoal

 

O Audax é uma modalidade de ciclismo de rua em que o objetivo principal é desafiar os ciclistas a percorrer um trajeto específico de longa distância, por um tempo máximo determinado. No Brasil, as principais distâncias homologadas por percurso e tempo são 200 km (13h e 30min), 300 km (20h), 400 km (27h) e 600 km (40h).

Zé e seu grupo já participaram de pelo menos quatro desafios envolvendo essas distâncias. O número é expressivo, e traz consigo o verdadeiro propósito dos eventos, que é desafiar os limites do corpo.

Entre os Audax já realizados, foram várias as formas de desafio, conforme relata o ciclista: “Ocorreu um novo desafio, em 27 janeiro desse ano, de 300 km. Esse foi danado. A gente pegou 200 km de chuva de noite, depois de sair às 17h de Porto Alegre. Fomos até Venâncio Aires e voltamos. Tem o pessoal da organização que nos acompanha. Mas o que nos matou foi a chuva, porque ela embaça os óculos, e nós percorremos estradas com descampado, escuridão medonha. A chance de causar acidente é forte.”

 

Um esporte para a vida

Quem vê Zé pode não acreditar em sua disposição para a pedalada. Meio século de vida, a família já criada. Quando pode, leva filhos, mulher e até o genro para as pedaladas.

Questionado sobre o cansaço, ele responde que nunca teve cãibras, mas que os últimos desafios andaram causando repuxadas nas pernas, o que trouxe mais desgastes. Sobre motivação, ele é prático:

“O ciclismo é que nem corrida. O negócio vai gerando a endorfina que te motiva a ir”.

 

Grupo Pedaleiros enfrenta desafios durante as competições, mas não perde o amor pelo esporte. (Foto: Arquivo pessoal)

Os “Pedaleiros” enfrentam desafios durante as competições, mas não perdem o amor pelo esporte. Foto: Arquivo pessoal

 

Outra fonte de motivação, segundo Zé, é a turma. “Com certeza, se eu pedalasse sozinho, não estaria mais pedalando. Por exemplo, hoje não estou muito animado pra ir (pedalar), mas daqui a pouco chega um e outro, começam a assobiar na frente de casa e ‘vamos ir, vamos ir’. Às vezes o cara não tá animado, mas eles vêm puxando e a gente vai. Temos um grupo no WhatsApp e já devem estar combinando quem vai, quem não vai.”

E foi nesse clima de “quem vai, quem não vai” que Zé se despediu, porque mais tarde teria pedalada. E assim como há quatro anos, quando, num estado de ócio, o corpo de José Luis Longhi Netto pediu por atividade, desta vez ele foi atender o chamado, tanto da vontade própria quanto dos companheiros na frente de casa.

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