Cultura

Cerveja, música e mais cerveja

Na onda das produções artesanais, decidi acompanhar o Festival da Cerveja Gaúcha de Santa Cruz do Sul

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Fotos: Pedro de Brito

Em setembro, aproveitando uma viagem à Santa Cruz do Sul, decidi conferir o Festival da Cerveja Gaúcha, organizado no Parque da Oktoberfest. Longe de ser grande conhecedor da bebida – ainda que grande apreciador -, pensei se tratar da oportunidade ideal para expandir meus horizontes cervejeiros e conhecer um pouco mais do mercado artesanal. Na página do evento no Facebook, a garantia de que mais de 30 cervejarias estariam presentes nos dois dias de festival causaram em mim um sentimento de desafio. Acreditei que, em se tratando de um festival para degustação, eu teria tempo, dinheiro e fígado para sair de lá conhecendo por cheiro cada bebida ingerida. Breve engano.

O festival, que acontece em um dos pavilhões dentro do Parque, é dividido em dois dias. A única diferença entre a noite de sexta-feira e sábado, além do horário (no sábado os portões são abertos duas horas antes, às 15h), são as atrações musicais. O som rola até 1h da madrugada, quando ocorre o encerramento. Entre as bandas convidadas, na segunda noite tocavam Graforréia Xilarmônica (representando os tempos áureos do rock gaúcho) e Dingo Bells (uma das boas novidades no cenário musical do Estado). Como chegaria na cidade na sexta à noite (e queria conferir o show da Graforréia), achei mais sensato me dirigir ao festival no sábado.

Na página do evento, os organizadores aconselhavam quem não havia comprado ingresso a não aparecer no local, pois não era certo que liberariam mais entradas devido a uma combinação com os bombeiros a respeito do público máximo do pavilhão. Como bom otimista, imediatamente ignorei o aviso e me dirigi com minha namorada ao Parque da Oktober por volta das 14h, uma hora antes de abrirem os portões. Ao chegar lá e me deparar com uma fila de desesperados já formada, descobri que as entradas estavam sendo vendidas há cerca de dois meses. Dei a maior porcentagem da culpa por eu não ter ingresso à aparente falta de divulgação, já que fiquei sabendo do evento na última hora, dividindo a porcentagem menor entre a minha desorganização e minha vontade de beber cerveja.

Após uma hora de espera, com a abertura dos portões, nos foi divulgado que liberariam apenas 50 ingressos. Imediatamente me peguei contando quantos seres vivos havia na minha frente na fila. Julguei estarmos entre os 50 felizardos e aguardei. A fila se estendia desde a entrada do pavilhão, que contava com uma área externa com bancas de comida e food trucks, até a entrada do parque. O anúncio, feito aos primeiros da fila, provavelmente não havia chegado às últimas pessoas, que aguardavam com a ansiedade inocente de quem espera algo que, embora não saiba, não receberá.

Enquanto ouvíamos as reclamações dos companheiros de fila que não teriam acesso ao evento, desembolsamos os R$ 30 de cada entrada e seguimos para a fila ao lado, formada por aqueles que foram um pouco mais organizados para garantir a entrada com antecedência. Recebemos a pulseira de acesso e a caneca do evento, marcada com as medidas de 100ml e 300ml, medidas que julguei serem as vendidas pelos cervejeiros. Munidos de nossas novas companheiras canecas, adentramos o pavilhão.

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O palco, já preparado para receber a primeira atração do dia, ficava em frente ao portão, encarando as bancas das cervejas artesanais que se acomodavam em formato de U dentro do pavilhão. Ainda que o local estivesse vazio devido ao horário – afinal de contas, quem comprara ingresso com antecedência não correria para o esperar os portões abrirem -, eu me senti no meio de uma correnteza que me puxaria para experimentar cada uma das bebidas, desfilando de banca em banca. No centro do pavilhão, um grande espaço em frente ao palco para que o público pudesse acompanhar aos shows; um caixa, para troca de dinheiro (cada R$ 1 equivalia a 1 “pila”, a moeda do evento), e algumas mesas e cadeiras espalhadas ao fundo, criando o clima de bar que parece vir incluso na aura da cerveja.

Imediatamente decidi gastar meus primeiros pilas. As bebidas eram vendidas, de fato, nas medidas indicadas nas canecas. Os 100ml variavam entre R$ 4 e R$ 6, enquanto os 300ml ficavam entre R$ 8 e R$ 12. Escolhemos iniciar por uma ordem aleatória, que não seguisse a disposição em U das bancas, o que depois se provou um erro. Ainda um tanto conservador – com meu conhecimento parco sobre cerveja e meu dinheiro mais ainda -, segui para a banca de uma cervejaria que já conhecia e investi oito pilas em 300ml para relembrar o sabor de uma Red Ale e dar início aos trabalhos.

Após algum tempo, o pavilhão começou a encher. Observando de perto de um dos galões d’água, dispostos em diferentes pontos para lavar as canecas e não misturar os sabores, identifiquei o movimento de correnteza. As pessoas formavam grupos que avançavam de banca em banca, apontando bebidas e conversando com cervejeiros. Eram tantas Ales, Pilsens, IPAs e tantos nomes terminados em Bier que eu não sabia mais do que cada um se tratava. Infelizmente, com o aumento do público, era cada vez mais difícil conversar com os produtores e compreender melhor os diferentes tipos e processos. Com o início dos shows, quase impossível.


Acompanhamos o show da Graforréia enquanto degustávamos a sexta ou sétima cerveja. Cada banca dispunha de cerca de quatro ou cinco tipos diferentes, o que logo frustrou nossas tentativas de experimentar todas. Entretanto, dentro da crescente vontade de experimentar mais – já fruto da influência do álcool em nossos organismos -, passamos por algumas que consideramos dinheiro jogado fora. Claro que, por se tratar de um evento de degustação, a ideia é conhecermos novos sabores, mas é incrível como, apesar de parecer barato, os pilas se esvaíam dos bolsos. Gentilmente, algumas bancas dispunham de uma “provinha”, cedendo alguns goles para decidirmos ou não investir em determinada bebida. Foi assim que recusei uma cerveja que me deixou alguns minutos com o gosto de chocolate na garganta e investi alguns pilas em outra que me deixou com a garganta levemente queimada – mas ao menos tirou o chocolate.

Com o aumento do público, decidimos sair para a área externa. Observar as diferentes opções de comida – destaque para os hambúrgueres e pizzas – nos deixou com fome, o que nos levou a desembolsar mais alguns pilas em um delicioso burrito que bastou para os dois. Além da praça de alimentação, a parte externa contava com estandes para quem se interessasse pela produção de cerveja, como apoio do Sebrae e aplicativos referentes ao tema. Já eram cerca de 17h e o movimento aumentava constantemente. Canecas vazias se enchiam e canecas cheias eram esvaziadas só para serem completadas novamente, e eu já sabia que, apesar de muitos apresentarem sinais claros de embriaguez, a alegria geral era verdadeira.



Com medo de meus pilas acabarem em degustações frustradas – até porque não queria trocar mais dinheiro, temendo as filas gigantescas que se formaram nos caixas –, decidi investir nas cervejas que já estava habituado. Passei novamente por mais algumas bancas e separei quatro pilas para encerrar a noite com um último gole da velha Red Ale. Acabei deixando cinco, já que a última coisa que eu queria, já cansado e sob o efeito do álcool acumulado de todas as cervejas experimentadas – descobri que é preciso ser forte para passar por todas as bancas -, era voltar ao caixa para trocar um mísero pila por real. O cervejeiro da banca agradeceu o último pila com um pequeno soco de cumprimento – talvez a ideia fosse um “high five”, mas ele estava com o pulso imobilizado – e encheu mais uns mls da caneca.

Voltei para casa derrotado pelas bancas não visitadas, mas feliz. Não sei se por efeito do álcool, das novas descobertas, do bom show assistido, do burrito apimentado ou ainda pelo simples fato de ter conseguido ingresso (odeio filas). Ainda que seja um evento satisfatório para os amantes da cerveja desprovidos de conhecimento, como eu, o festival se torna ainda mais obrigatório aos que conhecem o que estão bebendo. Bebidas à parte, uma frase proferida dias depois por Frank Jorge, à frente da Graforréia Xilarmônica, define a experiência: “Fazia tempo que não me divertia tanto.”

Eventos engatinham no país, seguindo os passos dos grandes

O público máximo permitido no pavilhão do Festival da Cerveja Gaúcha era de 2,1 mil. Levando em conta que cada pessoa participe de apenas uma noite, o total de 4,2 mil pessoas passa longe das 6 milhões que passeiam pela Oktoberfest de Munique, por exemplo. Claro que é uma comparação injusta, já que o evento alemão realizado em Theresienwiesen dura duas semanas, iniciando no final de setembro e encerrando na primeira semana de outubro, além de acontecer em um espaço muito maior e de projeção internacional. Tomás Aloise, 21 anos, é estudante de Engenharia Mecânica e estudou por um ano na Universidade de Munique. No tempo que morou em solo germânico, aproveitou para conhecer a festa. “Tem muito mais que cerveja”, comenta. Entre montanhas-russas, carrosséis e até mesmo corridas de cavalo, o evento tem uma proporção gigantesca.

“Tu compras uma mass, que é aquela caneca gigante de um litro de vidro. Paga uns 11 euros pro garçom e ele traz tua cerveja e leva embora o copo, como num bar”, explica. O ingresso só é cobrado no Oide Wiesn, onde estão os brinquedos e demais atrações que não envolvem cerveja. Bandas tocam músicas tradicionais e, às vezes, alguns hits, além dos schlager, definidos por Tomás como “músicas pop muito bregas”. As cervejas artesanais também não são encaradas como no Brasil, segundo ele. “Na Bavária, prezam muito pela tradição. Então não tem muitas cervejas artesanais, nem são muito populares. Na Oktober as tendas são das cervejarias antigas”, afirma. O conservadorismo alemão vê cervejas novas como intrusas. “Seria como mexer com o chimarrão deles. Sempre foi assim e o diferente não é o original.”

Outro país que conta com um festival de cerveja famoso é a Irlanda. A estudante de Letras Mariana Silveira, 21 anos, acompanhou a Oktober irlandesa, que acontece em Dublin antes da festa de Munique, em 2012. O festival também é realizado em pavilhões e dura mais de uma semana. O espaço dos food trucks também está lá. “Eles já eram bem conhecidos na Irlanda antes de aparecerem aqui no Brasil. Ficam em um espaço bem amplo, com trucks trazendo comidas de outros países”, conta. O evento irlandês não cobra ingresso: apenas o consumo é pago. “Como não cobram entrada, é preciso comprar a caneca. Eles vendem entre 500ml e 1L, além da pitcher, que é uma espécie de jarra”, lembra Mariana. A música fica por conta de bandas nacionais e internacionais – inclusive brasileiras, e é comum famílias inteiras participarem do evento, levando até as crianças.

Acostumada a participar de eventos cervejeiros – o namorado trabalha com produção de cerveja artesanal -, a estudante de Direito Laís Bianchin, 22 anos, conta que o maior do gênero em que ela esteve no Brasil foi o de Santa Cruz do Sul. Quando esteve nos Estados Unidos, Laís participou de festivais em Santa Fé e na Califórnia. “Lá fora esses eventos são mais naturalizados. A cerveja artesanal não é vista como um item de ostentação, até porque o preço do mercado de lá é muito mais em conta. Aqui, quase 70% do preço das artesanais é imposto”, pontua.

Com a maioridade alcançada aos 21 anos, o público nos eventos americanos é mais velho. “Em Santa Fé, era totalmente pirado, com cervejeiros caseiros testando receitas aleatoriamente antes de começar algum tipo de produção. Não teve nem música ao vivo, nem comida diferente. Se a gente quisesse comer, tinha um cachorro-quente de esquina”, conta Laís. “Já na Califórnia foi um pouco mais profissional. Lá, os eventos propõem uma interação maior com o público, com competição entre as pessoas para ver quem bebia mais, por exemplo”, completa. Para ela, os eventos nacionais ainda engatinham até mesmo pela novidade. “A Perro [Libre, cervejaria do namorado] acabou de completar um ano. A maioria das outras cervejarias não tem cinco anos ainda”, explica.

Apesar do recente surgimento, os eventos cervejeiros encontram apoio no crescimento do mercado no Brasil. Seguindo a linha dos já tradicionais festivais de outros países, eles podem mirar, no horizonte, o mesmo sucesso. Talvez até alcançar, um dia, o desejo expresso na página do evento do Festival da Cerveja Gaúcha: “Sirvam nossas cervejas de modelo a toda Terra!”. Amém.

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