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CEO Fórum 2017: empreendimento como solução da crise econômica

Com viés renascentista, evento fica marcado pela contradição de discursos

Kalleb França e Laíse Feijó

Teatro lotado de nomes conhecidos do cenário empresarial e econômico de todo o país. Provavelmente, um cenário de um espetáculo qualquer, porém a plateia de mais de 1.200 pessoas reunidas no teatro do Bourbon Country na tarde desta terça-feira (27), para participar do CEO Fórum 2017, buscava compreender os movimentos socioeconômicos do mundo e a partir deles repensar o Brasil. A temática, inspirada na época do renascentismo, remonta a necessidade de reinvenção de métodos e processos de governos e empresas para que a crise financeira seja contornada através da inovação.

O evento reuniu palestrantes de diversas vertentes, entre eles o diplomata, cientista social e professor da universidade de Columbia, Marcos Troyjo,  o CEO da Big Data Gustavo Ioschpe, o CEO da Holding da Azul Linhas Aéreas, José Mário Caprioli e o economista e ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco.

Abrindo as falas do Fórum, Marcos Troyjo falou basicamente sobre vocação e como esse conceito influencia no sucesso de uma empresa. De forma didática e ao mesmo tempo descontraída, o diplomata tratou talento como a matéria prima mais importante para o sucesso de um empreendimento. Com base nisso, trouxe exemplos de empresas e países que tiveram que mudar a forma de trabalho para se manterem relevantes.

“Todo mundo aqui conhece a Samsung, a empresa que vende mais smartphones do mundo. Mas pouca gente sabe o que significa o nome dessa empresa. Traduzido do coreano, quer dizer três estrelas, o que remete ao início do empreendimento que atuava em três nichos principais: exportação de frutas, de frutos do mar e de perucas. Com o tempo e com as mudanças no cenário econômico, a Samsung conseguiu fazer uma dinâmica de autodestruição criativa para se manter em destaque”, conta.

Troyjo destacou que esta estratégia é muito importante no meio empresarial e econômico, pois ela redireciona a vocação de uma empresa sem ter que mudar essa máxima de ser o melhor em algo. Citou o exemplo de uma empresa que fabricava canetas de luxo e que teve  de mudar sua estratégia com a grande queda nas suas vendas. “A empresa entendeu que sua vocação era oferecer serviços de luxo e não fabricar canetas. É essa dinâmica de autodestruição construtiva que muitas vezes salva empreendimentos e até mesmo países. Cem nos atrás a Argentina detinha uma das maiores rendas per captas em nível mundial exportando carne, couro e trigo. O país, porém, não se reinventou e hoje é relativamente pobre. Antes eu usei o exemplo da Samsung, mas seu país de origem, a Coréia do Sul, pode ser utilizado como um exemplo contrário à Argentina. O país se reinventou, redirecionou suas competências e recursos e hoje tem uma economia bastante desenvolvida”, pontua.

Big Data: a inovação através de dados

O economista Gustavo Ioschpe, CEO da Big Data, trouxe para o Fórum uma reflexão sobre uma nova forma de inovar: através do uso de dados. A empresa em que atua funciona fazendo cruzamento de um montante enorme de dados que saem de um banco próprio e dos registros dos clientes. Através destas informações, estratégias são formuladas para solucionar alguns problemas de logística pontuais dentro de cada ambiente específico.

“Por muito tempo eu escrevi para a Veja, tinha participações na Globo, falava bastante sobre educação, e há pouco menos de cinco anos eu tive uma mudança um pouco radical de vida. Decidi parar de estudar as causas pelas quais o Brasil não dava certo e me aventurar em fazer alguma coisa para ele melhorar. Daí surgiu a Big Data, uma empresa que trabalha com a ideia de analisar muitos dados para gerar respostas”, conta Ioschpe.

A Big Data trabalha com cerca de 17 mil variáveis e dados de todas as áreas possíveis, para conseguir trazer para dentro de uma análise quantitativa todo tipo de fenômeno que é potencialmente interessante. Dentre as áreas de análise, Gustavo citou como exemplo os fatores renda, trabalho, religião, votação, clima, redes sociais, dentre inúmeros outros. Ele destaca que a empresa não é especialista em algum setor, mas que gosta de trabalhar com desafios diferentes.

“Costumamos brincar que Big Data é igual sexo na adolescência: todo mundo fala, pouca gente faz e todos gostariam de fazer e saber exatamente o que é. Até pela área ser muito nova, não existe uma definição em livro didático ou aceita do que é Big Data. Para mim é uma junção de duas coisas: uma quantidade de dados muito grande para se colocar no Excel e Machine Learning, que são os algoritmos que aprendem sozinhos a partir de novos dados”, esclarece.

Ioschpe trouxe o exemplo do trabalho realizado dentro de algumas empresas clientes e ressaltou o quanto a tecnologia é aliada neste processo. Basicamente, o Big Data é um recurso utilizado no auxílio à outras empresas através de estratégias desenvolvidas com base em dados atuais e pertinentes, aplicadas à realidade do negócio. A eficácia, segundo o CEO, é grande e o setor tende a crescer bastante no país como forma de alternativa para driblar a crise e diminuir gastos desnecessários.

Sobre o trabalho dentro da sua empresa, Gustavo Ioschpe destaca que uma estratégia da Big Data é sempre revezar as tarefas e nunca deixar um funcionário muito tempo na mesma função para que seu rendimento seja maior. Além disso, diz que incentiva esses funcionários a aprenderem com seus erros.

 

Gustavo Ioshpe apresentou o trabalho da Big Data e falou sobre a importância de se trabalhar com dados (Foto: Kalleb França/Beta Redação)

 

CEO da Holding da Azul Linhas Aéreas

José Mário Caprioli, CEO da Holding da Azul Linhas Aéreas, baseou sua palestra na história de como  construiu sua empresa. Desde o princípio quando comprou seu primeiro avião, até o momento em que comprou a TAP – maior empresa aérea portuguesa -, revelou desafios e momentos complicados que viveu. Se ateve em expor os números desse mercado, que para grande parte das pessoas é altamente lucrativo, porém a realidade é que, segundo ele, a margem de lucro em média gira em torno de 0,17%. Caprioli comentou ainda que todos os passos que a empresa tomou em busca de sociedade visaram abrir o capital da companhia, e que na maioria das vezes foram taxados como passos perigosos por especialistas em economia. Comprar a gigante TAP em um momento de crise por exemplo, foi visto como algo extremamente arriscado, mas segundo ele não fosse a compra dessa empresa, não haveria como reverter outros negócios que não deram certo. Portanto salientou que inovar em momentos de crise pode se tornar uma forma de lidar com ela e resolver os problemas que podem surgir ao longo do percurso.

Além disso, o CEO destacou que sempre busca trabalhar com os melhores. “Muitos empresários tem medo de admitir os melhores em suas áreas, deixam o ego falar mais alto pois não querem ter suas fraquezas expostas ou tem receio de perderem seus postos de liderança. Eu acho que incentivar os funcionários e trabalhar para seu crescimento é fundamental para o sucesso da empresa também”, finalizou.

 

José Mário Caprioli, CEO da Holding da Azul Linhas Aéreas, salientou que a inovação pode ser uma saída para superar a crise (Foto: Laíse Feijó/Beta Redação)

 

As perspectivas econômicas

Gustavo Franco, economista que teve participação ativa na formulação, operacionalização e administração do Plano Real, começou sua palestra de forma simples e direta. Trazendo números da economia brasileira dos anos 1930 até os dias de hoje, traçando assim um panorama amplo e apresentando alguns problemas e soluções que foram surgindo durante os anos. O economista revelou alguns dos segredos utilizados por ele e sua equipe para contornar problemas que ele denominou de três demônios da economia: isolacionismo, inflacionismo e seletivismo. O apontamento de Franco mostra que a economia atual retornou ao que era antes do Plano Real ser criado e que os três demônios outrora fortemente combatidos com a criação de mecanismos econômicos e adormecidos por conta da austeridade adotada, foram despertados por políticas econômicas diferentes adoradas a partir do ano de 2012.

 

O economista Gustavo Franco revelou alguns segredos que ele e sua equipe utilizaram para controlar a economia nos tempos do Plano Real (Foto: Laíse Feijó/Beta Redação)

 

Franco garante, que mesmo que embora dois desses demônios tenham sidos acordados -isolacionismo e inflacionismo-, a inflação que foi controlada, segundo ele, pela modificação do controle da Casa da Moeda e do Banco Central que eram cargos políticos. O ex-presidente do Banco Central falou também sobre o atual momento político e econômico, mostrando que o cenário é preocupante, o que para a maioria das pessoas presentes no CEO Fórum 2017, pode não parecer tão motivador. Mesmo assim, buscou focar naquilo que pode ser feito para resolver os problemas, e de certa forma tranquilizou a maioria da plateia quando disse que a atual equipe econômica, é formada por pessoas que não estão fixadas em interesses partidários, e que isso é muito parecido com o que foi feito em 1993 no governo Itamar Franco, quando uma “tropa de elite econômica” foi chamada para resolver os problemas, equipe essa da qual ele mesmo era peça fundamental.

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