Cultura

“Central” retrata através das câmeras a realidade do maior presídio do País

Documentário é o novo projeto da fotógrafa e jornalista Tatiana Seger

Superlotação, caos e uso de drogas são alguns dos problemas existentes no Presídio Central, de Porto Alegre. Para retratar e entender a situação da crise do sistema carcerário, a fotógrafa e jornalista Tatiana Seger dirigiu o filme Central – O poder das facções no maior presídio do Brasil.

Lançado em 30 de março, o filme é baseado no curta-metragem O Poder Entre as Grades, lançado em 2014, também pela diretora. Ambos foram inspirados no livro Falange Gaúcha – A História do Crime Organizado no RS , publicado em 2008, pelo jornalista e codiretor do documentário Renato Dornelles

Segundo a diretora, essa amizade entre os dois jornalistas já existe há 30 anos e já realizaram muitas coberturas sobre motins e pautas de polícia. “Sou uma apaixonada por essa área”, disse.

Um dos destaques do filme são as cenas gravadas pelos próprios presos nas galerias, as quais somente eles têm acesso. Para a diretora, não teria como falar sobre o Central sem mostrar essa área que representa 80% do lugar. A partir daí, começaram negociações com o juíz, que logo liberou as gravações. Logo após, com a direção, que inicialmente não autorizou. “Nossa intenção era pelo menos falar com as lideranças das facções, que coordenam essas galerias. Eles conversam com a direção do presídio uma vez por mês e fazem reivindicações”, explicou.

Após três meses de negociações, conseguiram autorização para conversar com os presos. Conforme a diretora, a equipe se reuniu com líderes de cinco facções, os Bala na Cara, Manos, Abertos, Farrapos e Conceição. Nenhum queria dar entrevista. Em uma dessas reuniões, a fim de convencê-los, a diretora justificou que queria mostrar para os Direitos Humanos como os detentos estavam sofrendo, que a intenção era denunciar. Porém, ela ficou surpresa com a resposta de um dos líderes de facção que reclamou da exposição, pois com a denúncia não colocariam mais pessoas lá.

“Não tinha me caído a ficha que, para a liderança, quanto mais gente melhor. Nunca ninguém tinha me falado isso. Comecei a chorar, de raiva comigo mesma, eu não tinha entendido nada, me senti uma idiota. Eles não querem que denuncie. Não é o que o preso comum diz, mas para os chefes das facções, quanto mais gente melhor”, relatou.

Ela revelou que até mesmo o codiretor Renato Dornelles, que cobre pauta de polícia há 30 anos, não tinha conhecimento de todas as coisas e de quanto custa para os familiares a permanência de cada preso lá dentro. Segundo ela, cerca de R$ 1 mil por mês. “Existe esse silêncio, porque o negócio lá dentro é muito lucrativo, eles não querem chamar atenção da sociedade”, relatou.

Em relação a questão do tráfico de drogas, a conclusão, por parte da diretora, é do aumento da criminalidade. Ela afirma que a maioria das drogas, armas e telefones que ingressam no Central são através de funcionários e somente uma pequena parte pelos familiares nas visitas. “Hoje é mais do que certo que se não houvessem drogas, o presídio explodiria”, observou.

Ao final do filme, um depoimento de um homem que diz “sou usuário há 14 anos, mas quando sair do presídio vou parar”, é considerado por ela um dos mais marcantes. “O preso pode entrar de uma forma, mas vai sair pior, vai sair com muita dívida. Vai ter que cumprir funções aqui fora que nem imaginava. É um sistema doente, é perverso demais. E quem está organizando isso é o Estado e a sociedade”, opinou.

Tatiana destaca o respeito que recebeu dentro do Central. “Existe uma ética, um estatuto quase implícito de que não pode agredir, tratar mal, nem olhar muito para uma mulher. Há respeito absoluto pela mulher lá dentro. São elas que trazem um pouco de conforto para eles”, disse. Por outro lado, impressionou-se com a homofobia, pois eles não aceitam homossexualidade. Por esse motivo, foi montada uma galeria para os travestis. “Lá eles estão mais tranquilos, mais protegidos. A maioria dos presídios do Brasil não tem essa separação e esse é um ponto muito positivo”, avaliou.

O jornalista David Coimbra indica o filme para “todo brasileiro que se importa minimamente com o que ocorre a sua volta”. Em coluna escrita para o jornal Zero Hora, ele afirma que o grande mérito de Central não é contar uma história de presídio, é explicar o que está acontecendo na sociedade gaúcha, como está acontecendo e, sobretudo, por que está acontecendo. “Central talvez seja o mais importante filme já feito no Rio Grande do Sul em todos os tempos”, opinou.

Para a diretora, tudo aquilo que ela queria saber sobre o presídio antes de fazer o filme, acabou sendo mostrado. A função social que o filme está atingindo é algo muito importante. Relatou que desde a finalização do filme, no final de 2015, ela vai pelo menos uma vez por semana na Fase, em Porto Alegre, para mostrá-lo aos menores infratores e discutir com eles. “Tem sido bacana e tenho visto que tem mudado. Acho que pelo 50% dos menores infratores já viram o filme. É um diferencial para mudar a percepção deles, porque antes o grande sonho era ir para o presídio, ‘ser grandão’, porém, mostrando as condições que eles vivem lá, os guris ficam meio apavorados”, contou.

Em breve será produzida uma série de tv, Retratos do Cárcere, dirigida pelos mesmos diretores, filmada pela Panda Filmes e financiada pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). A série, que deve estrear até o fim de 2018, vai abordar assuntos como ressocialização, o início das facções (PCC e Comando Vermelho), as mães e companheiras de presos e também sobre a economia toda que gera em torno do presídio. De acordo com a diretora, a ideia é mostrar a situação carcerária no país. Serão 13 capítulos de 26 minutos cada, filmados em vários estados e com início dentro de um ou dois meses.

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