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Catraca Livre perde 400 mil seguidores após postagens polêmicas no Facebook

Internautas criticam a postura do portal diante da tragédia com o avião da Chapecoense

Horas após a divulgação da notícia sobre a queda do avião que levava a equipe da Chapecoense para a disputa da final da Copa Sul-Americana, praticamente todos os portais do Brasil davam destaque para a tragédia, com informações sobre o resgate de sobreviventes e reconstituição dos fatos ocorridos na região de Rio Negro, na Colômbia. Contrariando esta tendência, o portal Catraca Livre, conhecido por fazer um jornalismo mais independente e pautado em questões culturais e de serviço, optou por postar em seu Facebook um material diferenciado. Abordando acidentes aéreos e vítimas de fatalidades, os posts desagradaram internautas e renderam ao portal uma chuva de críticas nesta terça-feira (29).

A polêmica começou quando o Catraca postou, em seu perfil no Facebook, uma matéria com dicas para quem tem medo de viajar de avião. Em seguida, outro post, que revelava mitos e curiosidades sobre acidentes aéreos. Minutos depois, um vídeo, mostrando um acidente de avião. Por fim, o site publicou uma matéria com o título: “10 fotos de pessoas em seu último dia de vida”. As publicações mencionavam diretamente a tragédia ocorrida com o voo da Chapecoense. Imediatamente, a internet reagiu de forma bastante negativa. O termo “Catraca Livre” chegou a figurar nos trending topics do Twitter durante toda a manhã, em referência aos posts.

 

A postagem que gerou mais repercussão negativa foi a que mostrava fotos dos jogadores da Chapecoense antes da decolagem do avião que se acidentou. Foto: Reprodução/Facebook

A postagem que gerou mais repercussão negativa foi a que mostrava fotos dos jogadores da Chapecoense antes da decolagem do avião que se acidentou. Foto: Reprodução/Facebook

 

“Faltou senso de oportunidade, o momento não era apropriado para esse tipo de conteúdo e revoltou muitos leitores. A página poderia abordar futuramente o assunto, levando para um lado diferente. A abordagem, no dia da tragédia, foi um erro, acabou tocando o sentimento de milhares de pessoas. Todos os assuntos tratados nas mídias digitais podem ser entendidos ou levados para rumos diferentes, é preciso ter cautela e avaliação antes da publicação, imaginar os caminhos que aquele conteúdo poderá causar”, explica Ricardo Celso, webmaster, webdesigner e social media, responsável pelos perfis de diversos artistas e empresas gaúchas nas redes sociais.

No início da manhã de terça, a fanpage do Catraca Livre no Facebook tinha cerca de 8,3 milhões de seguidores. Às 20h20, o site aparecia com 7.937.670 seguidores. As informações são do portal Quintly, que analisa, em tempo real, estatísticas de páginas do Facebook. Na rede social diversos contadores automáticos foram compartilhados para acompanhar o decréscimo do Catraca Livre. É possível acompanhar também a queda no número de seguidores através do portal da própria Quintly. “Acredito que até o fim do dia o Catraca Livre vai perder entre 800 mil e 1 milhão de seguidores, muita gente ainda não sabe do fato. A página vai perder muitos likes, mas o pior fica com as pessoas ligadas à marca e outros conteúdos produzidos. O valor da perda é incalculável”, complementa Ricardo.

 

Publicações envolvendo outros acidentes aéreos e mitos sobre aviação foram consideradas inadequadas pelos internautas em função do momento sensível. Foto: Reprodução/Facebook

Publicações envolvendo outros acidentes aéreos e mitos sobre aviação foram consideradas inadequadas pelos internautas em função do momento sensível. Foto: Reprodução/Facebook

 

Entre as 9h54 e as 14h, o portal publicou três editoriais sobre a repercussão negativa da cobertura. No primeiro texto, o site disse considerar “relevante jornalisticamente mostrar outros aspectos da tragédia como, por exemplo, o medo de voar e os mitos”. A nota não foi bem aceita pelos internautas e o site passou a ser massacrado, inclusive recebendo críticas de artistas e jogadores de futebol. Às 14h33, o portal fez nova postagem, desta vez reconhecendo o erro: “Lamentamos que nossa abordagem tenha provocado essa dor e fosse interpretada como desrespeito. Erramos ao não sermos mais cuidadosos”. Por volta das 17h, as publicações foram apagadas do Facebook e removidas do portal, entretanto os links seguem disponíveis em uma rápida busca no Google. Às 18h48, o site publicou uma nota final, em substituição a todas as outras, com o título “Meu Erro”, no qual o jornalista Gilberto Diemenstein, criador do site, assume a culpa pelos fatos e pede desculpas.

“O Código de Ética do Jornalismo diz que o jornalista não pode divulgar informações de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente na cobertura de crimes e acidentes. Se a gente cede a essa tentação, seja por apelo comercial ou pelo apelo de audiência, estamos transformando a ética em um conceito vazio. O Catraca tem como slogan ‘comunicar para empoderar’. Que tipo de empoderamento ele estaria oferecendo com essa exposição? A ética não é algo dado, é uma coisa construída, no dia a dia. Qualquer um de nós, de forma alguma, gostaríamos que alguém próximo de nós, se estivesse em uma tragédia desta, fosse exposto como o Catraca expôs as vítimas deste acidente”, comenta Pedro Luiz Osório, jornalista, professor da Unisinos e ex-presidente da Fundação Piratini de Rádio e Televisão.

Apesar das notas e da tentativa de contornar a situação, os internautas seguiram criticando duramente a página. Em menos de 6h, durante toda a tarde desta terça-feira, o portal fez 22 publicações no Facebook, com assuntos diversos (quando o normal, em outros dias da página, é duas publicações por hora). O flood foi apontado por leitores como uma tentativa de apagar o feito da manhã, sem sucesso. Outra crítica forte foi em relação ao clickbait (termo usado para conteúdos de natureza sensacionalista ou provocativa que visam gerar tráfego e audiência), conhecido em português como “caça-clique”. Confira algumas opiniões de internautas:

 

"Catraca Livre" foi um dos termos mais comentados do dia no Twitter e no Facebook, recebendo diversas críticas de internautas. Foto: Reprodução/Facebook

“Catraca Livre” foi um dos termos mais comentados do dia no Twitter e no Facebook, recebendo diversas críticas de internautas. Foto: Reprodução/Facebook

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Comentários

Um comentário sobre “Catraca Livre perde 400 mil seguidores após postagens polêmicas no Facebook”

  1. Ricardo Celso disse:

    Muito obrigado pela menção!
    Realmente o caso é extremamente delicado e serve para refletir muito, complemento comentando:

    1º Imediatismo: causa de todos as publicações rasas, com conteúdos de cunho eu diria “sensacionalista” em alguns casos;
    2º Negação: ignoraram de forma veemente a voz dos seguidores, nas manifestações que por consequência resultaram em ódio excessivo (combustível para crise instalada);
    3º Retratação: é inacreditável para mim, mas aconteceu de novo: os argumentos para justificar tal linha editorial, se basearam num discurso “egocêntrico” e duvidoso sob o ponto de vista “cunho jornalistico”;
    4º Gestão de Mídias Sociais “Tirana”: Dimesntein , se auto proclama responsável por tudo que foi feito durante o dia, passando por cima da equipe do portal, reafirmando atributos (prêmios) num momento completamente injustificável.

    Tudo isso, associado a comoção geral das pessoas, os que já não curtem o Catraca, os “reaças” se tornou combustível “perfeito” para uma chuva de dislikes , parcerias encerradas com o portal (impacto diretamente nos negócios ), na imagem negativa, na redução com certeza relevante de alcance, engajamento e impressões nas próximas semanas, que crise, que case a ser muito analisado.

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