Cultura

Canto que inspira e ensina

Em uma manhã quente de terça-feira, há ansiedade, conversas e risos altos na porta da capela do prédio da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA). A bibliotecária chega no corredor e avisa em tom gentil: “Por favor, falem um pouco mais baixo, está dando eco na biblioteca”. Alguém pede desculpas, mas a agitação segue, desta vez, moderada. O grupo está à espera do regente Marcelo Rabello dos Santos, responsável pelo coral que logo iria ensaiar.

O maestro senta-se ao pequeno piano localizado em frente aos bancos de oração. Todos integrantes se acomodam e separam suas partituras e garrafinhas de água. Marcelo dá a primeira orientação, o aquecimento vocal. Parte do grupo se desloca para o andar de cima da capela, enquanto o restante permanece com o regente. A separação tem um propósito maior: o coral fará exercícios diferentes para auxiliar na pesquisa da mestranda Fernanda Kavaliunas.

 

Integrante do Coral UFCSPA desde julho de 2012, ano de fundação do grupo, a fonoaudióloga formada pela universidade em 2011 ingressou no programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação, com orientação da professora Dra. Mauriceia Cassol. O maestro Marcelo Rabello é o responsável pelo projeto de extensão do coral da universidade. Fernanda desenvolve sua pesquisa dentro do grupo e, devido à metodologia do trabalho, realiza avaliação de voz nos participantes que se interessarem.

“O processo consiste em análise perceptivo-auditiva e acústica da voz, em medição de tempos máximos de fonação e em análise do perfil de extensão vocal. Conduzo o aquecimento vocal de parte dos coralistas utilizando dois exercícios de trato vocal semiocluído, a fim de verificar o impacto destes sobre a voz cantada”, explica.

Os exercícios de Fernanda são feitos com o uso de recipientes com água e canudos, onde os integrantes do coral sopram o líquido e produzem sons com as cordas vocais. O objetivo dos movimentos é melhorar o desempenho vocal. Mas como saúde, ciência e cultura podem se interligar? O Coral UFCSPA parece atender a todas essas demandas.


O Coral como cultura na área da saúde

Em atividade desde março de 2012, o Coral UFCSPA conta com cerca de 80 cantores. São estudantes de graduação e pós-graduação, professores e técnico-administrativos da universidade, além de pessoas da comunidade em geral. O grupo está em constante formação, e o entusiasmo pela música é valorizado e avaliado da mesma forma que as habilidades musicais e vocais.

Para participar do coral é preciso marcar uma entrevista com o regente Marcelo Rabello, preferencialmente no início de cada semestre acadêmico. Também é solicitado que os interessados estejam pelo menos em fase universitária, mas não há limite máximo para idade. É visível a participação de senhoras na faixa dos 60 anos, dispostas a soltar a voz e espalhar a musicalidade. É uma atividade totalmente gratuita, e por isso o grupo se apresenta de forma voluntária em eventos acadêmicos e culturais.

De acordo com o regente, a carga horária de ensaios é de cinco encontros de uma hora e meia por semana, o que para ele é bastante intensa. “Não sei se tem outro coral por aí assim, mas justamente fazemos isso para abranger o maior número de pessoas possível, que é um desejo importante da instituição e, por extensão, meu também”, pontua.

Marcelo revela que procura fazer um trabalho de iniciação musical, através do repertório proposto, que embora pareça assustador para os coralistas, não é assim de fato. “As músicas são simples. Parecem difíceis, mas só são assim até que nos apropriemos delas. Ensaio as canções com o uso do piano e repito quantas vezes for necessário”, explica.

 

Foto: Dominique Nunes

Repertório das apresentações são definidos por temas. (Foto: Dominique Nunes)

Em uma universidade da área da saúde, o regente afirma que nem sempre o seu trabalho é visto de forma óbvia para os outros. “Às vezes não entendem o motivo de precisarmos de uma sala para ensaiar, ou de uma licitação de teclado, por exemplo. Tive que estudar bastante esse tipo de procedimento para explicar a importância que os instrumentos tinham para a formação do coral”, lembra.

Sobre a relevância de um coral dentro da instituição de ensino, Marcelo afirma que a música está associada a uma série de benefícios cognitivos, físicos e afetivos. “A parte afetiva está ligada ao fato de as pessoas aprenderem a conviver em grupo, por um bem comum, e realizarem juntas algo que é bonito”, observa. Para ele, do ponto de vista antropológico, o que torna o homem em ser humano são coisas como cozinhar, realizar ritos funerários, mas mais que tudo é a música, a cultura.

Para o regente, o impacto cultural que o coral causa nos participantes é o de descobertas, de saber que é possível cantar em outros idiomas. “Temos pessoas com idade de quem poderia ter cantado no colégio. Vejo um impacto pessoal, construtivo, de aspecto lúdico também”, cita. Na instituição, Marcelo acredita que o coral una pessoas de diferentes cursos e áreas, algo que dificilmente aconteceria fora dele.

Segundo o maestro, os concertos semestrais reúnem grande público e promovem a cultura por meio do repertório variado, escolhido tematicamente. O tema do concerto atual é Volta ao Mundo em 80 Minutos, executado com canções de várias partes do mundo ou que se relacionem a viagem. O cronograma do grupo prevê dois espetáculos anuais, abertos ao grande público e inseridos na programação do projeto Música na UFCSPA.

Além de conservar, continuar e divulgar a cultura através do canto coral, o coro funciona como laboratório vocal para seus coralistas, com destaque para alunos da graduação em Fonoaudiologia, que empregam medidas de saúde vocal aos participantes.

Música e paixão pelo canto

De acordo com a pesquisadora Fernanda Kavaliunas, para o curso de Fonoaudiologia o coral é um universo que permite aos alunos conhecer e explorar suas potencialidades vocais, treinar habilidades auditivas e entrar em contato com variadas características vocais reunidas em um mesmo local.

“Para desenvolverem futuramente o trabalho como terapeutas da voz é muito importante que os alunos vivenciem o máximo de experiências que proporcionem modelos para identificação de parâmetros vocais, bem como para definir quais os melhores caminhos para o tratamento e/ou o aprimoramento da voz daqueles que os procurarem. O coral é um ambiente muito rico, que deveria ser aproveitado ao máximo pelos estudantes”, ressalta.

Fernanda acredita que o Coral da UFCSPA coloca, principalmente, ao alcance do público o contato com a atividade canto coral, que por vezes é tão distante da maioria. A mestranda afirma que cada apresentação tem uma linha condutora bastante rica em detalhes que a tornam única, sendo todas elas muito especiais.

“Já cantamos músicas de todas as regiões do Brasil, que caracterizavam boa parte das individualidades que formam o povo brasileiro, músicas de trilhas de filmes, que versavam sobre a temática da paz, e neste semestre viajaremos, por meio da música, pelo mundo. Cada programa faz os participantes e os espectadores vivenciarem e se apropriarem de realidades tão distintas, envolvendo-nos emocionalmente”, destaca.

 

Coral apresentação2

Coral realiza duas apresentações semestrais. (Foto: Dominique Nunes)


A relação da nutricionista Aline Araújo com o coral iniciou somente em novembro de 2015. A motivação veio da primeira experiência com canto, ainda no ensino médio, no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Uma das apresentações da qual mais gostou de participar foi na Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase-RS), onde o coral cantou para adolescentes, principalmente meninas, que haviam cometido diversos delitos. “Foi muito bonito o trabalho, vê-las se emocionando e poder ver o quanto o canto e a arte consegue tocar a alma dessas pessoas, além de trazer esperança e carinho para o ambiente”, conta.

Aline destaca o coral pela diversidade de culturas aliada às trocas de experiência, juntamente com a possibilidade de expressar sentimentos através da música. “Percebo que o coral divulga a cultura dentro do espaço da universidade e mantém o vínculo da comunidade em geral com a instituição de ensino”, observa.

Além disso, os coralistas e a comunidade em geral têm a chance de participar de cursos de técnica vocal e teoria musical durante o verão. Cursos que, segundo Aline, são essenciais para a qualificação e o conhecimento e que auxiliam na evolução de todos, no sentido cognitivo, intelectual e cultural.

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