Política

A caminhada com os manifestantes

Do alto da janela de um prédio residencial no bairro Moinhos de Vento, uma moradora bateu panela em protesto contra a manifestação que tomava as ruas. Em resposta, ela ouviu o coro de manifestantes cantar: “Mas que palhaçada! Bate panela mas quem lava é a empregada”. A escolha do percurso da caminhada que seguiu-se ao ato em favor da presidente afastada Dilma Rousseff, na última sexta-feira, foi simples. Os manifestantes caminharam até a Avenida Goethe para ocupar o Parcão, considerado símbolo das concentrações do movimento pró-impeachment.
Horas antes, os manifestantes ocupavam a Avenida Borges de Medeiros, a Rua dos Andradas e o entorno da Esquina Democrática para ouvir o discurso de Dilma. Bandeiras partidárias, de sindicatos e de movimentos estudantis, placas em prol do feminismo, em defesa do SUS e em agradecimento ao ProUni enfeitavam a multidão que acompanhava a fala da presidente afastada.

foto: Cassiano Cardoso

foto: Cassiano Cardoso

Dilma manifestou o tempo inteiro o repúdio ao golpe, denunciando as tentativas de evitar que ela viaje pelo Brasil. A presidente também demonstrou preocupação com os benefícios sociais, que correm risco de sofrer cortes por parte do governo interino. Segundo Dilma, os direitos democráticos estão sendo cerceados aos poucos, em uma jogada política para derrubá-la do governo.
Os manifestantes interromperam a fala de Dilma ao avistar um dos símbolos do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Sul, o ex-governador Olívio Dutra. O apoio ao líder foi unânime e a gritaria foi tanta que Dilma pausou seu discurso para saudar Olívio que subia ao palco.
Outros partidos que fizeram uso da palavra não receberam o mesmo apoio. Durante manifestação do PSOL, o estudante Jonathan Moraes, de 21 anos, gritou várias vezes a palavra “oportunistas”. Jonathan reclamou das atitudes dos filiados ao PSOL, que até pouco tempo pediam eleições gerais e agora queriam “aparecer e se apoiar em manifestações que não são deles”. Para o estudante, o partido estava apenas usando o momento de mobilização do povo.
Ao sair em caminhada, uma banda dava o tom das palavras de ordem, cantadas durante a manifestação. As críticas ao governo interino de Michel Temer eram claras. Músicas como “Empurra o Temer que ele cai” e a já tradicional “Não vai ter golpe, vai ter luta” ecoavam nas avenidas tomadas por manifestantes.

Cassiano Cardoso

foto: Cassiano Cardoso

Maria Adelina, de 68 anos, cantava animadamente, próxima às meninas que tocavam na banda e gritavam “Nem recatada e nem do lar, a mulherada tá na rua pra lutar”. A aposentada, que viveu na época da ditadura, defende a manutenção do governo Dilma, apesar de qualquer problema de gestão que possa ser apresentado. “Tirar uma presidenta eleita democraticamente para deixar alguém que não tem qualquer apoio popular, além das demonstrações claras das tentativas de manipulação para frear investigações importantes, pode matar uma plantinha que recém está crescendo. A democracia ainda é uma mudinha, falta muito para virar uma árvore sólida, e precisamos defender essa árvore” pondera Adelina.

A caminhada foi pacifica e respeitosa. Ao se aproximarem de hospitais, os manifestantes pediam silêncio e passavam apenas agitando os braços, sem fazer barulho. Nas janelas, as pessoas filmavam, agitavam tecidos vermelhos e, a pedido dos manifestantes, piscavam a luz em apoio ao protesto.

Os carros, impedidos de passar pelo grande número de manifestantes, buzinavam, muitos em apoio ao ato. Alguns motoristas buzinavam no ritmo dos gritos de ordem e erguiam o punho em apoio à caminhada. Após passar pelo Parcão, três horas depois do início da caminhada na Esquina Democrática, os manifestantes começaram a se dispersar aos poucos. Mesmo com algumas provocações, como a moradora que bateu panela e a cliente de um bar que acenou e tomou um gole de champanhe, a caminhada em apoio ao retorno de Dilma Rousseff à presidência ocorreu pacificamente.

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