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Buscando nova vida, famílias migram para o interior

Trocar os grandes centros urbanos por cidades menores tornou-se uma tendência global nos últimos anos

O Brasil do final século XX foi marcado pelo êxodo rural. Milhares de famílias migraram de zonas rurais para grandes centros urbanos, principalmente, em busca de novas oportunidades e desenvolvimento econômico nas décadas de 1970, 80 e 90 . Já na segunda década do século XXI, o sentido inverso dessa migração sinaliza uma nova tendência. A troca das cidades grandes por regiões interioranas surge como uma nova alternativa de vida, não só a nível regional, mas como uma tendência global.

O Instituto Havas Worldwide, um dos maiores grupos globais de comunicação e publicidade, com sede em Paris, presente em 75 países de 5 continentes, lançou em dezembro de 2015 uma estudo que apontava 11 tendências para o ano de 2016, intitulado “11 trends for 2016”. Entre as tendências, a busca por novas alternativas de vida em cidades menores apareceu, apresentando argumentos consistentes.

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Capa do artigo “11 trends for 2016” produzido pelo Instituto Havas

A publicação leva em conta que as grandes cidades continuam crescendo. Nova York, por exemplo, cresce mais a cada dia – ainda mais em conglomerados habitacionais populares, como o Brooklyn. Porém, devido ao alto custo de vida nas grandes cidades, alguns trabalhadores passam a maior parte do tempo em busca de condições mínimas de subsistência. Alguns fatores, como mobilidade urbana, acessibilidade, habitabilidade, gestão do tempo, segurança e baixo custo de vida voltam a atenção das pessoas para lugares menores.

Como as grandes cidades estão lotadas, entupidas e caras, cidades menores, porém desenvolvidas, tornam-se uma potencial opção de vida. Para a economista Patrícia Palermo, essa migração para o interior depende de alguns fatores importantes de viabilidade econômica e social: “As pessoas não estão a procura de vilarejos sem nenhuma estrutura. Esse novo modelo de vida requer as mesmas opções de acesso e consumo das grandes cidades. Essas cidades médias, de 50, 70, 100 mil habitantes, nos dias de hoje, oferecem possibilidades de desenvolvimento e lazer. A migração do interior para as capitais que ocorria há 30 anos, ao menos no Brasil, acontecia por absoluta falta de recursos”, afirma.

Patrícia destaca que a busca pelo interior é um desdobramento de um processo inicial de vazamento das grandes cidades, que começou com o surgimento de cidades dormitórios – municípios que ficam ao entorno das capitais e formam as metrópoles. Com o desenvolvimento das microrregiões e o fortalecimento do mercado de trabalho no interior, é viável abrir mão de viver e trabalhar em grandes centros urbanos.

De acordo com os dados do IBGE, a população do Interior do Rio Grande do Sul, em 2010, era de 6,75 milhões de habitantes. Em 2016, a estimativa foi de 7,03 milhões de habitantes (aumento de 4,1%). A população da Região Metropolitana de Porto Alegre, com 31 municípios, entre cidades de grande, médio e pequeno porte, em 2010, correspondia a 3,94 milhões de habitantes. Em 2016, chegou a 4,25 milhões (aumento de 7,5%). Porto Alegre, em 2010, possuía 1,40 milhões de habitantes. Já em 2016, o Instituto aponta uma estimativa de 1,48 milhões de pessoas (aumento de 5,6%, muito semelhante ao crescimento do interior). Embora os índices de crescimento populacional na Capital e Região Metropolitana sejam superiores, os números do crescimento da população do interior indicam um aumento populacional descentralizado.

Entre os bons motivos de viver no interior estão o sossego, as amizades, o transporte, o custo de vida, uma melhor qualidade em serviços básicos como educação e segurança e o contato com a natureza.

Novos ares e uma nova etapa

O casal Daniele e Djonatan e suas filhas pequenas, Helena e Mariana, trocaram a vida em São Leopoldo por uma nova rotina. Há cerca de três semanas, estão morando em Garibaldi, na Serra Gaúcha. “O Djonatan trabalha em Carlos Barbosa há seis anos, e percorria 148 km todos os dias. Como na época não tínhamos filhos, seguimos morando em nosso apartamento em São Leopoldo”, revela Daniele.

Com o passar do tempo, o trabalho em Carlos Barbosa foi crescendo e surgiram novas oportunidades para o engenheiro mecânico. Com o nascimento das filhas, o casal começou a repensar o futuro. “O apartamento ficou pequeno, a cidade mais violenta e mesmo com a crise econômica a empresa se manteve sólida”, conta Djonatan.

 

Família reunida para um passeio no dia de folga (Foto:Arquivo pessoal)

Família reunida para um passeio no dia de folga (Foto:Arquivo pessoal)

 

A família resolveu conhecer melhor as cidades de Carlos Barbosa e Garibaldi – a segunda opção foi escolhida por oferecer mais recursos e por ter uma maior variedade de imóveis, mesmo sendo pequena. “Escolhemos um apartamento próximo a escola da Helena, onde posso resolver tudo sem utilizar o carro, já que por um período optamos por eu ficar em casa com a Mariana, adaptando as meninas a nova cidade e ao novo clima, com temperaturas mais baixas no inverno”, afirma a professora.

 

(Foto: Arquivo pessoal)

(Foto: Arquivo pessoal)

 

Djonatan, agora, está a 11 minutos de casa, não corre mais risco nas estradas e até pode almoçar em casa se quiser. A família agora sente-se tranquila com os índices baixos de violência, comparado com São Leopoldo, e aproveita os momentos de lazer em uma cidade limpa e turística, que oferece vários passeios ao ar livre com lindas paisagens e ótimos restaurantes.

“O que difere é a ausência de shoppings, cinema, fast food, grandes supermercados, além do comércio sempre fechar ao meio-dia, fechando também aos sábados e abrindo somente na segunda-feira”, destaca Daniele.

 

De volta para casa

O casal Seris e Oscar se conheceram em São Leopoldo. Ambos eram do interior, em determinado momento da vida, optaram por tentar a vida na Grande Porto Alegre. Seris, professora estadual, viveu por 13 anos em São Leopoldo, acompanhando os filhos que tinham o objetivo de trabalhar e cursar o ensino superior. Oscar, natural de Rio Pardo, permaneceu por cerca de 30 anos entre São Leopoldo e Sapucaia do Sul, trabalhando em empresas de transporte coletivo.

Ambos, apaixonados pelas coisas do campo e a vida interiorana, estavam estressados com a rotina, a falta de tempo, a violência e tudo que presenciavam no âmbito escolar e pelas ruas. Sempre que podiam, recarregavam as energias na casa dos pais de Seris, na propriedade da família, no interior de Canguçu, e depois, retornavam à loucura da cidade grande. “Sinceramente, aquilo não era o que eu queria para mim, aquele não era o meu mundo e sonhava em um dia mudar de vida”, relembra Seris.

 

Seris com sua visita surpresa (Foto: Arquivo pessoal)

Seris (direita) com sua visita surpresa (Foto: Arquivo pessoal)

 

Em um determinado momento, com a vinda da aposentadoria, a idade avançada do pai que necessitava de cuidados e a vontade de Oscar em viver a rotina do campo, o casal voltou às origens. “Aos poucos fomos nos readaptando, construindo uma morada simples e funcional, adquirindo uns animais (porcos, galinhas, cavalos, ovelhas), cultivando nossas hortaliças e nosso pomar”, conta a professora.

Lá, a vida e o contato com a natureza se fazem presente em todos os momentos. Banhos de sanga, frutas colhidas no pé, leite tirado na hora, pescarias. E com a chegada da tecnologia, não estão alienados do mundo urbano, com acesso à internet e tv a cabo. “De certa forma, somos mais livres, não nos preocupamos com o relógio. A qualidade de vida nos remoça, nos faz mais fortes, não desperdiçamos o tempo com futilidades. Essa é a minha vida, eu e meu esposo Oscar vivemos assim e aqui estamos há cinco anos”, complementa Seris.

As opções de pessoas como Daniele e Djonatan, Seris e Oscar, demonstram não apenas movimentos isolados, mas uma tendência mundial – que também é refletida no Rio Grande do Sul.

 

Oscar em frente a sua casa em harmonia com os animais (Foto: Arquivo pessoal)

Oscar em frente a sua casa em harmonia com os animais (Foto: Arquivo pessoal)

 

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