Política

Bordignon: uma carreira em montanha-russa

Uma trajetória política recheada de reconhecimento e incertezas

Popularidade e impugnações. O enredo da trajetória de Daniel Bordignon, ex-vereador, prefeito e deputado estadual, contém os dois tópicos, extremos entre si. Na política desde 1979, e colecionando uma série de cargos, Bordignon ainda é considerado por uma parcela da população o melhor prefeito da história da cidade de Gravataí.

Em 2004, o jornal Correio de Gravataí, através do Instituto de Pesquisas Index, levou aos moradores a pergunta: Quem foi o melhor administrador que a cidade teve? Na ocasião, a resposta de 54,6% das pessoas entrevistadas foi Daniel Bordignon. Em maio de 2004, veio a confirmação de algo que uma outra pesquisa, realizada em março daquele ano, já prenunciava: 92% da população gravataiense aprovavam o jeito Bordignon de reger a cidade. Naquele mês, o levantamento realizado pela Studio Pesquisas, com 300 entrevistados, apontou que o percentual de contribuintes que considerava a governança do prefeito ótima ou boa chegava a 64%.

Capa do especial feito pelo jornal Correio de Gravataí sobre a carreira de Daniel Bordignon, em 2004. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação.

Capa do especial feito pelo jornal Correio de Gravataí sobre a carreira de Daniel Bordignon, em 2004. Foto: Reprodução/Beta Redação.

Já em 2017, encontramos um ex-prefeito cuja permissão de fazer política foi recentemente retomada. Um ex-prefeito que, apesar de respirar política desde 1979, se diz incansável: “Sei que posso fazer ainda mais por Gravataí e é o que vou fazer”. Amado e odiado por muitos, Bordignon, aos 57 anos, coleciona eleições com vantagens avassaladoras e três impugnações.

 

Do interior para a política

Bordignon, à esquerda, ao lado dos irmãos Iza e Guilherme, em 1964. Foto: Arquivo Pessoal

Bordignon, à esquerda, ao lado dos irmãos, em 1964. Foto: Arquivo Pessoal

São Jorge, em 1959, ainda era um distrito da cidade de Nova Prata, a conhecida Capital Nacional do Basalto. O sol estava começando a aquecer a gelada tarde de 21 de julho quando Daniel Bordignon chegou ao mundo. De oito filhos, Daniel é o quinto. A pequena cidade serrana, localizada na Microrregião Colonial do Alto Taquari, distante 183km de Porto Alegre, via nascer um importante líder político.

Daniel Bordignon nos conta que, desde criança, sempre trabalhou na lida campeira, e que as idas à igreja da cidade deixaram de ser apenas um costume. “Aos 12 anos eu já havia lido quatro evangelhos. O catolicismo era extremamente forte na nossa casa, na nossa família. Era quase uma lei.” A ambição por leitura não se limitava ao conhecido Livro Sagrado. Bordignon explica que as inúmeras páginas devoradas da Bíblia foram apenas uma porta para o interesse pela informação. “Ao lado da minha casa tinha fábrica de papelão onde eram descartados alguns livros. Passei a ler o que encontrava.”

Aos 15 anos, ele passou a trabalhar na fábrica para ajudar na renda da família. Labutava durante o dia e estudava contabilidade à noite. Durante o expediente na indústria, Bordignon relata ter adquirido o costume de ouvir rádio. “Era nossa única fonte de notícias. Nosso único contato com o ‘mundo externo’, fora da nossa chácara.” E foi através do rádio que ele conheceu radionovelas, apaixonou-se pelo jornalismo e, principalmente, por história – curso no qual graduou-se em 1982, pela Faculdade Porto-Alegrense (FAPA).

Por falar em história, 1964 foi um ano intenso para a política e para a mídia nacional: início da ditadura militar. Evento que Bordignon também conheceu através do rádio, e por onde nasceu seu interesse pela política. “Na época eu e minha família nos identificávamos com as propostas do MDB. Éramos e sempre fomos esquerdistas. Entendíamos que os trabalhadores eram os grandes prejudicados pelo extremismo do governo.”

Após o fim do período da ditadura militar, Bordignon passou a se interessar ainda mais por política. Foi quando decidiu que era hora de colocar seus dois pés nesse universo. “Na faculdade um professor me chamou de ‘melancia’: verde por fora, vermelho por dentro (metáfora em alusão ao comunismo) – após criticar o presidente da época, João Figueiredo.” Sua militância política se iniciou pelo Partido dos Trabalhadores (PT), ao lado de outra figura política reconhecida na Região Metropolitana: Jairo Jorge. Segundo o ex-prefeito de Canoas, a relação entre os dois sempre foi de muito respeito e admiração, mesmo quando estiveram em posições divergentes. “Sempre militamos na mesma direção, porém nem sempre no mesmo grupo. Conheço Bordignon desde que ele foi eleito vereador em 1988. Sempre foi um militante idealista e determinado”, conta Jairo.

 

O segredo do sucesso

Bordignon foi eleito vereador de Gravataí em 1988. Em 1989, assumiu a presidência da Câmara de Vereadores. Participou da corrida eleitoral para prefeito em 1982, mas não se elegeu. Em 1992, ficou em 2º lugar. Foi eleito pela primeira vez em 1996. “35.359 votos”, puxa ele da memória. Quatro anos depois, Bordignon foi reeleito com um número quase duas vezes maior.

Bordignon e a família durante a passeata de sua primeira posse, em 1997. Foto: Arquivo Pessoal

Bordignon e a família durante a passeata de sua primeira posse como prefeito, em 1997. Foto: Arquivo Pessoal

Bordignon atribui a sua aprovação à alta taxa de participação popular que seu governo teria permitido. “Deixei claro que todas as prioridades de reformas seriam estabelecidas no Orçamento Participativo, a população decidiria o que seria feito. Creio que Gravataí seja uma cidade atrasada no ponto de vista econômico, então trouxe pra cá mudanças. Segurança, educação, cidadania, saúde, aumentamos a iluminação pública.” Bordignon se orgulha, também, de ter colaborado para a chegada da filial de uma das maiores montadoras automobilísticas do mundo: a General Motors.

Inauguração da General Motors, em Gravataí. Foto: Arquivo Pessoal

Inauguração da General Motors, em Gravataí. Foto: Arquivo Pessoal

Rafael Martinelli, jornalista e colunista político do Blog Seguinte, conhece Bordignon desde 1996, quando ainda era apenas um estagiário. Naquele ano, a eleição de 1996 já tinha um vencedor. “Ao ganhar a prefeitura em 1996, já no período de transição a GM começou a negociar com a prefeitura a instalação em Gravataí. O acerto, finalizado já em 97, durante seu governo, foi um marco histórico para a cidade, que cresceu em outros investimentos, população e orçamento”, explica.

“Em abril de 2016, eu e o ex-proprietário do Correio de Gravataí, Roberto Gomes, colocamos no ar o portal de notícias Seguinte. Cobrimos a eleição de 2016, anulada devido à suspensão dos direitos políticos de Bordignon, e agora a eleição suplementar, onde Rosane, esposa dele, perdeu a eleição por 4 mil votos.” Segundo Martinelli, Bordignon é “um ser iluminado“. “Com a chegada da GM, em seu governo começaram ‘anos de ouro’ na cidade, que de oitava economia do Estado, não lembro ao certo, cresceu para quarta, e hoje é terceira.” Ele continua: “Pelo PT, Bordignon fez dois governos de alta popularidade. Sempre foi um cara de contato direto com o povo. Na época do Orçamento Participativo, não faltou a nenhuma reunião nos bairros, onde era aberto o microfone para os moradores e ele mesmo respondia as perguntas”, relata.

Bordignon em fala durante a campanha de sua esposa Rosane. Foto: Arquivo Pessoal

Bordignon em fala durante a campanha de sua esposa Rosane. Foto: Arquivo Pessoal

Porém, a simpatia que possuía junto à população não se traduziu em suas relações políticas. “São raros aqueles da época, ou do decorrer de sua trajetória, que continuam ao lado dele. Rompeu com muitos que o cercavam. Algumas brigas foram traumáticas, como com Sérgio Stasinski, que tinha apelido de ‘sombra’, por estar sempre ao lado de Bordignon nas fotos, a quem Bordignon transformou primeiro em seu vice, em 2000, e depois em deputado estadual, em 2002, até ajudá-lo a ser eleito prefeito, em 2004”.

Mesmo com o que Martinelli chama de “anos dourados”, Bordignon teve também sua época de “vacas magras”. O jornalista explica:

“Em 2008, após ter a candidatura impugnada pela primeira vez, ajudou sua vice, Rita Sanco, a ser eleita com a maior votação da história de Gravataí. Mas depois também romperam, quando ele saiu do PT, em 2015, depois de não ser reeleito deputado em 2014. Em 2012, ele tinha concorrido a prefeito e foi novamente impugnado, como agora, em 2016”.

Atualmente, Daniel não milita mais pelo PT devido ao que ele chama de decadência midiática do partido. Martinelli explica que Bordignon trocou de partido, mas não de ideais. “Ele fez uma escolha pelo PDT por ser um partido de esquerda e trabalhista. Bordignon é um cara de esquerda.”

Martinelli conta que Bordignon é um político popular, e que nem mesmo as três impugnações consecutivas abalaram seu prestígio. Descreve o ex-vereador, prefeito e deputado estadual como uma figura intensa e vaidosa, mas séria. “Vive a política 24h, e seus relacionamentos estão sempre ligados a ela. Como todo ‘artista’, tem uma personalidade de difícil trato e até vaidosa. Mas é um cara sério, honesto, preocupado com as pessoas mais pobres, e que faz política desde 1982 e continua pobre como o professor estadual que é”, finaliza o jornalista.

O temido verbo

Os anos de 2008, 2012 e 2016 foram marcantes na carreira do político.  Em 2008, exatos cinco dias antes do pleito para o cargo de prefeito de Gravataí, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impugnou a candidatura de Daniel Bordignon. O motivo? Gastos considerados irregulares pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Improbidade administrativa, em termos jurídicos. Em 2013, o Tribunal de Contas da União, em instância final, anulou por unanimidade a decisão anterior, aprovou a prestação de contas do convênio e mandou devolver o valor da multa que já havia sido paga.

Bordignon se explica:

Em 2012, Bordignon teve a sua candidatura impedida pela segunda vez. O então candidato petista à prefeitura de Gravataí foi condenado em primeira instância devido a contratações emergenciais de professores e médicos, consideradas irregulares pelo STJ. A eleição de 2012 acabou sendo ganha por seu maior adversário, Marco Alba (PMDB).

No período entre a eleição de 2012 e a de 2016, Bordignon trocou de partido. Desgostoso com os rumos que o PT tomava, filiou-se ao PDT – partido fundado pelo grande ídolo de seu pai, Leonel Brizola. Em um partido sem tanta expressão no município, Bordignon conseguiu, tranquilamente, liderar a chapa para as eleições do ano passado.

Porém, as contratações emergenciais novamente o impediram de assumir a prefeitura. A condenação resultou em suspensão de cinco anos de seus direitos políticos – por isso teve seu registro de candidatura indeferido em primeira instância. Como ainda podia recorrer da decisão ao TSE, Bordignon permaneceu na corrida eleitoral, vencendo a eleição.

O candidato assumiria a prefeitura caso a corte nacional aceitasse sua defesa, o que aconteceu no dia 27 de outubro. A candidatura foi aprovada por 6 votos a 1. Porém, no final de novembro, os ministros do TSE mudaram de opinião e negaram o registro de candidatura, o que ocasionou uma nova eleição para a cidade, que ocorreu no último domingo (12), elegendo novamente Marco Alba.

Confira o vídeo que a equipe de Beta Redação produziu explicando como funciona uma impugnação:

Quando questionado sobre o futuro da cidade de Gravataí nos próximos quatro anos, Bordignon diz que teme. “Este não é um governo legítimo. O povo não reconhece. Logo, logo, muitos que votaram nele estarão contra ele. Infelizmente acho que a cidade está à deriva. É uma situação difícil para a cidade. Acho que temos condições de ganhar a próxima eleição, e iremos.” Bordignon finaliza repetindo que ainda há muito o que fazer pela cidade e confiante que o próximo pleito já tem vencedor: “Eles deixarão uma situação muito difícil para nós, mas com trabalho a gente corrige, como corrigiu lá no início.”

Confiante, Bordignon não parece se abalar com os percalços. A próxima eleição é em 2020, e, caso consiga concorrer, será um adversário duro.

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