Cultura

Boas lembranças de um fã que virou amigo

Jornalista conta como conheceu e conviveu com Iberê Camargo

A tela da vida de Iberê Camargo foi pintada com traços nem tão lineares quanto as impressas em seus quadros. Natural de Restinga Sêca, no Rio Grande do Sul, o artista não se prendeu aos paradigmas de uma pequena cidade do interior e alçou voos altos com seu pincel. Além de ter conquistado o mundo com suas obras, fez amizades e colecionou histórias interessantes. Relatos que, até hoje, emocionam aqueles que tiveram a oportunidade de conviver com ele. Uma história pitoresca, tanto quanto a vida do artista, é a do encontro entre ele e o jornalista e radialista André Oliveira.
Em 1985, o profissional caminhava pela Rua dos Andradas, no centro de Porto Alegre, quando encontrou o artista pintando a vitrine de uma loja. Vinte minutos antes, coincidentemente, o jornalista havia lido uma reportagem sobre um crime cometido por Iberê no Rio de Janeiro – quando matou um homem para defender uma mulher desconhecida, durante uma briga de casal. “Ele tinha uma mania de pintar manequins de loja. Era uma inspiração que ele tinha”, revela. A mania virou uma de suas obras mais renomadas: Manequins da Rua da Praia, que ganhou o prêmio Golfinho de Ouro, do Governo do Estado do Rio de Janeiro. André não fazia ideia que o encontro com o artista, ali mesmo, se dava no exato instante da gênese da obra. O radialista conta que, imediatamente, reconheceu o gravurista por ser um admirador de seu trabalho, e não pensou duas vezes em falar: “Mestre Iberê”.  No momento do encontro,  o jornalista segurou os papéis e as canetas que o restinguense estava carregando e se deteve em todos os detalhes de uma conversa que durou cerca de uma hora. Segundo o profissional, a conversa permeou o campo artístico. “Fui caminhando com ele uns quarenta minutos. Ali começou nossa amizade”, conta. Lembra-se que o artista tinha cacoetes, como o ato de passar a língua nos lábios.
Iberê e André moravam perto um do outro; apenas três quadras separavam as duas casas. “Na Rua da Praia comecei a me encontrar com Iberê Camargo. Três vezes por semana nos reuníamos na Redenção, no Centro, na casa dele e no ateliê”, diz. O jornalista destaca que o gravurista era muito simples e que tentava, a todo custo, ensiná-lo a pintar. Em um dos encontros, até uma revelação íntima foi feita pelo artista: Iberê não se dava muito bem com a sogra. “Em alguns quadros ele até dizia: ‘esse aqui pintei pensando na velha'”, revela entre risos. Em 1987, André foi transferido para Santa Maria e, antes de ir embora, foi se despedir do seu amigo. O diálogo, a seguir, até hoje, é presente na mente do radialista.
André: “Mestre, estou indo embora de Porto Alegre. Fui transferido para Santa Maria”.
Iberê: “Abre aquela gaveta ali. Escolhe aí umas umas litografias e pega esse óleo pra ti”.
Entre as obras, havia dez litografias e um óleo de 30cm x 40cm. “Eram maravilhosas!”, exclama. Depois de alguns anos, André foi transferido para Florianópolis e deixou as obras em uma galeria de Santa Maria, onde foram vendidas por cerca de R$ 20 mil. Até hoje, o jornalista se arrepende de não ter guardado as obras que hoje valeriam muito dinheiro. “Guardo muita lembrança dele. Seguidamente procuro alguma coisa sobre ele e sempre lembro dos momentos que tivemos ou na Redenção ou no centro de Porto Alegre”, recorda.  André faz questão de, a todo o momento, mostrar a simplicidade de Iberê como ser humano. Ao contar alguns detalhes da convivência, lembra que o artista não gostava de ser comparado a Leonel Brizola; ambos tinham sobrancelhas parecidas e gostavam muito de café.
Jornalista, até hoje, pesquisa sobre obras criadas pelo amigo. Kalleb França / Beta Redação

Jornalista, até hoje, pesquisa na internet sobre obras realizadas pelo amigo. Foto: Kalleb França / Beta Redação

Fundação traz ações em homenagem ao artista
A história do pintor inspirou a criação da Fundação Iberê Camargo (FIC), em Porto Alegre. As obras do artista foram cuidadas por Maria Coussirat Camargo, com quem  Iberê foi casado por mais de 50 anos. As pinturas podem ser vistas diariamente no prédio que fica na Avenida Padre Cacique, 2000. O local abre sextas e sábados das 13h às 18h, inclusive em feriados. Desde o dia 18 de maio, o local recebe duas exposições que reúnem obras do artistas vistas sob um novo prisma.  A primeira, que ocupa o térreo e o primeiro andar do prédio, faz uma relação com a crise mundial do capitalismo e se propõe, de certa forma, a contar a história futura por meio de esculturas e pinturas.  A mostra Depois do Fim leva a uma reflexão importante sobre a maneira como o fim está se aproximando a cada dia. A outra, intitulada No Drama, traz obras que tenham relação com essa temática. Ambas as exposições resgatam obras de Iberê Camargo

Além das instalações com obras do artista, a FIC recebe outros eventos, como o que ocorrerá neste sábado (03). Sábados no Iberê levará o público a participar do seminário A forma das coisas por vir esferas da insurreição, com Suely Rolnik. A atividade inicia às 14h e vai até as 16h. Segundo as monitoras da Fundação Iberê Camargo, o seminário já está com as vagas todas preenchidas, mas há a possibilidade de ir e entrar em uma lista de espera. Após o seminário, começa o Cine Iberê. O filme exibido será Branco sai, preto fica, de Adirley Queiroz. Ambos os eventos têm entrada franca.

Lida 583 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.