Cultura

Beta Entrevista: Rock de Calcinha

Banda formada em 2005 já é reconhecida na noite porto-alegrense, mas ainda enfrenta assédio e preconceito

 

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Da esquerda para direita: Rafaela, Lili, Betina e Bruna. (Foto: Cris Santoro)

A banda surgiu em 2005, quase como brincadeira. Hoje, a Rock de Calcinha, formada por Lili Ennes no vocal, Betina Nilsson na guitarra, Bruna Rodrigues na bateria e Rafaela Masoni no baixo, quebra tudo em casas noturnas porto-alegrenses. O grupo tem mais uma coisa em comum além da música: todas são da área da Comunicação Social; Lili estuda Publicidade, Betina é formada em Publicidade, Rafaela é jornalista e Bruna é relações públicas. A seguir, a Rock de Calcinha fala sobre as agruras e felicidades de ser uma banda de rock. Confira abaixo a entrevista completa:

Como surgiu o nome da banda?

Lili: O nome tem uma história antiga. Ainda estávamos na escola e tínhamos um trabalho de literatura para fazer, no qual precisávamos realizar um filme. Na história desse filme havia uma banda, e, para ficar bem claro que era algo só de meninas, colocamos “Rock de Calcinha”. Mesmo depois do filme a história da banda continuou, e a gente foi convidada para participar de um festival. Daí pensamos: “por que não ir?”. Fomos, e desde então não paramos mais.

Bruna: A primeira formação era bem experimental, chegou a ter sete componentes. Mas quando conhecemos a Betina e a Rafa, já na faculdade, conseguimos encontrar interesses mais homogêneos, que combinavam mais com a música que a gente queria compor, e selecionar covers de artistas que combinavam mais com a gente e que todas escutavam muito.

Vocês pretendem manter esse formato, apenas com componentes mulheres?

Bruna: O fato de a banda ser formada apenas por mulheres é algo que vem lá do início, mas a gente nunca se sentiu obrigada a ser uma banda só de meninas, tanto que, quando a Betina foi viajar, ficou oito meses fora, nós tocamos com um guitarrista homem. Faz parte da essência da banda ser feminina, mas a gente adora tocar com outros gêneros, tanto que todas nós temos outros projetos que são mistos. Então, a gente sabe que por ser uma banda só de meninas podemos até estar inspirando outras pessoas, mas na verdade a gente gosta de tocar com todas as pessoas.

Rafaela: A gente não quer ter o rótulo de ser uma banda de mulheres, não é isso que nos caracteriza. A nossa marca não é ser uma banda de mulheres, é ser uma banda de rock.

Betina: Mas é inegável que mulheres têm mais espaço entre mulheres. Pelo menos para mim, que já tocava há bastante tempo, as oportunidades foram muito mais fortes com as gurias. Eu acho que nós encontramos uma compreensão mútua e temos uma sintonia que faz com que a gente consiga evoluir juntas. Temos uma afinidade muito grande.

Bruna: Eu acho que é mais fácil a gente começar a carreira na música se unindo. Através da banda a gente ganhou voz em outros espaços.

Quais são os planos da banda atualmente?

Lili: Na verdade, a gente tenta equilibrar o projeto cover, que é uma demanda das casas que nós tocamos, porque as pessoas querem dançar, querem cantar aquelas músicas que elas conhecem, mas ao mesmo tempo nós temos as nossas músicas autorais. Então, a gente tenta equalizar as duas coisas. É claro que a gente vai mais devagar com o nosso som, mas a gente quer compor mais músicas, gravar as que a gente já tem e fazer com que cada vez mais as pessoas nos reconheçam pelo nosso som próprio, e não pelos artistas que a gente toca.

É viável viver de música pra vocês?

Lili: Atualmente é inviável. Até porque, se a gente fosse viver só da banda, nós teríamos que mudar a nossa relação com ela, torná-la mais profissional. Teve momentos em que precisamos fazer muitos shows, e isso acabou tirando um pouco do prazer de tocar. É claro que é muito bom estar no palco, mas quando virou uma coisa mais trabalho, acabou tirando, para nós, no momento em que estávamos, um pouco do prazer. Então, atualmente não é foco viver da banda, até porque temos outros trabalhos e outros projetos também com música. Acredito que seria viável, mas não é o objetivo no momento.

Por ser uma banda só de mulheres, vocês já foram assediadas? Vocês veem muito assédio na noite?

Lili: Nossa, vemos assédio diariamente, por ser uma banda só de mulheres, por as pessoas acharem o nome engraçado. Já nos fizeram convite para tocar em um cruzeiro pornô por causa do nome da banda, por exemplo. Sendo que essas pessoas nunca tinha ouvido a gente tocar, e nessa época ainda estávamos no colégio, então não tinha nem idade para estar em um lugar desses. Vivemos esse preconceito diariamente. Se vamos tocar em bar novo em que as pessoas não nos conhecem, tem aquele ar de ‘ah, gurias, vamos ver se tocam mesmo’, parece que, por ser mulher, nossa habilidade é inferior.

Rafaela: Quando vamos em um bar novo a gente precisa conquistar não só o público, mas todo o staff da casa. Na passagem de som, por exemplo, às vezes a gente tem que se impor de uma forma que não gostaríamos, até ser um pouco rude, para sermos levadas a sério. Eles acham que não sabemos do que estamos falando.

Betina: Até em lojas de instrumentos, por exemplo. Eu fui com meu namorado comprar coisas para a guitarra e o vendedor se dirigiu diretamente a ele, que não toca. Daí eu tive que chamar a atenção dele e mostrar que eu realmente sabia do que estava falando para ser bem atendida.

Lili: Uma vez aconteceu uma situação bem chata comigo e com a Rafa. A gente tinha acabado de sair de um show, estávamos bem cansadas, tínhamos dado tudo o que a gente tinha naquele show. Dois caras estrangeiros vieram falar para nós, em portunhol, e nos disseram “a gente viu uma banda de meninas e pensamos ‘vamos rir, pelo menos elas são gostosas’, mas depois a gente ouviu o som de vocês, muito legal. Vocês têm que ir tocar na Califórnia”. Esses foram os homens que nos falaram. Quantos não falam para nós, mas pensam nisso?

Bruna: Nós partimos do descrédito. O público em geral ainda não está preparado para lidar com a diversidade. Muitas vezes as pessoas querem dar um elogio e falam “tu toca tão bem quanto um homem”. Mas por a gente representar uma parcela menor que toca, porque a gente sabe que tem menos mulheres que tocam, principalmente no rock,  sabemos que acabamos encorajando outras mulheres.

Rafaela: Mas para mim é muito claro, e acho que para as meninas também, que o fato de ter menos mulheres no rock e menos musicistas do que músicos, é resultado de uma construção social, porque os meninos são incentivados desde cedo a tocar, a ter uma bateria, a ter uma guitarra, enquanto as meninas são estimuladas a fazer balé ou patinação, por exemplo. Quantas vezes uma menina ganha um kit de maquiagem e o menino ganha um instrumento musical, por exemplo.

 

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Comentários

Um comentário sobre “Beta Entrevista: Rock de Calcinha”

  1. Rafael Santos disse:

    Baita banda! Invistam com coragem nas autorais, gurias!

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