Cultura

CRÍTICA: À beira da normalidade

A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muitas vezes coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la”. Milan Kundera

 

“Não venho no cinema para ver vida real, se quisesse ficava em casa.” Pois é, o cotidiano incomoda. Nas telas, então, nem se fala. Fato é que Boyhood (aquele filme que levou 12 anos para ser finalizado, lembra?), mesmo indicado ao Oscar 2015, ganhou apenas como resultado (fora o Oscar de Melhor Atriz da Patricia Arquette, a eterna Medium, MERECIDO!) bocejos por parte da plateia e críticas sobre a linearidade do longa. Pensando em séries, não nos afastamos muito da mesma lógica. O retorno (olha a quantidade de série inspiradas em quadrinhos aí) de super-heróis, fantasmas, vampiros e enredos mirabolantes continuam a reproduzir a mesma ideia de vida extraordinária. Agora você vai lembrar de algum seriado hipster da Netflix e dizer que a minha linha de pensamento está errada. Mas não, ela não está. Mesmo as séries da Netflix que tentam reproduzir a vida moderna se perdem nos estereótipos de gênero, beleza e do ideal nerd, leia-se aqui Love.

Nada contra (não se preocupe, não vai vir nenhuma frase preconceituosa do tipo “eu até tenho um amigo que curte”). E é, tipo, nada contra mesmo. Adoro a ideia de mutantes, espíritos, extraterrestre, zumbis. Mentira, detesto zumbis. Médicos salvando vidas, teorias da conspiração, illuminatis e tudo mais. Mas gosto mais ainda quando me deparo com uma obra que explora a normalidade com uma riqueza narrativa que desacomoda/incomoda. A última que me causou isso foi The Killing.

A série é baseada no seriado dinamarquês Forbydrelsen. Sua versão americana foi criada por Veena Sud, e por duas vezes foi ressuscitada pelos fãs. A série, inicialmente exibida pelo canal AMC, seria cancelada após as duas primeiras temporadas. Na época, a emissora exibia séries de maior audiência e prestígio, como The Walking Dead e Breaking Bad. Mesmo com boas críticas, The Killing permanecia à sombra dessas outras produções. A terceira temporada, enfim, foi acordada entre Fox Studios e Netflix, sendo exibida por AMC e Netflix. Entretanto, ao fim da terceira temporada, a AMC decidiu cancelar de vez o projeto, que foi resgatado para uma última temporada produzida e transmitida pelo Netflix (sim, Netflix, mas ela não é cool).

Com a premissa de uma investigação criminal, The Killing escapa à regra. Não espere uma abertura com The Who como trilha (Alô, alô, alô. Você sabe quem sou eu? C.S.I.), nem perfis psicológicos gigantescos que repetem aquelas fórmulas mágicas do tipo sofreu na infância, virou serial killer e tudo está explicado por causa disso. Ah, também não vai ter idolatria aos militares e heróis de guerra (Adeus, NCIS!). Vamos ao enredo, então.

Em The Killing, somos apresentados a uma Seattle (EUA) dessaturada e chuvosa, em concordância com o clima tenso que ronda uma investigação de homicídio. A cidade é um personagem, e daqueles que te deixam desconfortáveis. Todos andam sempre com casacos grossos, ombros curvados e com passos apressados, encolhendo-se da garoa constante. Mesmo para um amante de inverno e dias nublados, o cenário cinzento durante todo o tempo da série começa a  perturbar. Diferentemente de outras séries policiais, em The Killing os casos não se resolvem em apenas um episódio. Tomemos como exemplo o primeiro que acompanhamos, o assassinato da adolescente Rosie Larsen. São duas temporadas inteiras com essa investigação, acredite. Os agentes Sarah Linden (Mireille Enos) e Stephen Holder (Joel Kinnaman), personagens principais, seguem várias linhas de apuração, cometem muitos erros e precisam lidar com isso, exatamente como todos os seres vivos. E, nesse processo, nós estamos como eles, no escuro. Não há flashbacks, não há informações que só os espectadores sabem. Tudo segue uma linearidade da vida, tanto é que os episódios são nomeados como dias de investigação.

Vale lembrar que eles também não possuem supertecnologias à disposição, nem laboratórios de ponta. E passam longe de serem pessoas geniais. Não espere respostas mirabolantes ou discurso filosófico no estilo True Detective. Não espere gente bem vestida, nem maquiada. As pessoas acordam descabeladas, os investigadores se vestem mal e ficam de mau humor. É o que torna tudo muito mais parecido com um cenário real e com uma representação mais palpável de uma investigação.

Também observamos Linden e Holder desenvolverem um relacionamento. Os dois são personagens que despertam curiosidade, não sabemos se gostamos ou não deles. Em sua vida particular, Sarah foi uma criança abandonada, criada em vários lares adotivos. Agora, ela é a mãe solteira de um adolescente. Frequentemente, seu trabalho fica à frente de sua própria família e saúde. Stephen é um ex-usuário de metanfetamina, tentando refazer seus laços familiares com a irmã e sobrinho. Ambos têm suas próprias cruzes para carregar, o que interfere em seus desempenhos como investigadores. Mas tudo isso não vem com grandes dramas, choro e brigas. Isso só é explorado em episódios cruciais. Mortes, rupturas de relacionamento e a vida segue. Eles continuam fumando, trabalhando, comendo bolinhos vegans (SPOILER FOOD). Mesmo de certa forma afetados, eles entendem que não há bem e mal, não há mocinhos e vilões. O que há é apenas vida, a normalidade da vida e sua insignificância.

“Nós compreendemos há muito tempo que não era mais possível mudar este mundo, nem remodelá-lo, nem impedir sua infeliz trajetória para a frente. Havia uma única resistência possível: não levá-lo a sério.” Milan Kundera

OBS: Além disso, é revigorante ver uma mulher como a líder da dupla. GIRLS POWER! É Linden quem está treinando Holder. Ela dirige, lidera a investigação, e é a pessoa que é cobrada. Holder até tem um bordão “You my ride, Linden”, que expressa não só o fato de que ela está na liderança, como também que ele confia nela. Sarah tem dramas pessoais muito característicos de mulheres. Ela é questionada o tempo todo em sua capacidade de ser uma boa mãe, já que se dedica enormemente ao trabalho. Quantos homens são ameaçados de perder seus filhos porque trabalham muito? ZERO! Em um momento da série, Linden pergunta ao seu chefe como conseguiu conciliar a carreira e a criação dos filhos. Ele responde: Eu tenho uma esposa. Linden, sarcástica, diz que precisa de uma dessas, evidenciando uma das nuances do machismo na vida das mulheres trabalhadoras.

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