Cultura

Bares de comédia não emplacam em Porto Alegre

No restante do país, modelo de negócio cresce e tem público fiel

Criado na década de 80 nos Estados Unidos, o Stand-up Comedy se expandiu para o resto do mundo e vem se tornando um dos maiores meios de entretenimento do Brasil, conquistando cada vez mais público. No YouTube, são diversos canais, com milhões de visualizações. Na televisão, o momento também é deles. Os chamados “humoristas de cara limpa”, ou seja, aqueles que fazem humor sem se transformar em um personagem, tomaram conta dos meios de comunicação e conquistam cada vez mais espaço nas grades de programação das principais emissoras do país. Em 2016, comediantes como Danilo Gentili, Fábio Porchat, Tatá Werneck e Marcelo Adnet, tomaram conta do horário nobre na TV.

A “primeira geração” do stand-up no Brasil surgiu por volta de 2006, com nomes como Rafinha Bastos, Diogo Portugal, Bruno Motta e Marcelo Mansfield. É bem verdade que o cenário humorístico no país é forte há décadas. No entanto, no formato stand-up, não temos ninguém no Brasil com mais de uma década de experiência. Da mesma forma, as primeiras casas voltadas unicamente a esse tipo de humor apareceram na mesma época. No país inteiro profissionais do stand-up lotam teatros. As apresentações muitas vezes são sem cenário, contando apenas com uma iluminação básica, um microfone, um pedestal e um banquinho.

Mas se por um lado o gênero estourou no país, aqui no Rio Grande do Sul, o formato não emplacou. Será que o gaúcho não gosta de stand-up? Ou talvez o público daqui esteja mais acostumado a outro tipo de humor?

 

Comediantes procuram mercado em outros estados

Nando Viana se apresentando no Curitiba Comedy Club, o primeiro bar de comédia do Brasil. Foto: Arquivo Pessoal / Nando Viana

Nando Viana se apresentando no Curitiba Comedy Club, o primeiro bar de comédia do Brasil. Foto: Arquivo Pessoal / Nando Viana

 

Aos 35 anos, o gaúcho Nando Viana já dedicou oito deles a fazer os outros rirem. Porém, a maior parte deste tempo foi fora do Rio Grande do Sul. Desde 2011 o humorista mora em São Paulo, já que a cena da comédia gaúcha parecia não querer “se levantar”. “A demanda de mercado é muito maior em São Paulo. O mercado do Sul não era tão aquecido, eu vim para cá para melhorar. Os veículos de televisão são daqui, que dão repercussão nacional. Tudo acontece em São Paulo”, explica Viana.

Um exemplo bem sucedido é a Teatro GT, uma produtora especializada em humor e entretenimento que hoje apresenta mais de 150 atrações por ano, todas no estado de São Paulo. A empresa iniciou suas atividades em Indaiatuba – cidade com 200 mil habitantes – e hoje está presente e faz eventos em pelo menos 16 cidades paulistas, incluindo a capital. Todos os principais comediantes do Brasil já passaram pelas mãos da GT. Um realidade difícil de imaginarmos no RS.

Atualmente, Porto Alegre não tem uma grande noite de comédia consolidada. Alguns bares esporadicamente resolvem apostar no stand-up como método para atrair clientes, mas poucos perduram na tentativa. Com periodicidade fixa desde novembro do ano passado, o HooRoo House talvez seja o “nome da vez”. Leonardo Vidal Agostini, 30 anos, é um dos sócios-proprietários do local e diz que a noite da comédia – sempre às sextas-feiras – é o segundo maior faturamento mensal do estabelecimento. “Muitos não estão acostumados com o stand-up. É um público novo. São pessoas que vinham porque já conheciam o espaço. As noites são legais, a gente tem um retorno muito grande e o pessoal consome bastante”, revelou.

Raphael Gomes, 25 anos, iniciou na comédia stand-up em Porto Alegre há três meses. Jornalista de formação, começou no HooRoo, mas já recebeu convites para atuar em outros lugares. Para Raphael, o gênero tem grande potencial no Rio Grande do Sul, apesar de ainda não ter “estourado”. O maior impedimento, segundo ele, é a falta de confiança dos empresários. “É um mercado que depende muito do comediante, que precisa garimpar e convencer o empresário a apostar na comédia. Vários comediantes gaúchos estão desbravando bares em Porto Alegre e abrindo espaço. Os estabelecimentos estão olhando a concorrência e também estão aceitando se arriscar. É bom para nós e para eles”, explica.

Raphael Gomes decidiu entrar para o humor recentemente. Em Junho fez sua primeira apresentação, no Hoo Hoo House. Foto: Arquivo Pessoal / Raphael Gomes

Raphael Gomes fez sua primeira apresentação em junho de 2016, no Hoo Hoo House. Foto: Arquivo Pessoal / Raphael Gomes

 

No último dia 22 de setembro, o restaurante Pampa Burger deu o pontapé inicial no projeto “Vai Rindo!”. Segundo o gerente Filipe Monteiro, a ideia era ocupar um espaço livre que o estabelecimento tinha, fazendo uma noite temática mensal. “Música já é algo muito manjado em bares, então pensamos na comédia”, explica. O radialista Márcio Paz, que já participou de outros projetos de stand-up no Rio Grande do Sul, foi o apresentador da noite. Os humoristas Matheus Breyer, Gio Lisboa, Carlinhos Gotta, Thiago Oliveira e Raphael Gomes formaram o elenco. A apresentação, com cerca de 90 minutos de duração, atraiu por volta de 60 pessoas, um bom público na opinião de Márcio Paz. “A estreia no Pampa foi muito bacana. O humorista que faz o stand-up comedy é um apaixonado, é um guerreiro. Esses profissionais estão unindo forças para levar projetos adiante. Acho que temos um ótimo futuro pela frente”, avalia o radialista.

O humorista Nando Viana compara o momento atual com o que viveu há dez anos em Porto Alegre. De acordo com ele, por mais que o gaúcho esteja mais acostumado a ver uma comédia com humoristas vestindo uma caracterização de um personagem, o humor de cara limpa conta com mais nomes atualmente para fazer com que o mercado tenha demanda. “Há quase dez anos éramos eu e dois amigos. Nós íamos fazendo shows esporádicos em bares e até no interior, mas não haviam tantas pessoas fazendo como é hoje, então nós acabávamos travando esta luta sozinhos e era bem complicado”explica. Viana considera que o público gaúcho se acostumou com os personagens: “Vários espetáculos de comédia, como o do Guri de Uruguaiana, Homens de Perto e Primeiro as Damas são sucesso de público, mas são peças. Hoje, com mais pessoas fazendo stand-up, acho que o público também vai se acostumar mais”, compara.

 

Bares exclusivos fomentam o estilo no país

Bar Comediands, em São Paulo, tem programação totalmente voltada ao stand up. A casa, que pertence aos humoristas Rafinha Bastos e Danilo Gentili, chega a cobrar R$ 80 a entrada, dependendo da atração. Foto: Divulgação / Comedians

Bar Comedians, em São Paulo, foi um dos pioneiros no Brasil e hoje chega a cobrar R$ 80 a entrada. Foto: Comedians/Divulgação.

 

O cenário nacional difere do gaúcho. Um dos mais famosos bares de comédia, o Comedians, em São Paulo, tem programação totalmente voltada ao stand-up. A casa pertence aos humoristas Rafinha Bastos e Danilo Gentili e chega a cobrar R$ 80 a entrada, dependendo da atração. Já o estado do Paraná foi o primeiro a ter um bar dedicado ao estilo. Inaugurado em 2010, 0 Curitiba Comedy Club tem agenda de terça à sexta, com média de ingressos a 20 reais. O sucesso é tamanho que em algumas oportunidades acontecem mais de uma apresentação no mesmo dia. De acordo com o sócio-proprietário João Leonardo Madaloos, de 32 anos, apesar de ser um sucesso, o stand-up ainda tem muito para crescer. “Ainda está engatinhando. Nos EUA tem Comedy Club fazendo 50 anos de idade, enquanto aqui estamos completando seis. Stand-up é uma arte que ainda tem muito à crescer e se desenvolver no Brasil”, pondera. Madaloss aponta que o público no país ainda se confunde com o estilo: “Muitos brasileiros ainda não conhecem ou confundem humoristas de stand-up com contador de piada. Se você comparar com os Estados Unidos, a grande maioria dos atores famosos de Hollywood já trabalhou ou tem alguma ligação com stand-up“, recorda.

Eddie Murphy no início da carreira, se apresentando em teatro.

Jim Carrey, ainda jovem, se apresentando em um comedy club americano.

O empresário ainda acha que o investimento para fundar um Comedy Club é alto e com retorno incerto. Além disso, de acordo com ele, a grande maioria das cidades não teria humoristas o suficiente para montar uma casa com espetáculos semanais. Entretanto, ele aposta que em 10 anos, o cenário mude. “O Curitiba Comedy Club está fazendo sua parte: existe semanalmente a ‘Noite do Open Mic’, com o objetivo de formar novos comediantes. Não faço ideia porque somos o único bar do sul. Tanto Santa Catarina como o Rio Grande do Sul tem excelentes comediantes e também público, basta explorar. Falta um empresário se arriscar e investir. Ou talvez uma união entre os comediantes, para mostrarem que eles tem sim público”, projeta.

Quem são eles:

Raphael Gomes, Gio Lisboa, Carlinhos Gotta, Matheus Breyer, Juliana Barros, Janine Lima, Júlia Wischral, Nelly Coelho, Leo Iplinski, Wilson Rosa, Índio Behn, Dudu Weber, Saulo Chiele, Will Belous, Thiago Oliveira, Rafael Campos, Erik Clepton, Lucas Sampaio e Thiago Varella são apenas alguns nomes que circulam na noite de Porto Alegre e no interior do Rio Grande do Sul tentando expandir ainda mais a comédia stand-up no estado.

Onde assistir em Porto Alegre:

Al Coala Empório Bar (Av. do Forte, 722 – Vila Ipiranga)
Bárbaros Cervejaria (Rua Ramiro Barcellos, 1792 – Rio Branco)
– HooRoo House (Av. Nova York, 835 – Bairro Auxiliadora)
Pampa Burger (Av. Vicente da Fontoura, 1804 – Santa Cecília)
– Paraphernalia (Rua João Alfredo, 425 – Cidade Baixa)

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Comentários

2 comentários sobre “Bares de comédia não emplacam em Porto Alegre”

  1. Felipe disse:

    Comedia também rola em Canoas no Buteco S.A! O unico bar da cidade voltado para comédia, vale a pena conhecer

  2. Jefferson franca disse:

    Tenho interesse em ingressar neste mundo, alguém poderia me informar onde posso fazer um curso ou algo relacionado ao meio, visando afiar meus conhecimentos gerais em volta ao assunto!

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