Cultura

Bandas tributo ganham os palcos do Brasil

Grupos recriam lendas da música e lotam teatros pelo país

ABBA, Amy Winehouse, Beatles, Bee Gees, Édith Piaf, Elvis Presley, Led Zeppelin, Michael Jackson, Pink Floyd, Queen, Ray Conniff e The Doors. Você sabia que todos esses artistas lotaram teatros em Porto Alegre nos últimos anos? Não? Pois é… Você perdeu… Mas calma, nenhum milagre aconteceu. Ninguém ressuscitou, tampouco você está mal informado. As apresentações foram feitas por bandas tributo, a maioria internacionais, e vêm sendo um modelo de negócio que está dando certo no Brasil, principalmente na capital gaúcha. São grupos que se dedicam a recriar, musicalmente e visualmente, artistas que não se apresentam mais.

“Não somos um cover, somos um tributo”, explica o argentino Daniel Liberchuk, que tem 60 anos e interpreta Maurice Gibb no grupo Geminis Bee Gees, que saiu de Buenos Aires e já viajou 12 países interpretando as canções dos irmãos Gibb. A diferença apontada por Daniel é o que garante a visibilidade e o espaço na mídia para esses grupos. A palavra cover é praticamente uma ofensa quando se conversa com artistas como ele. “Dá a ideia de que somos uma banda de bar. Não somos! Nossas apresentações são em teatro, com figurinos, cenários, maquiagem, instrumentos de época e vídeos. É uma produção bem grande. Isso é um tributo”, explica.

 

Daniel Liberchuk (esquerda) interpreta Maurice Gibb no grupo Geminis Bee Gees. Foto: Gab Macário/Divulgação

 

Os anos 90 foram responsáveis pelo aparecimento de diversas bandas cover no Brasil. A maior parte delas tocava em bares, não se preocupando muito com arranjos e harmonia. Poucas se profissionalizaram, deixando a brecha para que grupos do exterior ganhassem espaço nas agendas de teatros. “Parece que o brasileiro não se dedica, principalmente na questão do idioma. Brasileiro cantando em inglês geralmente não fica bom. Os gringos cantando no idioma deles é mais natural. O brasileiro parece também ter preconceito ou preguiça de usar um figurino mais extravagante, de ensaiar as falas, de reproduzir fielmente algo que já foi feito”, explica o produtor de shows Rico Cordelli, que já trouxe ao Brasil espetáculos em tributo ao Queen, Beatles e Bee Gees, entre outros.

É importante ressaltar que a maioria dos homenageados nos shows tributo já não se apresenta mais ao vivo, ou pelo fato de os integrantes terem se separado, ou por já estarem mortos – são raras as exceções. E este é, talvez, o grande segredo do modelo de negócio: recriar grupos de sucesso que o público não terá mais a chance de ver ao vivo. “Se a homenagem for bem feita, principalmente no caso de artistas que não se apresentam mais, é válido, mas o resultado tem que ser perfeito. Se os cantores forem de nacionalidade diferente da banda homenageada, a pronúncia tem que ser boa. Inglês mal pronunciado dói o ouvido. E só funciona realmente ao vivo. Não faz sentido comprar DVD ou CD de uma banda cover quando pode se ter o original”, explica Emílio Pacheco, jornalista e blogueiro musical.

 

Rodrigo Teaser é um dos poucos brasileiros a ter êxito no gênero. O bailarino e cantor é protagonista do espetáculo "Tributo Ao Rei Do Pop", que excursiona o país. (Foto: Divulgação/Rodrigo Teaser)

Rodrigo Teaser é protagonista do espetáculo Tributo Ao Rei Do Pop, que excursiona pelo país. Foto: Divulgação/Rodrigo Teaser

 

Processo de criação

Pode até parecer fácil criar um grupo e interpretar a obra de outro artista. No entanto, o processo de criação de uma banda tributo é muito mais complexo do que se imagina. A primeira dificuldade começa com a semelhança física dos integrantes. Um show tributo leva muito em consideração a parte visual. Por essa razão, antes de se executar um projeto, geralmente um extenso casting é feito para selecionar músicos que se enquadrem nas necessidades de cada espetáculo.

“Eu não posso montar um tributo a Ray Charles com um pianista branco. Assim como não posso montar um tributo aos Rolling Stones com músicos negros. Tem também a questão do peso e da altura. O cabelo solucionamos com peruca, os traços do rosto com maquiagem, a silhueta com luz, os trejeitos ensaiamos, agora, algumas coisas exigem características específicas. Infelizmente, diversas vezes músicos excelentes não conseguem o trabalho em função de serem gordinhos, ou muito baixinhos, ou muito altos, magros etc.”, explica Leon Greco, que já dirigiu espetáculos em tributo ao Queen e ao Creedence Clearwater Revival.

 

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Não se confunda,  não é Bono Vox, e sim o italiano Zeno Sala, vocalista do grupo U2 Zen Garden. Foto: Divulgação/U2 Zen Garden

 

Por falar em semelhança, chega a ser assustador conversar com Ben Portsmouth. O cantor britânico é a cara de Elvis Presley. A semelhança é tanta que o artista foi agraciado em Memphis, no Tennessee, com o título de melhor imitador de Elvis do mundo, no Ultimate Elvis Tribute Artist Contest, um concurso que reúne covers de Elvis do mundo inteiro. Portsmouth foi o único não americano da história a vencer a competição. No dia 15 de outubro, o cantor se apresentou no Teatro do Bourbon Country, para uma plateia de aproximadamente 1 mil espectadores, sendo a quinta passagem do artista por Porto Alegre.

Riqueza de detalhes

O público presente na apresentação do espetáculo The King Is Back, protagonizado por Ben Portsmouth, foi bem variado, de crianças a idosos, homens e mulheres. Após o show, mais da metade do público permaneceu no teatro para uma sessão de fotos com o artista, que pacientemente atendeu a todos, além de autografar CDs, livros e outros produtos próprios, todos aproveitando a marca Elvis Presley.

“Ele é muito parecido. A barba, o cabelo, o olhar, a forma de caminhar, de dançar, de tocar violão, a voz. Ele é o Elvis. Eu chorei quando ele cantou Always On My Mind e My Way, são as minhas preferidas. Peguei até um dos lenços que ele atirou na plateia, como o Elvis fazia. Eu não tive a oportunidade de ver o Elvis verdadeiro, mas vi o Ben. Foi muito divertido e emocionante. Não esperava que fosse gostar tanto”, disse Franciele Nunes, que tem 21 anos e é fã do rei do rock.

 

Ben Portsmouth com uma réplica do figurino usado por Elvis Presley nos anos 60. Foto: Divulgação/Ben Portsmouth

 

Todos os detalhes apontados por Franciele não são por acaso, eles foram cuidadosamente planejados. Os figurinos de um show tributo são montados de acordo com figurinos já utilizados pelos originais em apresentações ao vivo. Além disso, outra particularidade está em relação aos instrumentos: a maioria das bandas só toca com guitarras, baixos e baterias da mesma marca, cor e modelo que os originais usavam em suas apresentações.

No caso de bandas beatle, até mesmo os amplificadores precisam ser de marca específica. Tudo ajuda a reproduzir a sonoridade da época. “Os ternos foram comprados na Inglaterra e costurados por um alfaiate de Liverpool. As botas mandamos fazer com o Mister Green, um artesão que atendia os Beatles e por muitos anos desenhou calçados para o Paul McCartney. Pode até parecer loucura, afinal ninguém olha para o pé de um músico, mas para a gente é bastante importante”, conta Martín Piazzo, que interpreta Ringo Starr na banda The Beats.

 


(A riqueza de detalhes é uma das marcas da banda The Beats. Neste vídeo, o grupo recria o clipe da canção All You Need Is Love, ao vivo, em um teatro na Argentina)

 

Aliás, a banda The Beats, da Argentina, é um dos grandes exemplos de como os mínimos detalhes são cuidados para que um projeto tributo tenha sucesso. O grupo, que já se apresentou no Brasil diversas vezes, chega a ser tão obcecado pela perfeição que em 2007 decidiu alugar o lendário estúdio Abbey Road, em Liverpool, para regravar o clássico álbum Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Como se não bastasse, o grupo foi dirigido, na oportunidade, por Chris Bolster, engenheiro de som que trabalhou com os Beatles. O resultado desse trabalho pode ser conferido em um documentário, disponível em espanhol. Em 2009, o grupo excursionou pela América Latina com Pete Best, primeiro baterista dos Beatles. A turnê passou pela Capital, com uma apresentação no Teatro do Sesi.

 

Argentina

É impossível falar de bandas tributo sem citar a Argentina. O país se notabilizou, ao longo dos anos, pelo grande número de grupos de qualidade fazendo tributo. A banda Geminis Bee Gees é apenas uma entre tantas outras bandas portenhas que visitam o Brasil todos os anos. Neste ano, Porto Alegre recebeu o grupo, também no Teatro do Sesi, em abril. Foi a décima vez que o tributo aos Bee Gees se apresentou na Capital em menos de seis anos, um verdadeiro recorde em nível internacional.

A primeira banda portenha a desbravar o mercado brasileiro foi justamente a The Beats, recriando os Beatles. O grupo abriu as portas do Brasil para os tributos internacionais. Em seguida, foi a vez da banda God Save The Queen – que, como o próprio nome sugere, faz tributo ao Queen – ganhar as terras brasileiras. A receita, em Porto Alegre, foi igual nos dois casos. As primeiras apresentações dos grupos foram no Salão de Atos da UFRGS, e a cada novo ano um teatro maior passou a receber os shows. Hoje, quando visitam a Porto Alegre, as bandas tocam no Auditório Araújo Vianna, que tem capacidade para 3.600 espectadores (e mesmo assim, às vezes, ainda falta espaço). Além do Rio Grande do Sul, os grupos argentinos se apresentam em estados como Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Distrito Federal, com bastante êxito.

 

A semelhança do argentino Pablo Padín, com o cantor Freddie Mercury, é um dos principais trunfos do espetáculo "God Save The Queen". (Foto: Divulgação/Banda)

O grupo cobra cerca de 10 mil dólares por apresentação, remuneração está na média de alguns nomes consagrados da música brasileira. Foto: Divulgação/Dios Salve La Reina

 

“Buenos Aires é a capital latino-americana do entretenimento. Guardadas as devidas proporções, é como se fosse a nossa Las Vegas. Temos muitos teatros na cidade e muitos espetáculos em cartaz, inclusive esses tributos. Talvez por isso tenhamos mais músicos, produtores e empresários dedicados a este negócio”, explica o argentino Pablo Barrera, diretor de palco, que já trabalhou com diversos espetáculos do gênero.

Outro motivo para os hermanos terem conquistado o mercado brasileiro é o preço. Trazer grupos da Argentina é bem mais barato do que contratar grupos da Europa ou dos Estados Unidos, em função do custo de passagens aéreas e das providências legais para realização do shows. A proximidade entre os dois países garante passagens bem mais baratas, além disso, os argentinos tem uma vantagem em relação aos europeus ou norte-americanos: em 2000, firmou-se um acordo de isenção de vistos entre os governos de Brasil e Argentina, através de um decreto presidencial. Com isso, artistas argentinos passaram a não precisar apresentar mais de visto de trabalho para atuar no Brasil (o mesmo acontece com artistas brasileiros que se apresentam na Argentina). Hoje, o trâmite para retirar um visto provisório de trabalho para um músico estrangeiro, além de demorar semanas e ser bastante burocrático, custa entre US$ 100 e US$ 300, dependendo da quantidade de apresentações. Com os argentinos, não há essa necessidade.

 

(Ismael Espiño, argentino, interpreta o cantor Barry Gibb, na banda Geminis Bee Gees. A primeira vinda do grupo ao Brasil foi em 2011, para shows no Rio Grande do Sul. De lá pra cá, a banda já percorreu nove estados, ultrapassando a marca de 100 apresentações entre shows em teatros, clubes, festas de cidades e eventos temáticos)

Conheça alguns dos grupos tributo que passaram por Porto Alegre nos últimos anos. Clique nos nomes para assistir a um vídeo com a performance dos artistas:

ABBA – ABBAMania (Inglaterra)
ABBA – ABBA Mamma Mia Tribute Show (Argentina)
Amy Winehouse – Back To Amy (Brasil)
Bee Gees – Geminis Bee Gees (Argentina)
Bee Gees – The Australian Bee Gees Show (Austrália)
Elvis Presley – Ben Portsmouth (Inglaterra)
Elvis Presley – Elvis Presley In Concert (Estados Unidos)
Led Zeppelin – Led Zepplica (Estados Unidos)
Led Zeppelin – Zoso Ultimate Led Zeppelin Experience (Estados Unidos)
Michael Jackson – Rodrigo Teaser (Brasil)
Michael Jackson – Who’s Bad (Estados Unidos)
Piaf – Piaf! The Show (França)
Pink Floyd – Ummagumma The Brazilian Pink Floyd (Brasil)
Pink Floyd – The Australian Pink Floyd (Austrália)
Pink Floyd – The End Show (Argentina)
Queen – God Save The Queen (Argentina)
Queen – Dr. Queen (Argentina)
Ray Connif – Ray Connif Tribute Show (Brasil)
The Beatles – The Beats (Argentina)
The Beatles – The Brothers Beatleband (Argentina)
The Beatles – Bootleg Beatles (Inglaterra)
The Beatles – Abbey Road (Brasil)
The Doors – Strange Days (Estados Unidos)
The Doors – The Doors Awake (Chile)
U2 – U2 Zen Garden (Itália)

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