Geral

As outras dores do parto

Uma em cada quatro mulheres no Brasil já sofreu violência obstétrica, que pode ser cometida de diversas formas

Laís Albuquerque e Stéphany Franco

 

Passar por uma cirurgia desnecessária. Não ser ouvida a respeito do seu próprio corpo. Ao reclamar de dor, ao invés de ser atendida, ser xingada. Tudo isso, infelizmente, é comum de se ouvir quando mulheres que já deram à luz contam sobre como foi o parto de seus filhos. Um momento que deveria ser de alegria, acaba se tornando um grande pesadelo. A violência obstétrica é um problema gravíssimo no nosso país e que infelizmente ainda acontece muito em hospitais. Diversas mulheres grávidas são vítimas de maus tratos, abusos morais e até mesmo físicos e muitas por medo ou por pressão, acabam nem denunciando.

Quando Paula* descobriu que estava grávida, logo se informou sobre os tipos de parto e se interessou pelo parto normal. Ela então escolheu a médica que realizou o parto normal em sua irmã, acreditando que assim não sofreria nenhum problema. Entretanto, não foi o que aconteceu. “Sofri violência obstétrica durante todas as consultas do meu pré-natal. A partir do momento em que ela soube que eu queria muito um parto normal, me amedrontava a cada consulta falando coisas absurdas”, recorda. A médica chegou a fazer um procedimento para indução de parto sem o consentimento da paciente. Quando Paula sentiu muita dor, ela lembra que a profissional disse algo como “Tu não quer ter parto normal? A dor é mil vezes pior, existem mulheres que não aguentam”.

Paula afirma que em momento algum a médica respeitou suas escolhas. Ela afirma que além de ter sido praticamente obrigada a fazer cesárea, durante as consultas ainda ocorreram exames de toque desnecessários. “No final da minha gestação eu e minha filha éramos saudáveis, mas eu me sentia impotente, invadida e com medo. Fui desrespeitada e obrigada a passar por uma cirurgia desnecessária e que ia contra a minha vontade”, lamenta. Toda a situação causou-lhe muita frustração e indignação: “Eu sonhei por meses passar por aquele momento, mas ele foi roubado por uma profissional que deveria estar ao meu lado em uma ocasião importantíssima na minha vida. Infelizmente ela estava preocupada apenas com o tempo e o dinheiro dela. ”

A violência obstétrica que Carolina* sofreu foi durante o parto. Quando chegou ao hospital, foi submetida a repetidos exames de toque para verificarem a dilatação. O problema é que diversos profissionais faziam o exame sem ao menos falarem com a paciente. “Durante todo o processo, contei oito pessoas diferentes fazendo os exames. Apenas um médico me avisou que seria desconfortável e perguntou como eu estava me sentindo. Além disso, fizeram a raspagem na área genital sem sequer me avisar”, recorda. Ela passou por diversas situações de violência. Ainda que suas contrações estivessem normais, os profissionais aplicaram ocitocina para acelerar o processo, aumentando as dores de Carolina. Mesmo ela informando a equipe médica que precisava caminhar, teve que permanecer deitada na mesma posição por horas.

 

Mesmo contestada, episiotomia ainda ocorre nos hospitais

A situação de Carolina piorou quando, em um dos exames de toque, estouraram a bolsa amniótica sem sequer avisá-la. “A dor aumentou muito, a ponto de não conseguir ficar sem gritar”, lembra. Quando finalmente mandaram-na para a sala de parto, disseram-lhe para pular de uma maca para a outra. “Eu tentei e não consegui. Então me xingaram porque eu estava gorda. Depois amarraram as minhas pernas, anestesiaram a minha genitália e fizeram a episiotomia sem me consultarem e nem esperarem a anestesia fazer efeito”, afirma Carolina. Ela recorda que além de chorar de dor, chegou a gritar “não” na hora, mas não foi ouvida. “Quando questionei o porquê do corte, disseram que era para facilitar”, recorda.

A episiotomia se trata de um corte que é feito no períneo, logo quando a cabeça do bebê está para sair. Segundo a residente em Enfermagem Obstétrica pelo Hospital Sofia Feldman de Belo Horizonte, Stephanie Marson, a medida é polêmica e bastante contestada. “Os estudos mostraram que não tem necessidade de fazer esse procedimento. O canal vaginal tem capacidade de esticar. O problema é que os profissionais querem cortar para a criança nascer de uma vez”, explica. A profissional afirma que a melhor maneira é quando o períneo rasga sozinho, pois a recuperação e vida sexual futura da mulher se tornará muito mais tranquila.

 

Violência Obstetrícia atinge uma a cada quatro mulheres no Brasil

Crédito: Tomas Edson

Assunto vem sendo cada vez mais debatido e as mulheres estão reconhecendo seus direitos. Foto: Tomas Edson

 

Segundo o Observatório da Violência Obstétrica, a violência obstetrícia afeta a integridade física, moral e psicológica da mulher, sendo mais frequente durante a gestação, parto e situações de aborto. Para Stephanie Marson, o plano do parto é essencial para a proteção da mulher. “A Organização Mundial da Saúde recomenda que o plano de parto seja elaborado e discutido com a equipe assistencial que acompanha o pré-natal, para que todas as dúvidas sejam esclarecidas”. O plano de parto é de suma importância para que a mulher possa dizer o que não deseja para esse momento único e especial que é o processo de parturição e nascimento, assim evitando a violência.

A desigualdade e o racismo parecem acentuar ainda mais a violência que as grávidas sofrem nos hospitais quando dão à luz. Carolina recorda que durante seu parto, havia outra parturiente ao seu lado. “Ela era negra e parecia ser pouco instruída. Quando eu notei a maneira que a tratavam, eu me senti sortuda por ser branca”, revela. Carolina lembra que os profissionais mandavam a moça “calar a boca” e não se mexer, pois ela estaria incomodando as outras mães que estavam tendo seus bebês. “Quando finalmente me deixaram ir no banheiro, ouvi as enfermeiras falando que a moça que estava junto comigo fedia muito e por isso mandariam uma novata dar banho nela”, alega.

O relato de Carolina confirma os dados apurados pelo Ministério da Saúde. A partir de uma campanha realizada em 2014, foi levantado que cerca de 60% da mortalidade materna ocorre entre mulheres negras, contra 34% da mortalidade entre mães brancas. Além disso, segundo a pesquisa Nascer no Brasil, coordenada pela Fiocruz, uma em cada quatro mulheres brasileiras sofrem violência obstétrica durante o parto.

 

Doulas dão assistência as mães na hora do parto

A doula Zezé auxiliou Vanessa Candido a dar à luz. Crédito: Arquivo Pessoal

A doula Zezé auxiliou Vanessa Candido a dar à luz. Crédito: Arquivo Pessoal

 

As doulas são grandes aliadas durante o pré-natal, gestação, parto e pós-parto, fazendo parte da equipe assistencial, são elas que vão promover medidas de alívio e conforto da dor, com técnicas de relaxamento, respiração e massagem. De acordo com Maria José Goulart, a Zezé, doula há quase 15 anos, para exercer a atividade, o olhar tem que estar treinado. “Temos que perceber possíveis intervenções, muitas vezes desnecessárias, como o uso de ocitocina para “apressar” o parto”, afirma.

Para a enfermeira Larissa Valenzuela, a doula tem papel de oferecer conforto, encorajamento, tranquilidade, apoio emocional, físico e informativo. Larissa, que também é residente em enfermagem obstétrica no Hospital Sofia Feldman, referência em assistência ao parto de risco habitual pelo enfermeiro obstetra, fez em 2015 um curso de doulas a fim de poder ajudar ainda mais as mães ao longo da gestação/parto. “Muito mais que proporcionar conforto a doula é alguém em que a parturiente vai confiar e criar vínculo. Aqui no Hospital as doulas são cadastradas e possuem acesso às parturientes”, declara.

Desde 2005 foi sancionada a Lei n°11.108 que dá o direito de a mulher escolher alguém de sua confiança para acompanhá-la no trabalho de parto, parto e pós-parto. Stephanie afirma que apesar da lei existir há mais de uma década, muitos hospitais não cumprem com a norma. “O fato de ter o acompanhante permite que o mesmo fique atento a tudo que acontece no ambiente, pois a violência obstétrica muitas vezes aparece velada por traz de uma piada e não apenas de intervenções invasivas sem autorização da mulher”, completa.

Para Zezé, muitos obstetras restringem o acesso da doula na hora do parto alegando falta de espaço. “Eles fazem a aplicação indevida da lei do acompanhante, para limitar a presença apenas do marido”, completa. Larissa afirma que para muitos profissionais da saúde as doulas não são bem vistas e por este motivo elas têm acesso restrito nos hospitais.

 

Entidades apoiam o parto humanizado

Doulas oferecem apoio para as gestantes durante o parto. Crédito: Arquivo pessoal

Doulas oferecem apoio para as gestantes durante o parto. Crédito: Arquivo pessoal

 

A violência obstétrica pode deixar muitas marcas e traumas, podendo levar as mulheres à morte, o que faz com que muitas precisem de acompanhamento psicológico e psiquiátrico durante o puerpério, causando dificuldades de relacionamento e interferindo na sexualidade. Uma alternativa para driblar a violência que ocorre nos hospitais é o parto humanizado, indicado para casos com risco habitual, geralmente é assistido por um enfermeiro obstetra, visto que diversas entidades apoiam o parto domiciliar, de confiança da parturiente. Quando a gravidez é de alto risco, é necessário um médico.

A doula está presente no momento do parto para confortar a mulher, pois ela não faz parte da equipe médica e deste modo não pode realizar qualquer tipo de procedimento. “Ela não pode avaliar contrações, nem escutar o batimento cardíaco do bebê e nem fazer exames de toque vaginal”, afirma a enfermeira Stephanie. Para Larissa o parto humanizado domiciliar é sempre a melhor opção, desde que a paciente não tenha complicações gravídicas, pois assim toda a família consegue acompanhar o momento do nascimento. “Infelizmente o parto domiciliar ainda é uma opção cara e não é acessível a toda à população”, finaliza.

Entre os órgãos responsáveis pela atuação dos médicos e enfermeiros no Estado, o Coren-RS vem apresentando boas ações no combate a esse tipo de violência. O conselho se posiciona em defesa do parto humanizado e do cuidado com a dignidade da mulher e seus familiares. Além de apoiar a criação e gestão do Observatório da Violência Obstétrica no Brasil, o Conselho já atuou em diversas medidas que inibem as más práticas por partes dos profissionais ligados à área médica.

Em 2016, em ação conjunta com o Sindicato dos Enfermeiros do RS (Sergs) e a Associação Brasileira de Obstetrizes e Enfermeiros Obstetras (Abenfo-RS), as entidades venceram um processo movido contra a Resolução Cremers nº 02/2015 sobre a realização do parto domiciliar e da execução do parto por profissionais não médicos. Na época, a resolução dava a entender que profissionais não médicos estão impedidos de realizar partos. Entretanto, as leis não proíbem que enfermeiros e demais profissionais de saúde atuem nesse procedimento. A justiça então reconheceu a legalidade da atuação da enfermagem durante o parto.

Outra medida em destaque foi a criação da Decisão 95/2016, que proíbe a participação de profissionais de Enfermagem na manobra de Kristeller. O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) aprovou, por unanimidade, a decisão do conselho. Além de não possuir respaldo científico, o procedimento é considerado prejudicial e ineficaz.  Na publicação Parto, Aborto e Puerpério: Assistência Humanizada para a Mulher, do Ministério da Saúde, ele é descrito como “pressões inadequadamente aplicadas ao fundo uterino no período expulsivo”. A partir da ação do Coren-RS, a manobra foi contraindicada por diversas entidades da classe dos profissionais de saúde e foi proibida em todo o Brasil.

 

*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das vítimas entrevistadas.

Lida 923 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.