Esporte

Seleção de mulheres invisíveis

Seleção de futebol feminino é vice-campeã em Portugal, mas título passa despercebido no Brasil

Treino da Seleção Feminina na Granja Comary. (foto: Rafael Ribeiro, CBF)

Treino da Seleção Feminina na Granja Comary. (foto: Rafael Ribeiro, CBF)

Cinco meses antes da abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, que se iniciam em agosto deste ano, a Seleção Brasileira de Futebol Feminino conquistou o segundo lugar na Algarve Cup, perdendo a final por 2×1 para o Canadá, no dia 9 de março, no Estádio Bela Vista. O torneio, que ocorre anualmente desde 1994, em Portugal, reúne as melhores seleções de futebol feminino do mundo. Essa, que foi a 23ª edição, pode ser vista como um preparatório para os Jogos Olímpicos, mas apesar da importância não foi transmitida por nenhuma televisão brasileira.

A coordenadora do Centro de Memória do Esporte (CEME), da Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professora Silvana Goellner, destaca que acompanhar as partidas da Seleção só foi possível pela internet e através de um sinal português. Quando os jogos da Seleção Portuguesa e da Seleção Brasileira coincidiam, não era possível assistir. Em se tratando da seleção permanente do país e levando em consideração que estamos em ano de Olimpíada, a pouca visibilidade dada à participação no campeonato chama atenção. O que auxilia na divulgação são as redes sociais, onde quem gosta e acompanha o esporte pode compartilhar e ter acesso às informações.

Este é justamente um dos assuntos estudados pela professora Silvana e sua equipe: a relação entre as mulheres e o futebol e a sua “invisibilidade”, que a pesquisadora credita a vários fatores. Um deles é a ideia de que o futebol é um esporte de homens para homens, assim como outras modalidades esportivas. Ela faz quatro recortes em relação ao futebol para pensar a invisibilidade: de classe social (muitas das mulheres que aderem ao esporte são das classes sociais menos favorecidas), de gênero, de raça e etnia e de orientação sexual. “O futebol feminino reuniu um pouco dessas pessoas que são invisíveis em outros setores da sociedade”, completa Silvana.

Para a militante da Marcha Mundial das Mulheres Maria do Carmo Bittencourt, a invisibilidade das mulheres no futebol tem explicação: “A masculinização é a desculpa que o patriarcado dá para quase tudo que as mulheres querem fazer quando elas vão para um espaço tido como masculino”. Ela ressalta que o problema tem muito a ver com a divisão sexual do trabalho. Às mulheres ainda é reservado o trabalho interno, doméstico, mais delicado. Maria do Carmo exemplifica que o mesmo estranhamento se dá quando se vê mulheres trabalhando em oficinas mecânicas e em outros trabalhos “masculinos”.

A mestre em Ciências do Movimento Humano e pesquisadora do CEME Pamela Joras jogou futebol desde a infância, chegando a participar de alguns campeonatos e fazendo parte do elenco de alguns clubes pequenos. Ela viveu o que hoje pesquisa, acompanhou a diferenciação que existe nos clubes entre os times femininos e masculinos, a falta de incentivo e a baixíssima remuneração, que ela chamava de ajuda de custo. Além, é claro, da desaprovação da família e da comunidade na sua cidade natal, Restinga Seca. Pamela lembra que as vizinhas chegavam a questionar sua mãe porque a deixava jogar futebol, e o pai só assistiu a um jogo seu quando ela tinha 17 anos.

Essa pressão e o estigma que as mulheres sofrem ao participar de um esporte masculinizado, viraram questionamentos que Pamela busca investigar agora na universidade, com as pesquisas. Com a equipe coordenada pela professora Silvana Gollner, procura reconstruir através de depoimentos das próprias jogadoras um registro histórico das mulheres no futebol brasileiro, documentando o que está preservado apenas na oralidade, pois, segundo ela, até a história é invisível.

Lida 801 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.