Cultura

As muitas bandas de um baterista

Gregório Almeida Rocha, 30 anos, começou a tocar o instrumento na igreja - e nunca mais parou

Por trás das lentes dos óculos de grau e dos cabelos compridos, estilo Dave Grohl, está Gregório Almeida Rocha. Um homem de 30 anos, altura mediana e piadas engraçadas. Nasceu no dia 24 de outubro na cidade de Guaíba, onde reside atualmente. Trabalha como analista de operações numa multinacional em horário comercial. À noite, sua atividade é a música. Seu instrumento é a bateria.

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Foto: Marlon Laurencio Fotografia, Divulgação

“Meu primeiro contato com a música foi através do meu pai. Era pequeno e via ele tocar. Comecei tocando violão. Eu fazia aulas e tocava umas músicas sertanejas, gauchescas, isso aos 11 anos. Fiz uns meses e larguei, desisti do violão e fiquei anos sem fazer nada”, recorda. Já na adolescência, aos 15 anos, foi na “casa de Deus” que teve seu primeiro contato com a bateria. “Eu frequentava a igreja com a minha avó e ficava tocando pandeiro com o pessoal que tocava violão durante os cultos. Acabava fazendo batidas de bateria nesse instrumento. Aí um dia esse pessoal chegou em mim e disse ‘A gente está pensando em comprar uma bateria aqui para a igreja e queremos saber se tu quer tocar’, e eu disse ‘Olha, não sei tocar, mas se vocês comprarem eu me interesso em aprender’. Daí eles compraram a bateria, uma bem velhinha, e eu ia várias tardes de final de semana para o salão paroquial para tocar sozinho. Fui perguntando para outros caras que eu via tocando bateria como é que se fazia. Como é que batia o pé, como batia a mão… então na bateria eu fui autodidata”, relembra, ressaltando que  já teve experiência em outros instrumentos, como guitarra e contrabaixo. “Só não toquei teclado e esses outros instrumentos eruditos, mas, de resto, foi de tudo um pouco”, salienta.

Na época em que conheceu a bateria e dela se tornou melhor amigo, Rocha teve contato com o rock’n’roll, e aí confirmou que queria realmente tocar esse instrumento. “Nunca fui muito bom em cordas, então vi que na bateria eu conseguia me destacar, e é uma forma de extravasar a tensão também”, admite.

Sobre sua trajetória em bandas amadoras, o músico conta que esteve em várias. “A primeira banda que eu toquei fazia cover de Guns N’ Roses e Engenheiros do Hawaii, e se chamava Formiguinha Mimosa. Passei por uma banda de punk rock chamada Anarquia, depois fui convidado para tocar guitarra e ser vocalista de uma banda chamada Vírus, parti para a banda chamada Vicidios, em que tocávamos cover de Ramones e Raimundos. Nessa época eu comecei a ficar um pouco mais profissional no meio amador, sendo reconhecido pelo que eu fazia. Tanto que esse pessoal me convidou pra entrar na banda. Depois comecei a tocar com uns caras e nós fazíamos cover de Cascavelettes e TNT, chamava-se Rock a Ula, depois passei pra uma banda de hard rock chamada No Name, dessa fui pra uma banda de indie rock chamada Empíricos, depois disso eu toquei numa banda cover de Paul McCartney chamada Doutor Maca e atualmente estou tocando numa banda de stoner rock – que é um som pesado, lembra um pouco Black Sabbath, aliás, Black Sabbath é uma das grandes influências desse estilo -, chamada Red Crow Mystical Dog. É algo tipo o corvo vermelho do cachorro místico, é um troço bem doido, mas é um som muito legal. No ano que vem pretendemos gravar um disco inteiro e ficar viajando e divulgando o trabalho onde for possível. Ah, eu esqueci de mencionar uma banda de hardcore que eu tive, chamada For Kane’s”, relata empolgado.

Para conciliar a vida dupla, o rapaz conta que há um acordo com os demais músicos de sua atual banda: marcam shows para os finais de semana ou sempre após as 18h nos dias de semana.

Rocha relata que sua primeira experiência de gravação foi com a banda Empíricos, em 2009. Na época divulgaram o trabalho no My Space e foram reconhecidos por um selo americano. “Era um argentino que tem uma produtora na Califórnia. Ele viu nosso trabalho e estava produzindo uma coletânea com bandas latino-americanas, chamava-se Latino Babel. E ele estava procurando uma banda de cada país, e nós fomos os brasileiros escolhidos. Foi bem legal, ele pegou uma música do nosso disco e colocou no disco dele, divulgou nos Estados Unidos e fez uma turnê de lançamento desse trabalho no Uruguai, Argentina, Chile e México. Nós fomos convidados a tocar no Uruguai e na Argentina. Fizemos dois shows em cada país. Foi uma turnezinha de quatro dias. Viajamos direto, quase sem dormir. Me senti um beatle em Hamburgo, como quando eles começaram. E também foi minha primeira experiência fora do país”, relembra.

Sobre a possibilidade de ter ganhos financeiros com a música, ele admite que é difícil. “Ganhar dinheiro no cenário underground é muito difícil. Eu já ganhei alguma coisa com a música, mas coisas que só cobriram os meus gastos com locomoção, pagar umas cervejas. Mas nunca tentei viver disso, sempre encarei como um hobby. É muito difícil porque a maioria dos lugares que chamam para tocar não querem pagar. No máximo oferecem a divisão da portaria, e na maioria das vezes o próprio local não faz uma divulgação, aí não vai gente e, se não vai gente, a bilheteria é ruim. Mas já houve casos em que ganhei uma grana legal, tipo mais de R$ 200 numa noite. Já houve casos em que eu ganhei R$ 15 numa noite. Já houve casos em que eu tive que pagar para tocar numa noite. Há várias situações. No caso de quem tem banda independente, a gente mais gasta do que ganha. Fazemos pelo prazer de dividir o trabalho e ver as pessoas curtindo a nossa música”, confessa.

O músico relata que há desunião entre as bandas. “A partir do momento que uma banda topa tocar de graça, o cara vai achar que nenhuma banda cobra, e quando tu cobra pra tocar fica malvisto, porque vários outros músicos tocam de graça. Se todos se unissem, batessem o pé e dissessem ‘não, a gente não vai tocar de graça’, os donos de bares, boates e produtoras nos levariam mais a sério, e saberiam que estão lidando com um artista que tem gastos, que muitas vezes tem um instrumento de R$ 5 mil, R$ 10 mil que está carregando e não merece estar lá sem ganhar nada, sem ter o mínimo de reconhecimento financeiro por isso”, critica. “E para tocar ganhando dinheiro é preciso ser apadrinhado no meio musical. Gasta-se uma boa grana no início, porque mesmo se tu for contratado, entre aspas, por uma produtora, tu tem que pagar um valor para bancar os custos iniciais com essa produtora, porque eles não vão sair te bancando. É complicado. Ou tu tem muita sorte ou tu rala, demora muito e ainda tem um retorno pequeno”, desabafa.

Em relação aos sentimentos sobre a música, Rocha diz que ela o “liberta de tudo de ruim que acontece às vezes. É uma das artes mais lindas do mundo, porque tu pode fazer uma pessoa sentir muita coisa escutando um som, coisas boas e ruins. É algo que mexe muito com o sentimento das pessoas. Mexe com o psicológico. É uma arte tão bonita… É tão lindo tu ter criatividade para encostar nas cordas de um instrumento musical, fazer uma nota, uma melodia, e transformar isso numa história, uma situação que faça as pessoas se identificarem de alguma forma, e isso faz elas se sentirem bem. Então, música é tudo de mais importante que há na minha vida, depois da minha família”.

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