Cultura

Artistas brasileiros fazem produções sobre a situação política do país

Detonautas, Beth Carvalho, Carioca do Pânico e Porta dos Fundos, entre outras, abordam a crise em suas criações

Jonara Córdova e Júlia Soares

O momento político atual não passa despercebido pela classe artística. Diversos artistas têm se pronunciado a respeito do possível impeachment da presidente Dilma Rousseff, tanto por meio do discurso, quanto através de produções culturais. A banda Detonautas, em conjunto com o rapper Flávio Renegado, lançou nesta semana o clipe da música “O morro mandou avisar”, mostrando-se contra o impeachment, que é visto por eles como um golpe político. Outra cantora que expôs o seu posicionamento foi Beth Carvalho, com o samba “Não vai ter golpe”.

 

 

 

Doutorando em Comunicação e Informação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor da Unisinos, Everton Cardoso acredita que esse posicionamento gera mais um conforto para quem se identifica com o artista do que uma influência. Mas ele vê o posicionamento como algo positivo, pois, por serem pessoas públicas, os artistas conseguem alcançar uma visibilidade maior do que os cidadãos comuns, podendo se expressar em relação à política num âmbito mais profundo do que o partidário.

Hamilton Leite é artista de rua, membro do grupo de teatro Oigalê, e integra o Conselho Municipal de Cultura. Membro do grupo Cultura pela Democracia, ele acredita que todos têm um posicionamento, e com os artistas não deve ser diferente. Segundo ele, “a democracia parece estar sendo banida do nosso país, e o artista, como trabalhador a serviço da cultura, deve se posicionar sempre”.

Outra forma de expressão ocorre no humor. Márvio Lúcio, o Carioca, do programa Pânico na TV, tem se apresentado em todo o país com a personagem Dilma Ducheff, uma sátira à figura da presidente. O professor Everton avalia que criações artísticas como essa se tratam de liberdade de expressão. Não vê como algo desrespeitoso quando a piada contesta a vida pública da presidente, mas sim quando tratam de questões da intimidade de Dilma, como a orientação sexual, ou o fato de se tratar de uma mulher no poder, por exemplo.

Na opinião do professor, a personagem Dilma Ducheff é muito menos desrespeitosa do que algumas publicações jornalísticas que têm sido veiculadas. Para ilustrar, ele citou o caso em que a revista Istoé compara a presidente com “Maria I, a Louca”, e um artigo publicado na revista Época que abordava a vida sexual de Dilma.

Para o ator Hamilton, o grande diferencial do alcance das produções artísticas hoje é a internet. “A grande mídia deixa esses artistas que tomam posições divergentes aparecerem muito pouco. Qualquer pessoa que viveu na ditadura, ou a lutou a favor das Diretas, é contra o golpismo. Mas as empresas de mídia escondem isso. Na mídia, só existe uma opinião: a da própria mídia. Vários artistas que são midiatizados não aparecem com suas opiniões, porque a mídia esconde”, declara.

 

Além de Carioca, outros humoristas têm feito produções culturais em cima da crise política. O canal do Youtube Porta dos Fundos, por exemplo, fez o vídeo “Delação”, criticando o foco da investigação, que seria sempre o PT, em detrimento de outros partidos suspeitos de corrupção. Após ir ao ar, o vídeo sofreu muitas críticas, chegando a somar mais de 500 mil “dislikes” e diversos comentários contrários. O professor Everton acredita que o problema não está em pessoas que discordam do artista e o abordam para criticar suas ideias, quando isso ocorre de forma pacífica, pois faz parte da retórica desqualificar a fala do outro, contra-argumentando. A problemática se dá no caso desse assédio ser ofensivo e/ou agressivo.

 

 

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