Cultura

Artistas em movimento

Histórias de quem leva a música na bagagem de forma independente

Passar meses viajando, poucos dias em cada cidade, tocando na rua ou em bares pequenos e vivendo da arte e das contribuições do público. Essa é a rotina de muitos artistas gaúchos que pegaram a estrada para disseminar seu trabalho mundo afora. O que os motiva a seguir viagem, espalhando música por todos os cantos, sem firmar raiz em um lugar? Quais os desafios de passar meses em movimento? Qual a recompensa de tudo isso? A Beta Redação ouviu a dupla Bardo e Fada, o músico Fábio Pádua e a banda Cartas na Rua para entender como é a vida de artistas nômades.

Em uma Kombi, com as duas filhas, o cachorro, instrumentos e muita vontade de se manter em movimento, Bardo e Fada saíram de Porto Alegre em 17 de novembro de 2016 para uma viagem que não tem data para acabar. Conhecida por se apresentar regularmente nas ruas da capital gaúcha, a dupla vê no mundo uma oportunidade de aprendizado. Quando conversou conosco, Fada contou que estavam em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Este já é o quinto estado que percorrem no Brasil. Fada conta que sua vida é na estrada e que foi viajando que cresceu, junto à família de artistas que também estava sempre em movimento.

“Eu comecei a viajar quando tinha seis anos. Fui criada pelo meu pai, sou de uma família de artistas do Rio Grande do Sul. Cresci na estrada, viajei por 13 anos em uma tour. Então, dos seis até meus 19 anos, estive em movimento, e parei para construir a minha família, pois desejava muito ser mãe. Eu não queria casar, eu queria um amigo que compartilhasse isso comigo, e foi aí que conheci o Bardo, que pensava muito parecido. Foi então que, através da música, a gente se uniu”, lembra a cantora.

Juntos na arte e na vida desde 2003, Bardo e Fada contam que nestes 14 anos de parceria muita coisa aconteceu. Conhecidos também por serem adeptos do poliamor, já tiveram seu estilo de vida como pauta em alguns meios de comunicação. “Eu sou nômade, não gosto de morar em lugar nenhum. Gosto de passar temporadas nas cidades. Eu me considero uma cidadã do mundo, quero morar onde eu tiver vontade. E, quando conheci o Bardo, conversamos sobre isso. Ele estava de acordo e resolveu me acompanhar. E foi assim que iniciou essa nossa trajetória, que é cheia de boas histórias e também de planos”, resume.

As filhas de Bardo e Fada, Lavínia, 12 anos, e Mônica, oito, partiram junto nessa tour que tem como objetivo percorrer todo o país, América Latina e Estados Unidos. A mãe ressalta que quis dar a elas a mesma oportunidade que teve. “Crescer na estrada, no cotidiano, vendo a vida como ela é, vendo as coisas acontecerem, tendo maturidade. Porque a gente aprende muito viajando. É diferente de estar parado numa mesma cidade ou  num único endereço. Então eu quis proporcionar para as minhas filhas exatamente o que eu tive, e que me faz muito feliz e livre como eu sou.” Na opinião de Fada, a sala de aula não é o melhor lugar do mundo para se aprender. Ela explica que as filhas estudam pela internet e com o auxílio dos pais.

“A estrada é uma faculdade, ela nos ensina a viver e proporciona muitas outras oportunidades que dentro de uma única sala nenhum professor, por melhor que seja, conseguirá transmitir. Elas estão conhecendo o mundo da melhor forma possível. Sempre que chegamos em uma cidade, eu apresento para elas a história e a geografia do lugar. Agora, por exemplo, nós estamos em Petrópolis. E aqui é o berço do Brasil, onde tudo começou. Elas tiveram aula de política, aprenderam o que é monarquia, porque somos uma república. E isso só nessa cidade”, destaca. A cantora também projeta que quando as filhas tiverem idade para escolher o que fazer da vida, onde vão ou se vão querer ou não fazer uma faculdade, toda experiência adquirida durante as viagens irá prepará-las para isso.

 

Na sua Kombi-casa, Bardo e Fada, as filhas Lavínia e Mônica e o cachorro da família. Foto: Arquivo pessoal, Bardo e Fada

 

A tour atual da banda começou com um objetivo um pouco menor. A princípio, a dupla iria visitar a casa dos seus fãs vips pelo país. Esses fãs são aqueles que contribuem mensalmente para o trabalho da dupla através do que eles chamam de cartola virtual, uma forma de manter os músicos na estrada. O projeto, porém, mudou no meio do caminho com a saída de um membro que fazia parte da banda. Foi então que Bardo e Fada decidiram seguir com um projeto que tinham há mais tempo, que era comprar uma Kombi e viver dentro dela. “Acho que eu já nasci motivada a seguir nessa vida nômade. Eu tentei ter uma vida tradicional como todo mundo, mas só consegui ficar parada por sete anos, e agora finalmente voltei para a estrada, que é o meu lugar”, garante Fada.

A dupla está finalizando as cidades do Rio de Janeiro, depois vai para Minas Gerais, em seguida para a Bahia e assim até completar todo o país. Por dia, eles fazem cerca de três pequenos shows que chamam de spots, sempre na rua e recolhendo as contribuições do público na cartola. São essas doações que garantem o seguimento do projeto, junto com o que é arrecadado virtualmente. “Esses shows que fazemos são nos mais diferentes lugares. Na beira da praia, na praça da cidade, onde tiver gente nós paramos, montamos o equipamento e fazemos o nosso som, fazendo com que muitas pessoas parem e contribuam com o projeto”, conta.

Para o futuro, os planos são simples: seguir viajando e espalhando arte. “Eu, como artista, entendo que tenho uma missão. Não tenho um endereço, porque não quero um endereço fixo. Então, a minha missão é levar a arte aonde ela está sendo necessária, e todo ser humano precisa de arte. Essa é a nossa motivação. Levar a arte para todos os cantos, fazer amigos, conectar pessoas, conhecer gente que apoia esse nosso estilo de vida. Levar amor por onde passamos”, conclui Fada. Para a artista, a maior dificuldade de estar na estrada é deixar pra trás os amigos que são feitos no caminho. De resto, segundo ela, tudo se supera.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Bardo e Fada, acesse o site oficial da banda e também as páginas no Facebook e Instagram.

 

A dupla costuma fazer três apresentações diárias nas ruas das cidades onde passa. Arquivo pessoal, Bardo e Fada

 

Música nômade e autoral 

O músico Fábio Pádua também segue um estilo de vida nômade e tira da arte o seu sustento e realização pessoal. Ele conta que sua história na música começou quando decidiu largar a faculdade de engenharia para se dedicar à arte, sua grande paixão desde criança. “Foi aí que comecei a tocar nas ruas de Porto Alegre e também no Trensurb, junto de outros músicos da região. Depois disso, fui chamado para fazer um processo de ocupação da Ouvidor 63, no centro de São Paulo. Lá, formamos um grupo chamado Caravana Gipsy, que tinha o intuito de levar música mambembe por aí, começando com as viagens”, conta.

Fábio lembra que viajou com a Caravana pelos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “Com esse projeto eu me encontrei na arte mambembe e então passei a fazer parte de outros projetos semelhantes, como o Kombi Chroma Key, uma iniciativa de um amigo meu que viaja com uma Kombi que tem um palco aberto e itinerante de multicultura. Com eles eu percorri Brasil e Uruguai.”

Atualmente Fábio faz parte do Trotta Mundo, um projeto de música nômade que trabalha a fusão dos gêneros afro-indígenas com elementos melódicos da influência da música cigana no mundo. A proposta do grupo é trazer nessa mistura a abordagem de ritmos tradicionais brasileiros como coco, baião e ciranda, assim como ritmos andinos e afro-latinos, sempre na busca de eliminar as fronteiras musicais para dar lugar a um novo estilo para a música do mundo. “O intuito é fazer música autoral, misturando ritmos e culturas de lugares que a gente passa e pessoas que encontramos”, explica.

 

Fábio Pádua integra o projeto de música nômade Trotta Mundo. Foto: Acervo pessoal

 

O projeto existe há cerca de cinco anos, e Fábio integra o grupo desde o final de 2015. Já passaram por vários estados do Brasil, se separaram por alguns meses e voltaram a se reunir no início deste ano para uma nova tour, que teve início em Ouro Preto (MG). Já percorreram cidades de Minas, atualmente estão em Goiânia e seguem para Brasília ainda esta semana. Fábio conta que as apresentações são feitas principalmente na rua ou em pequenos bares e pubs, e que o dinheiro arrecadado durante os shows é o que os mantém viajando. “O que realmente me motiva a sair em projetos nômades é conhecer culturas e pessoas novas, absorver as energias que elas passam e poder compartilhá-las pelos lugares onde passamos. É uma troca mútua de absorver e compartilhar. Trabalho com música, vivo de música e não me vejo fazendo outra coisa”, pontua.

Fábio conta que no começo das viagens passou por alguns problemas, como falta de dinheiro e de local para ficar. Ele diz que começou no ramo muito novo, com 19 anos, mas que foi na estrada que cresceu e aprendeu muitas coisas. “Eu faço da viagem a minha vida e carreira, então nesses quatro anos que estou na estrada, viajar se tornou parte de mim. Contribui para o aprendizado próprio e musical. O propósito disso tudo é tocar conhecimento e miscigenação cultural, coisas que eu julgo muito importantes para a evolução da humanidade.”

Para o futuro, Fábio conta que o foco é o lançamento do CD do Trotta Mundo, que deve acontecer em meados de novembro. Já sobre as viagens, não pretende parar tão cedo. “O mundo é muito grande, e eu quero conhecer o maior número de pessoas e culturas possível”, finaliza. Veja abaixo uma música do projeto que ele faz parte.

 

 

O palco é a rua 

O grupo Cartas na Rua, bastante conhecido por suas apresentações no Brique da Redenção aos sábados de manhã, também vê nas viagens uma possibilidade de troca e aprendizado. Ao contrário de Bardo e Fada e Fábio Pádua, a banda não costuma sair para viagens sem data para voltar, mas nem por isso deixa de fazê-las. Sua marca registrada, porém, é utilizar as ruas como palco. “Tocar na rua veio de uma necessidade que tínhamos de nos manter trabalhando com o que gostamos, e essa foi uma alternativa para fazer isso. Desde o começo deu muito certo, e só foi crescendo. Hoje já temos os volumes 1 e 2 do nosso disco, já vendemos cerca de 10 mil cópias somente através das apresentações na rua. As viagens, então, foram uma consequência disso”, conta Jean Kartabil, um dos membros da banda.

Para fora do estado já foram duas viagens. A primeira foi em agosto de 2016, quando ficaram 30 dias em São Paulo. Tudo com data marcada, tanto a chegada quanto a saída da cidade. “Foi uma experiência para saber se a gente conseguiria viver da música de rua em outro estado que a gente não conhecia. Deu muito certo, ficamos os 30 dias lá e tocamos muito. Passamos pela Paulista, pelo centro. Galera que nos viu na rua chamou para tocar em bares. A partir daquela viagem, fizemos alguns contatos que possibilitaram nosso retorno em novembro do mesmo ano”, lembra Jean.

Nessa segunda viagem, foi mais um mês fora. Desta vez foram de carro, o que possibilitou algumas paradas na estrada para apresentações, como em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro. “Foi muito bom ver que a música de rua te possibilita viajar o país e o mundo. Basta tu parar, montar teu equipamento e tocar. É muito divertido, é bom para o nosso trabalho e nos faz muito bem pegar a estrada”, diz o músico.

Além das viagens para fora do Rio Grande do Sul, o grupo percorre bastante o seu estado, já tendo feito apresentações em diversas cidades gaúchas, sempre de forma independente. A contribuição do público é, segundo Jean, o meio mais essencial para que o projeto se mantenha. “O que nos motiva a levar a nossa arte para outros lugares é justamente a forma democrática como acontece o envolvimento com as pessoas ao tocar na rua. Na rua para quem quer. Quem tá afim de escutar e é cativado, vê com interesse. E é dessa forma que conseguimos retribuir à altura”, finaliza Kartabil. Para conhecer mais o trabalho da banda, acesse a página oficial do Facebook.

 

Grupo Cartas na Rua faz dos espaços públicos um palco. Foto: Acervo pessoal

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