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Amigos exóticos

Conheça a história de pessoas que adotaram animais de estimação diferentes

Muitas pessoas optam por compartilhar sua vida com um animal de estimação. Cachorros, gatos, passarinhos e peixes ganham destaque nas vitrines de shoppings e agropecuárias, na esperança de sensibilizarem um possível novo dono. Mas e quando o gosto da pessoa, na hora de optar por um animal de estimação, é peculiar? Cobras, ratos, tartarugas vindas de outro continente, coelhos e aves raras  são apenas alguns exemplos de animais exóticos que vivem em residências na Grande Porto Alegre.

Lucas Rosa, 35 anos, entende muito bem o que é ter um “animal exótico”. Seis anos atrás, decidiu adotar o Grima, uma cobra macho da raça americana Corn Snake de um metro e meio de comprimento. “Escolhi a cobra por ser um animal menos carente. Eu sou um cara que corre bastante por aí, paro pouco em casa. Eu sempre amei cachorro, mas eu nunca quis ter um por causa do excesso de responsabilidade”, conta.

"A cobra precisa de ambiente limpo, seco, mas que tenha água, pra ela regular a temperatura do corpo dela. Ela se alimenta de duas em duas semanas", afirma Lucas. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

“A cobra precisa de ambiente limpo, seco, mas que tenha água, para ela regular a temperatura do seu corpo. Ela se alimenta de duas em duas semanas”, afirma Lucas. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

Grima é um réptil, classificado como animal silvestre. “Todo o animal silvestre é aquele que nasce, cresce e se reproduz em ambiente natural – seja uma floresta, deserto, rio, etc – e independe de uma relação direta com o humano. Os animais silvestres podem ser ainda classificados em nativos ou exóticos”, explica o biólogo Miguel Machado, graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Grima é exótico, pois a raça Corn Snake é nativa dos Estados Unidos.

Outro pet diferente, muito popular entre os admiradores de répteis, são as tartarugas Tigre D’Água. Suelen Ribeiro, 33 anos, possui o casal Juju e Cabeção. “Às vezes soltamos as tartarugas para pegar sol, e as deixamos dar um circulada pela casa, mas na maioria do tempo mantemos ela mais nas caixas com água, onde elas gostam”, conta Suelen. O casal de tartarugas curiosamente é mais velho que o casal de filhos de Suelen. Ana Luíza tem 13 anos e Pedro Gabriel fará um ano. Cabeção tem 14 e Juju, três.

Cabeção é uma fêmea Tigre D'Água Europeu de 14 anos e a Juju é a Tartaruga de Orelha Vermelha, uma raça nativa dos EUA. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

Cabeção é uma fêmea Tigre D’Água Europeu de 14 anos e a Juju é uma Tartaruga de Orelha Vermelha, uma raça nativa dos EUA. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

O biólogo Miguel Machado explica que privar um animal silvestre de seu habitat natural (que inclui todos os fatores bióticos e abióticos que garantem a sobrevivência de sua espécie por milhões de anos) certamente afeta seu comportamento. Isto inclui a baixa aptidão ou inabilidade ao caçar, se reproduzir ou proteger-se de predadores. Por esse motivo, muitos silvestres não se adaptam bem ao ambiente residencial e é preciso tomar uma série de cuidados.

Segunda troca de pele do Grima. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

Segunda troca de pele do Grima. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.


Cuidados específicos

Na Zona Sul de Porto Alegre, a clínica veterinária Doutor de Bicho é especializada em atendimento de animais silvestres, embora atenda todas os tipos de bichos. Única em Porto Alegre e da região metropolitana com plantão 24 horas para animais silvestres, oferece o serviço há 16 anos. Por conta da exclusividade, a clínica já recebeu pacientes de vários lugares, até do interior do Estado. “Eu abri a clínica porque senti necessidade de internar esses animais. É muito importante o acompanhamento de qualquer animal que está doente”, explica a médica veterinária Grace Ligocki, 45 anos. “Em torno de 35% do atendimento da nossa clínica é para animais exóticos, e sempre se mantém nessa média. O movimento nunca diminui. Todo dia atendemos a algum animal exótico”, conta.

Doutora Grace examina o gato durante sua recuperação na "cat room", sala destinada apenas para pacientes felinos. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

A veterinária Grace examina o gato durante sua recuperação na “cat room”, sala destinada apenas para pacientes felinos. Fotos: Érika Ferraz/Beta Redação.

Grace relata que, de todos os atendimentos que ela e sua equipe fazem, entre 60% e 70% dos casos são de problemas provindos do manejo inadequado e entre 20% a 30% são relacionados a traumas. “Criam o animal solto dentro de casa, cai a gaiola com o pássaro dentro, alguém pisa no animal por acidente, coisas do tipo.” Doenças ligadas à espécie são a menor causa, entre 10% e 20%. Os bichos mais difícil de diagnosticar, segundo ela, são os répteis. A temperatura deles muda de acordo com a do ambiente.

Em tartarugas, por exemplo, o exame clínico é limitado por causa do casco. E como o inverno no Rio Grande do Sul é mais rigoroso, eles hibernam. Os donos devem propiciar uma hibernação saudável, para que depois eles não acordem doentes ou fragilizados. “Você nunca pode deixar um réptil hibernar sem ter certeza que ele está saudável. Já atendi tartarugas descalcificadas, caquéticas, raquíticas, com falta de várias vitaminas,  porque já vem há muitos anos sendo alimentada de forma errada”, conta a veterinária. Tartarugas levam anos para adoecer, assim como para se recuperar.

A calopsita Pituca foi levada até a clínica porque já fazia mais de um dia que não se alimentava. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

A calopsita Pituca foi levada até a clínica porque já fazia mais de um dia que não se alimentava. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

O caso mais curioso já atendido pela veterinária foi o de uma lagartixa, que era domesticada. “Por mais comum que uma lagartixa possa parecer, ela é um animal exótico que veio da Europa junto com navios negreiros no período da escravidão no Brasil”, explica. A dona da lagartixa relatou que, ao fechar uma janela, acabou atingindo o bichinho sem querer, que ficou paralítico por uma lesão na coluna. “Posteriormente, descobri que era só um edema, e, depois de tratá-la, ela amanheceu caminhando normalmente”, conta Grace, sorrindo.

Por uma questão ética, a clínica não atende pessoas que criam macacos como bicho de estimação. Primeiro por serem animais da fauna brasileira e segundo por serem transmissores de muitas doenças fatais para os seres humanos. “Por exemplo, a herpes, vírus que dá na nossa boca, causa meningite fatal nos macacos. E a herpes deles é fatal para nós. Vi que não valia a pena o risco, e também acaba estimulando mais pessoas a terem”, conclui Grace.


Restrições, leis e punições

Macacos, em quase todos os casos, não estão sendo cuidados devidamente. As pessoas não sabem cuidar”, afirma Emerson Skrabe, de 37 anos, que é biólogo e trabalha no Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS-RS) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O centro trabalha basicamente em três etapas: recebimento de animais, triagem e destinação. O recebimento vem de quatro maneiras:

– resgate (animais retirados de situações de risco);
– entrega voluntária de cidadãos (animais machucados, atropelados, etc);
– arrependimento (pessoas que compram animais ilegalmente e se arrependem);
– apreensão (animais resgatados do tráfico).

A cada dez animais resgatados do tráfico, só um sobrevive. Para se obter um animal exótico, outros nove morrem. “Os animais originários do tráfico são mutilados, cegados, dopados, embebedados, enrolado em jornais e enfiados em canos de pvc e fundos falsos de veículos”, lamenta Emerson. Segundo ele, essas são as situações mais comuns em casos atendidos pelo Ibama.

O cidadão que é pego traficando ou com posse ilegal de algum animal responde por dois processos: administrativo e penal, podendo ser multado e até preso. Mas em alguns casos, nada acontece. “Por vezes, o que o administrativo do Ibama decide, não é o mesmo que a justiça decide”, relata Emerson. “Às vezes o juiz manda devolver o bicho pra pessoa, porque o cidadão apela para a emotividade, e com argumentos sentimentais, convence o judiciário de que o bicho tem que ficar com ele.” Emerson complementa aliviado: “Mas tem acontecido bem menos”.

Cartazes utilizados em campanhas de educação e conscientização ambiental realizados pelo Ibama. Foto: Érika Ferraz/ Beta Redação.

Cartazes utilizados em campanhas de educação e conscientização ambiental realizadas pelo Ibama. Foto: Érika Ferraz / Beta Redação.

Segundo o major Rodrigo Gonçalves, do 1º Batalhão Ambiental da Brigada Militar (1º BABM), no caso de animais nativos serem criados em cativeiro sem autorização dos órgãos ambientais competentes (Ibama e Secretaria Estadual de Meio Ambiente), o criador responde pelo crime ambiental previsto no artigo 29,  § 1º , inciso III da Lei Federal 9605/98:

 

Lei nº 9.605 de 12 de Fevereiro de 1998:

Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências.

Art. 29. Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida:

  • 1º Incorre nas mesmas penas:

III – quem vende, expõe à venda, exporta ou adquire, guarda, tem em cativeiro ou depósito, utiliza ou transporta ovos, larvas ou espécimes da fauna silvestre, nativa ou em rota migratória, bem como produtos e objetos dela oriundos, provenientes de criadouros não autorizados ou sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente.

No caso de animais exóticos, há apenas o crime por introdução de animal exótico em território brasileiro sem autorização (artigo 31 da Lei Federal 9605/98). “Não podemos esquecer também do crime de maus tratos, e esse independe das espécies, ou seja, qualquer animal nativo, exótico ou doméstico pode ser objeto deste crime (artigo 32 da Lei Federal 9605/98)”, complementa o major Rodrigo.

Quanto mais inteligente o animal, mais difícil tratar, principalmente papagaios e macacos. “O gasto de dinheiro público com esses bichos é enorme”, afirma Emerson. Como são bichos inteligentes e vivem em grupo, eles se acostumam muito com o ser humano e começam a estereotipar comportamentos, e para readquirir os comportamentos naturais deles é muito trabalhoso. “As pessoas não tem consciência disso”, enfatiza.


Troca de experiências

Algumas pessoas que criam esses tipos de animais trocam experiências e conhecimento para criá-los da forma mais adequada. Prova disso são os variados grupos em redes sociais, blogs e sites com dicas de manejo desses animais. Essa troca de informações, no entanto, não se dá somente pelo mundo virtual. No dia 25 de setembro, por exemplo, ocorreu o 7º Encontro de Roedores & Lagomorfos, no Parque da Redenção, em Porto Alegre.

O encontro foi realizado no Parque da Redenção em Porto Alegre, e reuniu muito curiosos, principalmente as crianças. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

O encontro reuniu muito curiosos, principalmente crianças. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

Adrio Pegoraro, 26 anos, tem mais de 40 ratos twisters em casa. Ele é criador da raça Dumbo, uma raça há pouco tempo importada da Inglaterra para o Brasil. Adrio reproduz e vende os animais. “Os ratos são muito inteligentes e desenvolvem afeição pelo dono. Você pode treiná-los e ensinar truques a partir de comandos, que é geralmente por clique ou um estalo”, ensina Adrio. Ele afirma que muitas pessoas erram em criá-los sozinhos. “Ratos vivem em colônias e, se criados sozinhos, podem adoecer ou entrar em depressão”, afirma.

Adrio levou sua Dumbo fêmea ao encontro, classificada como "roan", quando o rato tem pelagem escura e com o tempo clareia. A classificação por cor é denominado por "marcação". Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

Adrio e uma Dumbo fêmea, classificada como “roan”. Esse tipo de rato tem pelagem escura que, com o tempo, clareia. A classificação por cor é denominada por “marcação”. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

Gabriela Stankowski, além de ratos, possui há nove meses um porquinho-da-índia chamado de Branco. “Ele é albino e não pode ficar no sol. Ele adora a mim e a geladeira, porque sabe que na geladeira tem comida”, conta rindo. Nesses encontros, os donos e os bichos interagem uns com os outros para trocar dicas, comprar alimentos ou acessórios.

O porquinho da índia é um roedor natural da América do Sul. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.

O porquinho da índia, como o de Gabriela, é um roedor natural da América do Sul. Foto: Érika Ferraz/Beta Redação.


Legalize-se

Segundo o biólogo Emerson, do Ibama, existem duas categorias autorizadas para venda de animais desse tipo: os criadores comerciais e os comerciantes. “Uma pet shop pode pedir uma autorização para vender animais silvestres, que são oriundos de criadouros, que têm pessoas físicas ou jurídicas que fazem um cadastro e solicitam dizendo que querem abrir um criadouro de animais silvestres a fim de comercialização.” A autorização é concedida pela Secretaria do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMA).

O comprador deve procurar por essas pessoas registradas, que vão emitir uma nota fiscal, com todas as características do animal Uma das obrigações é a de que o animal esteja devidamente marcado: aves recebem anilhas e demais animais, um micro chip. “A Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMAM) ajuda o Ibama com os animais silvestres, e a Secretaria Especial dos Direitos Animais (SEDA) dá conta dos animais domésticos”, conclui Emerson.

Caso o cidadão tenha dúvidas ou queira fazer alguma denúncia, pode ligar para os números 180 ou 0800-618080, da ouvidoria do Ibama. Mais informações também podem ser encontradas no site do Ibama.

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