Cultura

Amao Quartet: quatro guitarras e um eco infinito

A música erudita experimentando a improvisação

Quatro guitarras elétricas. Quatro instrumentos semelhantes fazendo sons completamente diferentes. Ou não. Ficou confuso? O Amao Quartet te explica. Pois é assim, através do improviso das quatro guitarras, que o grupo interpreta músicas contemporâneas de concerto. Criado em Porto Alegre no ano de 2014, o quarteto tem na formação atual Glauber Kiss de Souza, Daniel de Souza Mendes, Igor Dornelles e Pedro Guerreschi Paiva. As quatro guitarras se unem apenas pelos acordos preestabelecidos. Fora isso, o som que se escuta é o que vem da cabeça dos músicos no exato momento em que estão tocando. É a improvisação que guia a música da Amao.

“Normalmente, falar em improvisação musical implica em uma associação com o jazz, que, de fato, é um gênero onde se espera naturalmente improvisação por parte dos músicos. Mas os estilos de improvisação específicos que surgiram na segunda metade do século XX diferem bastante”, explica Rodrigo Meine, doutorando em composição musical na UFRGS. Com participação na organização de festivais e de uma série de concertos de música em Porto Alegre, como o Música de POA, na Casa de Cultura Mario Quintana, o Festival Babel, em 2012, e o Germinac.ciones, em 2013, ele explica que o foco do músico improvisador são a harmonia e a melodia. “Os músicos fornecem uma base para que um ou mais solistas se intercalem improvisando melodias dentro das regras e estruturas musicais que essa base gera”, explica.

Amao Quartet. Foto: Arquivo Pessoal.

Amao Quartet. Foto: Arquivo Pessoal.

A categoria ideal para descrever a sonoridade da Amao, segundo Meine, é a improvisação livre. “A palavra ‘livre’ é sempre discutível. Dificilmente uma improvisação ocorre sem que os músicos se escutem ou tenham alguma espécie de roteiro, por mais aberto que seja. Mesmo assim, eles lidam com conceitos convencionais que receberam ênfase na música pós-tonal, a partir do início do século XX”, diz. Segundo o doutorando, os estilos de improvisação foram se tornando mais flexíveis na segunda metade do século passado. “Melodia e harmonia perderam importância. Assim, as improvisações passaram a ter focos muito distintos. Na música de concerto, os compositores começaram, também, a incluir improvisações em suas peças. Uma peça chamada Treatise, do britânico Cornelius Cardew, composta entre 1963 e 1967, é um dos melhores exemplos”, sinaliza.

 

 

A interpretação de composições faz parte do trabalho do Amao. Eles já tocaram peças de compositores de diferentes estados brasileiros, como Rio Grande do Sul, São Paulo e Paraíba. O grupo também fez a primeira releitura brasileira da série Six Graphic Scores, composta pelo americano John Teske.

Já são 17 concertos desde que o grupo começou. Em 2016, realizaram a (des)Virtua Tour, na qual excursionaram, além de Porto Alegre, pelas cidades paulistas de São José dos Campos, Campinas, Mogi das Cruzes e São Paulo. Nessa turnê, o grupo realizou shows com dois membros se apresentando ao vivo e interagindo com o restante do quarteto através do WhatsApp. Também neste ano eles participaram da Fête de la Musique e do ENCUN – Encontro Nacional de Criatividade Sonora, na capital gaúcha.

Um exemplo da sonoridade diferenciada da Amao é a música TrVdIcI0nVl. Aqui temos dois exemplos da mesma música, com sonoridades diferentes:

 

As composições

Terceiro ou quarto dia da Primavera. Este é nome da composição que inspirou Glauber Kiss a criar o quarteto de guitarras. Glauber nos conta que essa obra foi escrita para ser tocada por quatro ou mais guitarras.”O Felipe (Ferla) acabou conseguindo mais três amigos além de mim para tocar essa música. Eu achei tão bacana essa ideia de formação com quatro guitarras, tocando esse tipo de música experimental contemporânea, que fui atrás para ver outros grupos que estavam atuando nesse ramo”, conta. Em sua busca, Glauber encontrou dois grupos: o europeu Zwerm e o nova-iorquino Dither Quartet. “Depois eu ainda descobri que em São José dos Campos tinha o grupo Tempo Câmara, que tem, dentro de um grupo maior, quatro guitarras de seis cordas, mas não são um quarteto especificamente.”

O compositor, o estudante de Arquitetura e Urbanismo Felipe Ferla, explica que a obra que inspirou Glauber foi escrita para um evento que iria ocorrer em Porto Alegre em 2013. “Eu gostaria de participar do mesmo, mas não tenho muitos contatos com músicos no mundo acadêmico e decidi escrever algo relativamente simples para um grupo de guitarras, já que esse é um instrumento que alguns amigos meus tocam, incluindo o Glauber. Comecei e acabei essa obra num período em que meu pai estava internado em um hospital se tratando de um câncer, e muitas vezes tive que passar noites com ele lá”, esclarece.

Depois da apresentação, Glauber chamou outros três amigos para tocar: Nanã Paru, Nativo Hoffman e João Souza. “Com eles, fizemos a primeira apresentação do quarteto, em 2014, na sala Álvaro Moreyra, no Teatro Municipal de Porto Alegre. Após isso, a formação trocou, e entraram Daniel, Igor e Pedro, que compõem o quarteto atualmente”, relata.

Atual formação do Amao Quartet. Foto: Arquivo Pessoal.

Atual formação do Amao Quartet conta com Igor,  Daniel, Pedro e Glauber (esquerda para a direita).  Foto: Arquivo pessoal

Além da composição e improvisação, outro foco do quarteto é colaborar para o reconhecimento da guitarra elétrica perante os estudiosos da música acadêmica brasileira, assim como aumentar a popularidade da improvisação livre e da música contemporânea feita por guitarristas, estimulando o público a entrar em contato com uma combinação incomum: guitarras elétricas tocando música contemporânea e experimental, tanto improvisada como escrita.

 

Amao

Segundo Glauber, quando o quarteto foi formado, começaram as buscas pelo nome. “Queríamos um nome com uma fonética boa e que fosse fácil de falar e lembrar, e tinha que ter um significado legal.” Após diversas tentativas de nomes, Glauber encontrou um dicionário online de uma linguagem indígena bem específica, e dentro daquelas palavras pré-selecionadas estava “Amao”. “Fui ver o significado e encontrei que Amao foi uma divindade que tinha ensinado aos índios o processo de fazer beiju, farinha de mandioca, farinha de tapioca e várias outras coisas e depois desapareceu.”

Segundo o site Terras Brasileiras, o escritor Brandão de Amorim adentrou a tribo para conhecer a lenda contada pelos próprios índios em nheengatu. E é assim.

 

17/17

Um dos concertos já feitos pelos meninos da Amao foi ao lado de Martin Herraiz, compositor paulista. Na ocasião, dois dos membros do grupo tocaram com Herraiz em um festival em Mogi das Cruzes, São Paulo. “Eles me convidaram para fazer essa gig. A gente fez um ensaio aqui em casa no fim de semana anterior e o evento foi numa quinta-feira. Separamos uma sala lá só para fazer a performance. Primeiro eles fizeram um set do Amao sozinhos, com aquele esquema de participações via Whatsapp e tal, depois fizemos um set nós três, de uns 40 e poucos minutos.”

Atualmente, Martin está organizando um duo com Daniel, chamado Discórdio. Segundo ele, o trabalho esbarra um pouco da linha musical do Amao, mas talvez seja um pouco mais radical. A proposta do duo consiste, por um lado, na busca pela integração de aspectos composicionais na improvisação livre, sem recorrer a estruturas predefinidas, e, por outro, na exploração das possibilidades polifônicas do instrumento, multiplicando efetivamente os planos de interação entre as duas guitarras.“Até agora só fizemos uma gig, em dezembro, mas a ideia é entrar no circuito de improvisação livre em São Paulo mesmo, onde tem uma cena bem forte”, conclui.

Daniel tocando air guitar durante apresentação na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Foto: Arquivo Pessoal.

Pedro tocando air guitar durante apresentação na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. Foto: Arquivo pessoal

 

“O duo com o Martin tem esse nome por ser um trocadilho, entre ‘corda’ e a raiz ‘di’, referente a dois. A gente bola as improvisações para duas guitarras tentando se aproximar de aspectos de composição, como escolha de temas, texturas e partes de música, antes mesmo de tocar”, explica Daniel. “No dia 24 de março, faremos um show com participações da violinista, musicista, improvisadora e compositora Flora Holderbaum. Esse show não terá ensaio além das passagens de som”, encerra.

Confira aqui um pouquinho do Discórdio:

Outro local expressivo no qual o quarteto se apresentou foi, em outubro de 2016, na UniCamp, em São Paulo, com a (Des)Virtua Tour. Djalma de Campos, estudante de música da Unicamp e organizador do espetáculo, conta que a universidade estava em greve naquele dia. “Organizei tudo, desde a sala até o último cabo. Glauber tocou com Daniel presencialmente, e os outros dois membros participaram via WhatsApp”, explica ele.

Uma terceira apresentação importante da Amao durante a turnê foi na Trackers, em São Paulo. Daniel Carrera, criador do festival Improvise!, detalha essa presença do quarteto em um dos principais points da cena independente paulista: “O Amao se apresentou aqui em turnê, foi quando os conheci. Esse evento que promovo, o Improvise!, talvez seja um dos mais significativos daqui, pois sempre temos três apresentações do gênero e acontece no coração da metrópole paulista. Pode ser considerado hoje o mais conhecido da América Latina se tratando de improvisação livre. A Trackers, local onde acontece esse festival, é o prédio de concreto mais antigo da cidade de São Paulo, e o espaço é gigante. É frequentado por muitos artistas, é um lugar de fertilidade, contatos, festas”.

Apresentação do quarteto durante o festival Improvise!, em São Paulo. Foto: Arquivo Pessoal.

Apresentação do quarteto durante o festival Improvise!, em São Paulo. Foto: Arquivo pessoal

 

Improcreations

“Nós já tínhamos bastante material. Chegamos à conclusão de que já havíamos construído criações coletivas ao longo de mais de um ano de ensaio e gravamos isso no estúdio do Leandro Cezimbra, em Canoas. Nossa primeira faixa é o pós-processamento de uma improvisação livre que gravamos, onde nosso técnico de som pediu para que gravássemos um improviso só para ele regular os equipamentos e o improviso ficou legal”, relembra Glauber.

Ele ainda explica que o álbum manteve a personalidade de cada membro do grupo.“Ali, colocamos a identidade de cada um do quarteto, dentro de um contexto geral. Tivemos diferentes sonoridades de guitarra, pois cada um usa um modelo diferente. Tem muitas ali onde tu jura que tem um baixo, mas na verdade é a guitarra de oito cordas do Igor.”

O álbum Improcreations já está à venda no Google Play e Spotify, e no SoundCloud estão disponíveis as faixas-bônus.

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