Economia

Alta do dólar faz brasileiros repensarem viagens para os EUA

Depois de uma década de crescimento, viagens aos EUA têm recuo, e destinos brasileiros se tornam alternativas

Moeda ultrapassou os R$ 4,00 e bateu recordes jamais vistos (Foto: CC0 Public Domain)

Foto: CC0 Public Domain

Outrora tido como paraíso por turistas do “Brazil”, os Estados Unidos deixaram de ser uma opção viável com o dólar próximo ou ultrapassando a marca dos R$ 4. Até o ano passado, o país mantinha o terceiro lugar no ranking de turistas que visitavam os EUA, perdendo apenas para Japão e Reino Unido. Em 2013, 2,06 milhões de brasileiros foram passear na terra do Tio Sam. Em 2014, 2,26 milhões, uma alta de 10%. Apesar do crescimento, a projeção do Departamento de Comércio Norte-Americano é que o número de brasileiros no país em 2015 caia 5%. A estimativa foi divulgada durante o IPW15, em junho deste ano, evento que reúne centenas de profissionais da área de turismo de todo o mundo, em Miami, na Flórida. Seria a primeira queda desde 2005. Considerando os últimos 10 anos, o número de turistas brasileiros nos Estados Unidos subiu de 480 mil para 2,2 milhões de pessoas, um aumento de 498%. No mesmo período, o gasto total do viajante brasileiro saltou de US$ 3 bilhões para US$ 13 bilhões, recordes que incentivaram, inclusive, aberturas de novos consulados americanos no Brasil, um deles em Porto Alegre.

Você provavelmente deve ter se acostumado a ver nas últimas semanas notícias sobre a cotação do dólar. Aumentos constantes e diários fizeram com que as “doletas” ganhassem os noticiários. Em menos de um ano, a moeda norte-americana se valorizou 68% em relação ao real e bateu recordes que assustam aqueles que dependem dela para trabalhar, viajar ou até mesmo estudar. O Banco Central até tentou frear o aumento com anúncio de uma série de leilões, no entanto não obteve sucesso imediato. Os números estão fazendo diversos turistas brasileiros que pretendiam visitar os Estados Unidos mudarem de destino ou cancelarem a viagem, confirmando os dados do IPW15.

Isadora Parmegianni é analista comercial de uma empresa de leilões, em Porto Alegre. Ela pretendia viajar para Orlando em maio de 2016. Lá, ia fazer um curso de liderança e excelência em serviços nas dependências da Disney. Além do curso, que tem duração de uma semana, Isadora planejava passar mais dez dias de férias na terra do Mickey. Os planos foram deixados de lado com o aumento descontrolado do dólar: “Comecei a pesquisar sobre a viagem e o curso em março, para comprar agora. No início do ano, a viagem completa com o curso saía R$ 15 mil, mas agora está custando quase R$ 22 mil. Fui obrigada a desistir”, explica, decepcionada.

O aumento apontado por Isadora é comprovado pelos números. No primeiro dia útil de março o dólar comercial estava sendo vendido a R$ 2,89. Na segunda-feira, dia 28/11, quando a reportagem conversou com Isadora, o dólar comercial fechou no seu segundo índice mais alto desde a criação do Plano Real, R$ 4,11. O aumento foi de 42% no período, semelhante ao aumento do custo da viagem para Isadora, 46%. Vale lembrar que o índice válido para Isadora é o de dólar turismo, geralmente 20 centavos mais caro que o dólar comercial. O sonho do curso foi adiado para o ano que vem, no entanto se o dólar não baixar, Isadora já tem um Plano B: “Vou desistir e fazer alguma viagem interna no Brasil”.

Se por um lado o mercado do turismo americano lamenta, por outro, o brasileiro pode comemorar. Segundo o Ministério do Turismo, o número de pessoas que pretendem viajar nos próximos meses vem caindo drasticamente, mas as viagens dentro do país aumentaram. De acordo com a Sondagem do Consumidor, de agosto deste ano, 78% dos entrevistados que desejam viajar vão escolher o Brasil como destino, enquanto apenas 20% pensam em viajar para o exterior. A pesquisa mensal é feita com dois mil moradores de sete capitais do Brasil. No mesmo período do ano passado, os índices eram de 73% e 24%, respectivamente.

Apesar do cenário otimista – 78% é o melhor resultado dos últimos quatro anos –, o número de brasileiros que pretendem viajar nos próximos meses é de apenas 20,6%, o pior índice desde fevereiro de 2009.  A alta do dólar e a crise financeira que assolou o país este ano são as leituras feitas pelo ministério no documento. A Sondagem do Consumidor é feita com moradores de Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Juntas, essas cidades representam cerca de 70% do fluxo turístico do país.

“Meses atrás o dólar estava R$ 3,50, as pessoas ainda aceitavam. No entanto, esse salto da moeda assustou quem planejava viajar. As vendas, no geral, caíram bastante no mês de setembro. Vendemos cerca de cinco vezes menos em relação ao mesmo período do ano passado”, revela Thiago Machado, agente de viagem, atestando o declínio na intenção de viajar, mostrado pelos dados do Ministério do Turismo.

Apesar da alta do dólar ter prejudicado os planos de quem planejava viajar ao exterior, um ponto positivo tem sido encontrado em sites que vendem pacotes de viagem. São as passagens em promoção. Os descontos fornecidos pelas empresas aéreas também são utilizados como argumentos pelas agências para não perderem clientes. “Os fornecedores estão tentando manter o valor dos pacotes em reais absorvendo a alta do dólar, e as empresas aéreas estão fazendo promoções. São tentativas de salvar o mercado”, explica Thiago.

Promoções fazem preços das passagens para os EUA cair 30%

Segundo levantamento feito pelo Voopter, site que compara preços de passagens aéreas, alguns bilhetes para os Estados Unidos foram vendidos 75% mais baratos em relação ao mesmo período do ano passado. Quem viajou de São Paulo para Orlando neste ano, por exemplo, teve a oportunidade de comprar passagens de ida e volta por menos de R$ 500 – em média, o trecho custa R$ 2.000. Passagens para Nova Iorque foram vendidas por R$ 600 em promoções no primeiro semestre, enquanto costumam custar, em média, R$ 2.400. A venda de passagens para os EUA caiu 30,1% em 2015, segundo dados do site. A reportagem testou o buscador e constatou passagens em promoção para diversos destinos norte-americanos.

A estudante de direito Nicole Osterkamp até encontrou uma destas promoções para passar férias na Disney, mas acabou desistindo. O que pesou no orçamento foram os gastos que teria para se manter no destino. Ela planejava permanecer 15 dias em Orlando: “Eu ia em março, tinha conseguido passagem por 300 dólares, mesmo com a moeda em alta compensava. No entanto, não comprei na hora e, quando vi, as passagens subiram um tempo depois. Fiz as contas e, para levar 2 mil dólares para visitar os parques, me manter e comprar algumas coisas, eu teria que desembolsar quase R$ 10 mil, ficou impossível”, diz Nicole.

Como se programar para fazer uma viagem com o melhor preço?

Thiago Machado orienta que os viajantes planejem a longo prazo o seu passeio, esclarecendo que existem diversas opções de pagamento para cumprir o sonho de viajar ao exterior: “Nós oferecemos parcelamento em até 10 vezes sem juros. Alguns fornecedores oferecem a possibilidade de pagar a viagem em um ano. Se o cliente se antecipar e começar a montar sua viagem com antecedência ele terá muitas alternativas. Quando eu falo em antecedência, estou falando em seis ou sete meses antes da data de viagem. Se ele fizer esse planejamento, certamente pagará bem menos do que aquela pessoa que deixou para programar sua viagem uma mês antes”, aconselha.

Mas e com a passagem em mãos, como lidar com os gastos no destino? Também é questão de organização e planejamento. O economista e educador financeiro Everton Lopes, autor do livro Do Economês para o Português – Guia de Finanças Pessoais no Formato de Bolso, ensina que, para quem tem viagem marcada e não pode adiar, o certo é efetuar a compra do dólar pausadamente. “Com a variação do dólar entre R$ 3,90 a R$ 4,20, deve ser feito um planejamento do quanto se irá gastar na viagem e efetuar a compra da metade desse valor quando o dólar apresentar queda e, em seguida, aguardar outras cotações para concluir a compra”, orienta.

Sem perspectivas de baixa, o economista avalia como tendência o teto do dólar ficar ainda mais alto: “Estamos em um momento de muita instabilidade. O dólar vai oscilar, no entanto vai demorar muito para baixar”, resume. Enquanto não baixa, o jeito é ficar ligado em promoções e seguir as orientações dos especialistas. Sites como ViajaNet projetam o custo das passagens para os próximos seis meses em um aplicativo chamado “Quando Viajar”. Outros, como Decolar.com e Submarino Viagens, oferecem um serviço de notificação: basta cadastrar o voo que você está interessado e o site lhe avisa quando entrar em promoção. Um exercício de muita paciência. Nenhuma novidade para quem está acostumado a passar 01, 11, 12 horas dentro de um avião para curtir férias do outro lado do continente.

 

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