Cultura

Além dos palcos: música erudita para todos os públicos

Movimento busca popularizar música que antes era apresentada apenas dentro dos teatros

Entre poltronas vermelhas do grande teatro, o público vai chegando. Com olhares curiosos, ficam atentos, à espera da atração que logo invadirá o palco. Tanto na plateia baixa quanto nos mezaninos, todos esperam a chegada dos artistas.

As luzes vão se apagando, deixando em evidência o palco do Theatro São Pedro. As palmas ecoam pelo local e dão boas vindas aos artistas, que, um a um, vão ocupando seus lugares no palco. Por último entra ele. Um homem com cabelos grisalhos, óculos e terno bordô. Para diante da plateia, faz uma reverência e dá meia volta. Um instante de silêncio. As mãos dele se agitam e, como mágica, a música toma conta de tudo. Chega ao lugar mais distante da sala, ultrapassando até a porta, escapando para além dos palcos.

Essa poderia ser a descrição de mais um concerto entre tantos. Mas o público é diferente, tem entre 7 e 14 anos. A Orquestra do Theatro São Pedro preparou um concerto especial para alunos de escolas da Capital. Além da música erudita, ainda apresentou músicas populares, bem conhecidas pelas crianças.

Durante uma das canções, os músicos se levantam. Como se dançassem, vão seguindo e tocando a música em direção à saída do teatro. No saguão, trocam a melodia e emendam o tão conhecido som de Worth It, do quinteto feminino Fifth Harmony. A música contagiou as crianças, que, tão logo reconheceram a música, acompanharam os músicos em coro.

“Em especial ao longo do último século, o campo da música clássica criou uma aura sisuda, que ainda hoje afasta determinados públicos”

Aqui podemos ver dois movimentos que a música erudita está fazendo no Rio Grande do Sul. O primeiro é da popularização da música erudita e de concerto. O segundo, que está ligado ao primeiro, é levar esse tipo de música para outros espaços, além dos palcos dos teatros tradicionais da Capital.

Para a jornalista Ana Laura Freitas, que trabalha com música clássica, o segmento criou uma barreira em torno de si. “Em especial ao longo do último século, o campo da música clássica criou uma aura sisuda, que ainda hoje afasta determinados públicos”, afirma Ana Laura. Mas, então, como atrair as pessoas para esse tipo de música? Segundo a jornalista, a discussão sobre como se aproximar do público é bastante viva atualmente entre os profissionais da área, no Brasil e no exterior.

Um dos exemplos trazidos pela jornalista é exatamente o que descrevemos no começo: levar os concertos para palcos ao ar livre, criar apresentações para famílias e desenvolver projetos didáticos dirigidos a crianças e escolas. De acordo com Ana Laura, o objetivo é criar um vínculo maior com as comunidades onde as orquestras estão inseridas, além de formar novos públicos.

“Cada vez mais, vemos a realização de apresentações fora dos teatros e das salas de concerto, buscando uma comunicação mais direta com o público e mesmo uma maior inserção na rotina das pessoas”

“Algo mais recente são os projetos que têm buscado romper com determinados códigos do ritual da música clássica, como a prática de somente aplaudir entre os movimentos de uma obra ou o costume de os músicos usarem ternos, fraques e longos vestidos pretos”, explica. Essa também é a visão que o músico Igor Dornelles tem sobre essa nova fase da música erudita. Segundo ele, ao longo dos anos se criou uma falsa visão sobre a música clássica, de que seria algo antigo e chato, mas agora existe mais liberdade até dentro dos concertos, como poder aplaudir durante a execução das músicas. “É importante que tanta gente esteja fazendo esse movimento”, completa Igor.

“Cada vez mais, vemos a realização de apresentações fora dos teatros e das salas de concerto, em espaços informais como bares, cafés, casas noturnas ou mesmo na rua, buscando uma comunicação mais direta com o público e mesmo uma maior inserção na rotina das pessoas”, finaliza Ana Laura.

Jovens ouvidos: um futuro para a música erudita

O concerto para crianças e jovens vai além de uma simples apresentação de músicas clássicas. Entre uma composição e outra, o maestro Antônio Borges-Cunha explica a diferença entre os instrumentos e qual o som de cada um deles. Tudo de maneira didática, para fisgar a atenção do jovem público. A seleção escolhida para o concerto vai de Carlos Gomes, Mozart, Bach e Vivaldi a Tom Jobim, Pixinguinha, Toquinho e Vinicius de Moraes. Do lado de fora, o ritmo se populariza ainda mais: Fifth Harmony, MC Bola, conhecido pelo hit Ela é top, e a dupla Claudinho e Buchecha, com Fico Assim Sem Você.

Mas por que incentivar esse público? A resposta é simples: o futuro está nos jovens. A frase pode parecer clichê, mas faz todo o sentido. Para o médico e crítico de música Aury Hilário, é preciso incentivar os jovens a conhecer música erudita. Hilário diz que é como ensinar as crianças a comer algo diferente. Elas precisam conhecer o gosto da comida. Caso contrário, sempre dirão que não gostam, porque nunca provaram. Com a música erudita é exatamente assim, ele afirma. As crianças precisam ser apresentadas à música, conhecer os instrumentos, para então dizer se gostam ou não.

“Música é música e faz bem a todos que a escutam”

A Orquestra do Theatro São Pedro desenvolve há 17 anos o projeto Concertos para Juventude. Segundo a diretora da orquestra, Monica Blaya de Azevedo, o projeto é aberto para escolas estaduais e municipais. Cada espetáculo atende 600 crianças, e as apresentações acontecem pela manhã e à tarde. Ao fim de um dia, mais de 1 mil crianças passaram pelo teatro e tiveram contato com a música erudita e de concerto. “O repertório escolhido pelo maestro muda periodicamente, e vai da música erudita até a música contemporânea e popular. Com isso, buscamos minimizar as fronteiras entre música erudita e música popular”, explica a diretora.

E, de fato, ao fim de uma apresentação é possível ver a felicidade nos olhos das crianças, que interagem com os músicos, acompanham cantando as canções que já são conhecidas por eles e que ali são apresentadas de uma outra forma. “Música é música e faz bem a todos que a escutam”, completa Monica.

 

Concerto fora do teatro: um Desconcerto

Na tentativa de levar a música erudita e de concerto para outros lugares e conquistar outros públicos, a jornalista Ana Laura Freitas desenvolveu um projeto que contempla exatamente isso: o Desconcerto.

“A proposta do Desconcerto é levar música clássica a espaços informais de Porto Alegre, aproximando essa tradição de pessoas que não têm o costume de ir a concertos convencionais. Outra intenção do projeto é estimular nos artistas habituados às salas de concerto o desenvolvimento de novas formas de se comunicar com seu público”, explica a idealizadora.

“Numa sala de concerto, um pianista entra no palco, inclina o corpo pra frente pra saudar o público e, em silêncio, senta pra tocar, mas em um bar isso não funciona!”

Frequentadora assídua de concertos em formato tradicional, nos teatros, a jornalista acredita que a experiência da música clássica não precisa estar restrita a esses espaços. “Pra mim, essa tradição é algo como um patrimônio da humanidade – algo super rico, que se desenvolveu muito e atravessou os séculos, transitando pelas mais diferentes culturas -, e entendo que mais pessoas deveriam ter acesso a ela, experimentar, conhecer e ampliar suas possibilidades de experiência de escuta”, afirma.

O projeto leva instrumentistas para tocar no Parangolé, um tradicional bar da Cidade Baixa, em Porto Alegre. Uma vez por mês, eles se reúnem e apresentam algumas músicas para o público que está ali, comendo alguns petiscos e degustando uma cerveja. Pode parecer estranho sentar em um bar para um happy hour e ter como som ambiente música de concerto. Na verdade, talvez seja apenas uma questão de tempo até acostumar nossos ouvidos àquele tipo de som. Segundo Ana Laura, as edições do projeto Desconcerto têm sido muito bem recebidas pelos músicos e pelo público.

Mesmo assim, a jornalista considera que ainda tem vários desafios. Um deles é estimular os músicos, formados dentro da tradição da música clássica, a adaptarem suas performances a um ambiente informal. “Numa sala de concerto, um pianista entra no palco, inclina o corpo pra frente pra saudar o público e, em silêncio, senta pra tocar, mas em um bar isso não funciona!”, explica.

Outro desafio é a profissionalização do Desconcerto, que é financiado pelas contribuições espontâneas do público, ainda insuficientes para pagar cachês e custos de produção.

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