Economia

Afinal, o que esperar do Bitcoin?

Cripto-moeda lançada há oito anos movimenta um mercado superior aos US$ 20,36 bilhões e impulsiona corretoras

As bitcoins, moedas virtuais criptografadas mais famosas do mundo, conquistam cada vez mais espaço no mercado. Lançada em 2009 pelo japonês Satoshi Nakamoto, a cripto-moeda fez história em março deste ano ao superar o valor de uma onça de ouro por unidade, ultrapassando US$ 1.290. O impulso oferecido pela primeira lei japonesa que reconhece moedas digitais como forma de pagamento fez o valor disparar no fim de maio para US$ 2.700. Na cotação do dia em que esta matéria é finalizada (11/06), o valor em reais quase alcança a marca de R$ 10.000 por unidade (R$ 9.950). Após o boom promovido pela moeda, outras foram criadas e hoje disputam entre si, como Litecoin, Peercoin, Feathercoin, entre outras. Apesar da fama crescente entre investidores, os usuários comuns ainda possuem uma série de dúvidas e restrições em relação a este tipo de investimento. A Beta Redação ouviu um dos sócios da maior corretora de bitcoins do país para compreender tanto o crescimento quanto os rumos da moeda no Brasil.

Foto: Karen Bleier/AFP-Getty Images

Foto: Karen Bleier/AFP-Getty Images

Agenda cheia

Sócio investidor da FoxBit, maior bolsa de bitcoins do país, Marcos Henrique visitou o Rio Grande do Sul para ministrar algumas palestras e participar de reuniões de trabalho na capital. Apesar dos diversos afazeres em terras gaúchas, fez questão de conceder uma entrevista antes de uma reunião. O número de compromissos, inclusive, revela que o mercado explorado pela empresa tem atraído muitas pessoas – algumas, inclusive, mal-intencionadas, como no caso divulgado pelo Fantástico de uma mulher que foi sequestrada em Santa Catarina e teve resgate cobrado em Z Cash ou Monero, moedas digitais semelhantes ao Bitcoin. O marido da vítima lidava com operações do tipo e era conhecido no meio. “Começamos a nos preocupar mais com segurança pessoal depois deste episódio”, conta Marcos.

O que são bitcoins

Segundo dados da bitValor – um site que reúne os índices de volumes e negociações do mercado brasileiro de Bitcoin – referentes ao mês de abril, foi apresentada forte valorização da moeda ultrapassando a cotação máxima histórica. O volume acumulado de 2017 em apenas 4 meses já ultrapassa em 81% todo o ano de 2016. Tal crescimento também pode ser notado na própria FoxBit. A empresa, que foi criada em 2014, por iniciativa do COO João Canhada, que não pôde atender à reportagem em função do grande volume de negociações no período, e é líder no setor, apresentando 41,3% de marketshare, fatia de mercado calculada a partir do total das vendas daquele segmento.

As corretoras

Também conhecidas como exchanges, elas não possuem moedas próprias.“Nós disponibilizamos uma plataforma para que as pessoas que queiram vender possuam um elo de segurança entre as do outro lado, que querem comprar”, explica Marcos. Desta maneira, os depósitos são feitos para a empresa e a transação é realizada automaticamente pela plataforma. Iniciada em 2014, a FoxBit iniciou quando o COO João Canhada realizava o comércio de bitcoins utilizando uma conta bancária própria. “Como os valores foram muito expressivos, ele me contatou e disse que abriria uma empresa porque as operações estavam crescendo demais para uma pessoa física”, recorda Marcos. Após a criação de uma equipe, de uma plataforma e uma parceria tecnológica com a empresa BlinkTrade, Marcos sentiu confiança de investir no negócio. “Quando fundamos a empresa em 2014, já existiam outras há três ou quatro anos no país, como Mercado Bitcoin e Bitcointoyou. Em dezembro de 2015, já éramos líderes de mercado”, orgulha-se.

corretoras

Quem compra bitcoins?

O perfil do consumidor de moedas criptografadas inicialmente parecia restrito ao trader – indivíduo que adquire a moeda em baixa e vende em alta para acumular lucro. Além do trader, outro perfil observado por Marcos diz respeito aos investidores que mantêm suas carteiras de moedas criptografadas a longo prazo como forma de diversificação de portfólio. “É como se eles comprassem ações de uma empresa e aguardassem por alguns anos. O potencial de ganhos é bem interessante e a prática está tendo notoriedade nos últimos meses”, observa Marcos.  Um terceiro perfil corresponde às pessoas que utilizam bitcoins de maneira mais prática, como em viagens internacionais ou mesmo no pagamento de compras pela internet.

quem compra

Bom para empresários e clientes

Segundo Marcos, apesar do tipo mais comum de negociação ainda seja correspondente ao trader, uma tendência corporativa tem se estabelecido. “Muitas empresas estão começando a aceitar as moedas na aquisição de produtos e serviços. Acho importante porque tira a ideia de que bitcoin é apenas digital e sem validade, colocando-a em uma perspectiva real”, argumenta o sócio da FoxBit.

Aos poucos, a ideia parece se ampliar com mais força: na região metropolitana de Porto Alegre, 20 empresas já aceitam pagamentos com a cripto-moeda de acordo com o portal Coinmap, sendo uma em Novo Hamburgo, duas em São Leopoldo, uma em Canoas, duas em Gravataí, uma em Viamão e 13 na capital. Se considerados estabelecimentos que aceitam bitcoins em outras regiões do estado, o número sobe para 36: um em Santo Ângelo, um em Santa Maria, oito em Pelotas, um em São Francisco de Paula, um em Cerro Branco, dois em Gramado, um em Osório e um em Torres.

Bitcoins na região metropolitana

Entre os empreendimentos que realizam transações com bitcoins no Rio Grande do Sul, há lojas de informática, restaurantes, clínicas, escritórios de advocacia, entre outros. “É melhor se proteger utilizando-as, quando o site oferece a opção, do que arriscar o número do cartão de crédito, porque ele fica registrado e suscetível a compras indevidas. Com bitcoins esse conceito não existe, é como se fosse uma compra à vista e o site não tem condições de debitar em outro momento ou enviar o número do cartão para hackers”, informa Marcos Henrique.

Mapa destaca regiões em que são aceitos bitcoins no RS

Mapa destaca regiões em que são aceitos bitcoins no RS

Embora o valor de uma unidade gire em torno de R$ 10 mil reais, não é obrigatória a compra de uma moeda inteira. “Você pode comprar a partir de valores pequenos, como R$ 20. O bitcoin é fracionável em até oito casas decimais, então a pessoa compra, coloca no celular e quando quiser usar, é feita a transferência do valor equivalente”, ensina Marcos. De acordo com o sócio da maior corretora de bitcoins do país, o comércio deveria adotar a forma de pagamento. “Se passarem a aceitar bitcoins, não terão nada a perder pois quem recebe está isento de taxas. Quem paga a taxa de transação é quem envia o recurso”, diz o empresário, citando impostos que são pagos às bandeiras dos cartões – algo em torno de 2 a 5%. Outra vantagem, segundo ele, seria o tempo de repasse do valor. “As empresas demoram, em média, cinco dias no débito e até 30 no crédito para receber o dinheiro em conta, o que gera um fluxo de caixa ruim. Com bitcoins, seria possível reduzir o tempo para um prazo aproximado de quatro horas”, compara.

Legal ou ilegal?

“As pessoas tem ideia que bitcoin é ilegal, proibido, e na verdade não é assim. Governos como Japão, Austrália e Estados Unidos já o regulamentam como forma de pagamento ou dinheiro”, sintetiza Marcos Henrique. Ainda segundo o empresário, no Brasil as cripto-moedas ocupam uma área cinza do direito, visto que não possuem uma regulamentação específica, mas “isso vai mudar em breve”. A convicção se dá pelo fato de que a Câmara dos Deputados instalou no fim do mês de maio uma comissão especial para discutir a regulamentação, pelo Banco Central, de transações envolvendo as moedas virtuais. O intuito é debater os riscos delas contra a estabilidade financeira e o financiamento de atividades ilegais, além de proteger os consumidores em caso de práticas abusivas. A discussão surgiu após o Projeto de Lei 2303/15, de autoria do deputado Aureo (SD-RJ), que argumenta que essas operações devem ser fiscalizadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O órgão, contudo, já se posicionou contra a regulamentação.

proibido

O futuro

Por mais que o futuro da tecnologia seja incerto, de uma coisa Marcos Henrique tem uma certeza: em alguns anos, o bitcoin será tão grande e comum quanto a internet. “O poder que ele tem sobre serviços diversos é tão grande quanto o da internet, então vamos passar por uma revolução financeira nos próximos anos que vai ter o bitcoin como o principal fator de mudança, uma mudança estrutural em toda a sociedade”, finaliza.

 

Lida 294 vezes

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Por favor resolva a equação * Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.