Política

Hoje a aula é sobre política

Os contrastes e concordâncias entre duas realidades diferentes

Michelle Oliveira e Tiago Assis

Basta abrir um jornal, ligar a televisão ou conectar-se à internet para perceber que vivemos tempos de crise econômica e política. A sede por informações de âmbito político se fortalece a cada dia, pois é cada vez mais necessário entender o que de fato está acontecendo no nosso país – e o que pode acontecer num futuro próximo.

Porém, existe uma fase da vida humana em que estamos relativamente perdidos em determinados assuntos, principalmente em temas tão complexos quanto a política. Na adolescência, passamos por inúmeras mudanças. Amadurecemos física e mentalmente, e, atualmente, estes novos adultos, conhecidos como Geração Z, já nascem envoltos em uma bolha de informação constante e massiva. E é a partir desta ideia, contrapondo a ingenuidade da adolescência com a alta necessidade de estar por dentro da política, que questionamos: afinal, o que estes adolescentes, atuais estudantes de ensino médio, sabem sobre política? A realidade social destes alunos interfere neste conhecimento?

Foi atrás das respostas para esta pergunta que a Beta Redação adentrou duas turmas de ensino médio de duas escolas completamente diferentes: a Escola Estadual Bernardo Vieira de Mello, em Esteio, e o Colégio São Luis, em São Leopoldo – colégio particular. Nestas ocasiões, conhecemos alunos de duas séries distintas, primeiro e terceiro ano, respectivamente. Em ambas as turmas os alunos têm entre 16 e 17 anos e ainda não votaram.

Para promover este debate com alunos, decidimos tocar em assuntos atuais, midiáticos. Temas que estão pipocando em todos lugares, como o impeachment de Dilma Rousseff, a Operação Lava Jato, o programa Bolsa Família e, principalmente, as eleições para presidência em 2018.

 

E aí, galera?

Chegamos às Escola Bernardo Vieira de Mello munidos de perguntas e curiosidade. O colégio, localizado no centro de Esteio, é um dos mais antigos da cidade. Em comparação com as demais escolas estaduais da cidade, pode-se dizer que esta é uma das mais simples e precárias. A turma que conhecemos, recém-saída do ensino fundamental, tinha 27 alunos. Entramos na sala com os alunos no primeiro período de aula, onde estes teriam Literatura. Quem já passou pelo Ensino Médio sabe como é estar numa sala com adolescentes: conversas paralelas, vontade de dizer tudo muito rápido, inquietude. Porém, isto não interferiu no debate que promovemos.

Alunos da Escola Estadual Bernardo Vieira de Mello. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação.

Alunos da Escola Estadual Bernardo Vieira de Mello. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação.

Iniciamos nossa conversa explicando aos alunos que não estávamos ali para julgar se suas respostas seriam certas ou erradas. Nosso pontapé inicial foi questionando a eles se conheciam os principais e mais prováveis candidatos à presidência do Brasil nas próximas eleições.

Embora tenha havido um estranhamento, logo saíram as primeiras respostas: Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Questionamos o que sabiam sobre estes personagens e, no geral, obtivemos termos como “corrupção”, “escândalos” e “popularidade”. Sobre este assunto, os alunos confessaram não conhecer propostas ou ideologias, afinal ainda não temos todos os candidatos assumidos.

Também questionamos aos alunos se o que um político faz em sua vida pessoal interfere em sua profissão. A resposta foi: depende. Os alunos citaram casos que, para eles, seriam imperdoáveis para uma pessoa pública, como desvios de dinheiro público e agressões.

Dentre os questionamentos levantados, o debate mais caloroso foi a respeito do programa Bolsa Família. Perguntamos aos alunos se conheciam e se eram contra ou a favor. Nenhum dos alunos soube explicar como de fato funciona este benefício, entretanto, dois alunos opinaram dizendo que eram contra. Rebatendo as ideias dos colegas surgiu uma opinião a favor. Porém o consenso da turma é que, enquanto muitas famílias realmente precisam do dinheiro, outras usam de forma incorreta. Em contraponto, Emily dos Santos, 17, rebateu: “Minha família costumava receber. Pra gente era muito necessário, o salário dos meus pais não era o bastante para sustentar todo mundo”.

Na sequência, ao serem questionados sobre se o ensino de política dentro das escolas é suficiente, a resposta foi unânime: um sonoro não.

Alunos do Primeiro ano da escola esteiense Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação.

Alunos do primeiro ano da escola esteiense Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação.

Ao chegar ao Colégio São Luís, no centro de São Leopoldo, a estrutura já deixava claro que uma realidade diferente estava por ser exposta. Promovemos um debate durante o segundo período de aula desses alunos, momento em que a filosofia seria a matéria a ser estudada.

Começamos da mesma forma, perguntando sobre o conhecimento desses alunos quanto aos prováveis candidatos à presidência da República. Boa parte da turma que contava com 30 alunos soube dizer que os nomes mais cotados para tal cargo são os de Luiz Inácio e Jair Bolsonaro. Alguns até citaram algumas das propostas do polêmico deputado federal do Rio de Janeiro, como a de castração química para estupradores.

Alguns adjetivos diferentes surgiram. Palavras como “extremista” e “fascista” puderam ser ouvidas. “Ele fala muito da boca pra fora, meio loucão”, comentou Guilherme Walter, 16. Teve também quem apoiasse o atual Deputado Federal pelo estado do Rio de Janeiro, citando uma das frases mais repetidas pelos apoiadores do político, “bandido bom é bandido morto”.

Estudantes do terceiro ano no Colégio São Luis. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação.

Estudantes do terceiro ano no Colégio São Luis. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação.

Perguntados sobre o Impeachment, todos os alunos da turma disseram ter acompanhado o processo no dia em que foi feito. Alguns até contaram que acompanhavam o procedimento semanas antes da data da histórica votação no Câmara dos Deputados.

Maicon Souza, 16, opinou sobre o caso. “O Impeachment foi democrático sim”, disse. Consolidando a opinião de Maicon, Lucca Godoy, 16, argumentou. “O Brasil estava sendo muito mal administrado, gastamos mais do que tínhamos e sofremos com isso depois”, esclareceu.

Quanto à crise que nosso país vive, muitos alunos explicaram que com os atrasos nos salários de seus pais, alguns cortes e economias tiveram que ser feitos com maior frequência em suas casas e atividades pessoais. A Lava Jato foi outro cenário debatido. Boa parte afirmou que sabe do que se trata, mas não busca acompanhar as novidades da operação.

Alunos do Colégio São Luis, em São Leopoldo. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação.

Alunos do Colégio São Luis, em São Leopoldo. Foto: Michelle Oliveira / Beta Redação.

Similaridades

Muitos foram os pontos em comum entre os alunos do Colégio São Luís e da Escola Estadual Bernardo Vieira de Mello. O primeiro é de que aquilo que o político faz em sua vida pessoal pode interferir em suas escolhas de voto. Foi consenso em ambas as turmas entrevistadas, o que mostra que os eleitores estão cada vez mais atentos aos políticos e suas atitudes.

Outra unanimidade é de que aprender política nunca é suficiente, os estudantes querem e precisam aprender sobre esse assunto com maior constância. “A legislatura faz com que a política vá ficando mais complexa, temos que aprender cada vez mais”, elucidou Guilherme Walter.

Os memes, imagens de cunho humorístico compartilhadas via redes sociais, também são muito populares entre os adolescentes. Eles afirmam que, mesmo que as notícias sobre política passem com frequência na timeline do Facebook, eles não costumam abrir, porém veem e compartilham os memes.

 

A visão das escolas

Ana Paula Amaral, supervisora e vice-diretora da Escola Estadual Bernardo Vieira de Mello, nos conta que durante as aulas os alunos veem o básico sobre política, porém com a dinâmica mais focada na história. “Nas aulas de sociologia, filosofia, história e geografia os professores já debatem sobre isso. Temos um bom cronograma de ensino, mas a forma que ele vai ser aplicado depende do professor”, explica.

Questionamos a ela se, em sua opinião, os alunos deveriam receber mais estímulo dentro da escola para aumentarem o aprendizado sobre a política atual. Ela negou. “A escola não pode forçar os alunos a seguirem uma ideologia. Se interessar mais sobre esse assunto depende deles mesmos. Os nossos alunos que são mais ativos em aula se interessam mais por esses assuntos fora da escola também. Porém, os alunos que não são tão ativos em aula creio que não adianta puxar. Eles vão amadurecendo durante o ensino médio, e amadurecem muito rápido. De um ano pro outro notamos uma grande diferença”, encerra ela.

O vice-diretor do Colégio São Luis, Paulo Spinelli, 63, conta que a escola tenta ao máximo ensinar sobre política para os alunos em sala de aula, através das disciplinas de sociologia, história e filosofia. “A reforma nos currículos prejudica isso, mas nossa escola vai fazer de tudo para manter este tipo de debate em pauta”, conta.

Sobre a questão familiar e cultura, ambos representantes das escolas afirmam que tentam abordar e naturalizar esses assuntos durante o período letivo, bem como temas a respeito da questões raciais, religiosas e sexuais.

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